Atmosfera de Luz e Sombra

Entrevista com Herbert Baioco sobre seu novo álbum Atmosfera de Luz e Sombra

“Herbert Baioco transita pela arte contemporânea e pela música experimental por meio da produção de instalações e performances que se baseiam na produção de dispositivos de escuta.”

1 – Como define a sonoridade do Atmosfera de Luz e sombra?

Essa empreitada foi em busca da materialização de tentar escutar a luz. Assim, é uma sonoridade ruidosa, mas o volume não te engole; você pode ter uma experiência de detalhes em meio ao ruído e ainda imagino a sonoridade como uma mescla do som da gravação e o som ambiente. Eu busquei um limiar entre uma proposta conceitual de escuta que normalmente encontramos na linguagem e um álbum sonoro, com cinco faixas de cerca de 20 minutos.

2 – Que equipamentos, processo, técnica método e abordagem aplicou na composição do álbum?

Equipamentos de gravação: usei um fotoresistor (LDR) ligado na entrada de microfone de um gravador Sound Devices 702. Usei fones para monitorar o processo de gravação. Não existe tecnologia essencialmente transparente, sempre observamos uns rastros, algumas marcas. Sobre o gravador, gosto dele pois tem um pré-amplificador silencioso que possibilita aumentar o ganho em busca dos detalhes que o LDR emite em posicionamentos diferentes, assim como encontrar e registrar sonoridades mais delicadas e outras mais agressivas. Processo de gravação: tenho cerca de dez horas de material gravado. Com o sensor colado na janela direcionado para fora de casa gravei algumas madrugadas, uma manhã – das 8 até as 10 horas e  um entardecer especialmente ensolarado. Também gravei fontes artificiais de luz – uma lanterna de led, lâmpada incandescente e os próprios leds do gravador – e nessas situações o posicionamento do LDR foi mais experimental. Em resumo, os detalhes surgem dos desvios da luz em direção ao sensor. Obstáculos como meu corpo, folhas, objetos e angulações diferentes. Assim, cada faixa vem de um registro maior em tempo, desde dias diferentes em que foram gravadas e a maneira também foi distinta.

Com o material gravado usei um software editor de som, o Logic Pro. Até chegar no que você ouve foi preciso ajustes de intensidade de volume e alguns cortes de frequências que falavam muito mais alto do que outras (os 120 hz da lâmpada incandescente em especial). O que mais demorou no processo foi encontrar uma sequência para as faixas, que sonoridades vem depois da outra e como fazer a transição faixa a faixa. Frequentemente ao longo da edição eu mudava a referência em que eu estava escutando para observar como o álbum era transformado. Ouvi nos falantes do Macbook, em um fone de ouvido fechado, em outro daqueles intra-auriculares e em monitores de áudio.

Para as fotos eu usei o software maravilhoso do Andrei Thomaz, ampulheta. http://www.maquinasdotempo.art.br/ampulheta.html

3 – O que te influencia e o leva a compor música experimental de improviso?

Gosto de pensar em música experimental como se eu estivesse dividindo uma escuta ou um projeto de escuta com outras pessoas. É uma experiência onde o que se busca ouvir tem de ser fabricado por meio de dispositivos e o impulso de querer ouvir e criar uma natureza, pois esses sons não são dados. Em especial no formato digital, onde se pode escutar infinitas vezes e nos lugares mais longínquos, outras pessoas podem ouvir e ter experiências bem diferentes.

4 – Que álbum, ou performance pode destacar para quem deseja conhecer um pouco mais do seu trabalho?

cargocollective.com/herbertbaioco é o meu site pessoal.

Lá tem o registro de uma performance, “Há Uma Luz que Nunca se Apaga”, que foi lançado em 2015 pela Seminal Records:

https://seminalrecords.bandcamp.com/album/h-uma-luz-que-nunca-se-apaga

5 – Como vê a cena da música experimental no Brasil?

Vejo uma cena bastante plural em expressões artísticas e pessoas.

6 – Ruído ou música?

Fiquei em dúvida se é no caso desse trabalho ou em geral. É uma resposta provisória, mas nessa criação pensei em ruído. Pensar em musicalizar o ruído teria uma conotação de tentar domar e transformar o som e a proposta aqui é deixar soar e se contaminar pelo ambiente e pelas escutas de outras pessoas. Mas acho que a beleza da escuta é ser transitória e se alguém achar que é música, tudo bem.

artista: Herbert Baioco
álbum: Atmosfera de Luz e Sombra
selo: Música Insólita
streaming e download:
https://musicainsolita.bandcamp.com/album/atmosfera-de-luz-e-sombra

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