Entrevista Pompeii Burning

1 – Quando, como e por que começou a fazer música experimental?

Por volta de 2007 eu e @Pedro Webster (Marfim Birds, ex-Indulgence, ex-Burn The Mankind) havíamos formado uma amizade embasada no nosso gosto musical, no caso, metal extremo. Um dia resolvemos de supetão que iríamos gravar “grind experimental” e em coisa de cinco minutos saiu a primeira demo da Taenia Solium; nosso projeto semi-quase-morto-vivo. Não sei qual a inspiração por trás disso na época. Não sei também se ainda importa saber. O tempo passou e continuei flertando sozinho com a produção de som – até que finalmente, no início de 2017, resolvi após uma série de coincidências fortuitas e amizades surpresas, fundar o Pompeii Burning.


2 – Como define seu som?

Creio que as características do que tenho produzido recentemente aproximam-se do Harsh Noise, com elementos de Power Electronics.


3 – Quais suas influências dentro do universo sonoro?

Meu gosto musical de excelência é o Black Metal. Leviathan, Burzum, Altar of Plagues, Mütiilation, Black Funeral, Brenoritvrezorkre, Corubo; são alguns dos meus principais índices deste estilo. Prurient, Macronympha, Aube, Skin Crime, Knurl, Hanatarash e Incapacitants representam a mesma coisa do lado mais agressivo e experimental do meu referencial de influências. Por fim, gosto bastante de etnomusicologia americana (onde América é um continente, não um país) e sempre que encontro algo desse espectro, tento incorporá-los.


4 – Quais dos seus álbuns/apresentações você destaca para quem tem interesse em seu trabalho?

Pompeii Burning ainda é um broto e tenho poucos frutos para mostrar; creio que posso falar deles de modo individual. Mitos de Origem é uma pequena demo onde procurei expressar e justificar com convicção a escolha da minha temática indigenista, tão dissociada deste tipo de arte. Sinto que consegui reduzir essa distância e quase torná-la ilusória; foi muito satisfatório trançar os sons e ouvi-los vez após vez. O Chamado da Madeira Podre é um EP que não pediu licença para aparecer. Representa um momento adverso da minha vida e saiu de forma instantânea, praticamente sem edição, sincero até a medula. Gosto muito da última faixa, das memórias que ela, inevitavelmente, soam para mim.


5 – Quais os tipos de equipamento, técnica, métodos e abordagem utiliza e aplica em seu som? O que não pode faltar em seu set up? Por que?

Como arqueólogo de formação, desde o começo projetei inverter a relação matéria/som. Instrumentos musicais são artefatos moldados ao redor do som que se planeja produzir com eles. Minha noção é a contrária; eu pesquiso quais tipos de sonoridades a matéria crua, cujo objetivo não é musical, pode produzir em um contexto amplificado e distorcido (onde Aube e Knurl são fontes diretas). Embora isto não seja novidade em lugar nenhum, muito menos no noise, eu prefiro confiar nos gestos e na fratura, na curva do metal que é refratário à dobra, na interação constante e diferenciada para gerar a maior quantidade de ruídos. Alguém disse em algum lugar que de uma cascata é possível sintetizar uma orquestra; assim, a água do meu rio é feita de objetos em caráter natural e de coisas cotidianas. Atualmente meu set up é bastante frugal. A título de exemplo, meu principal elemento é uma placa de zinco ligada a piezos. Apitos diferentes e materiais miúdos (parafusos, correntes, plástico, fitas) para conversação com a placa me garantem uma grande paleta de interações, como atritos, percussões, sopros, incisões e estalos. A isto agrego alguns elementos eletrônicos distorção Boss, um chorus de baixo do mesmo fabricante e um pedal Zoom; que moldam aquilo que meus materiais podem expressar com pouco refino e sem grandes discussões técnicas. Logo, o gesto é fundamental para incitar as coisas e geralmente minha atividade é bastante dinâmica e corporal. Afinal, se eu interajo com o corpo dos objetos, nada mais justo que o que eu ouça deles, interaja com o meu. Gesto sem forma, escultura sem estrutura e o ruído vira música num levar contingente – eu misturo a minha matéria com a matéria das coisas procurando uma união, e essa concepção é fundamental para mim.


6 – Como você vê a cena experimental brasileira e o que acha necessário para sua melhoria e desenvolvimento?

Há algum tempo eu e você (Fabiano Pimenta) escrevemos algo sobre isso. Minha opinião é que a cena é a maior aliada e inimiga de si mesmo. Como em outros âmbitos da atividade humana, existe um conflito entre “especialistas” e “desbravadores”, mesmo que o experimental renegue normas de antemão. Apesar disso, a cena é vívida e não acho que ela precise de melhorias; talvez ela precise de um pouco mais de consciência de si e sobre o que é feita. Doutores em acústica e torneiros-mecânicos que produzam dentro deste âmbito são parceiros de sonoridade e contribuem com o mesmo peso, acreditem eles nisso ou não.


7 – Lançamento físico ou digital? Por que?

São duas faces da mesma moeda, porém, cada uma possui atributos intrínsecos que nunca permitirão obsolescência específica ou programada. Mais uma vez, acredito que é a distinção materialista que rege essa dinâmica. Enquanto o formato digital é global e indistinto em sua amplitude, o formato físico permite uma manipulação das formas onde é possível agregar conteúdo de diversas maneiras. O surgimento do formato digital, como vejo sem poder apontar estatísticas, parece ter aumentado o fetichismo dos lançamentos; onde a quantidade de downloads é inversamente proporcional às limitações do material físico, principalmente no mercado colecionista. A parte dessa questão problemática, acho agradável poder escolher e ter acesso a coisas que não teria antes da revolução da internet, ao mesmo tempo que posso adquirir cópias físicas dispondo de acesso a uma maior quantidade de selos.


8 – Indique e fale um pouco sobre os artistas experimentais brasileiros que gosta.

Alvenaria é um projeto que me tocou bastante pelas escolhas estéticas e temáticas. Adoro os títulos que o Igor Souza dá para as faixas e acho que essa particularidade também se reflete como som. PMNT e God Pussy reúnem o que eu gostaria de estar fazendo dentro do ponto de vista técnico, eletrônico e de resultado. Mas continua indiscutível para mim que Anal Mayonnaise, apesar da temática desgastada, entrega a maior quantidade de energia crua e concussiva possível, alargando o grotesco e o absurdo para uma fronteira nova, ainda que sem grandes inovações. Hrönir, Eu, Sleep of Ages e Verme também possuem obras que valem a pena ser exploradas com atenção.


9 – Qual a importância dos selos que distribuem e divulgam artistas de música experimental no Brasil? Quais selos gostaria de indicar?

A lista compilada no grupo Música Insólita revela que ainda não temos real noção da importância dos selos pois é impossível aferir o alcance real de um grupo que não pára de crescer. Devo gratidão a Diego Dias da Mansarda Records pelo convite de tocar ao vivo pela primeira vez e pela amizade que temos cultivado. Célula Tóxica do Lbr Virtualf e Exhaust Valve de Marcelo França publicaram minhas composições e fico feliz de dividir espaço com outros artistas que têm a mesma proposta de extremo que eu.


10 – Sua experiência de vida diária tem relação com sua prática musical experimental [estranha ou insólita]?

Sendo sim ou não, explique de que forma e por que. A Arqueologia sempre me exigiu trabalhar com a matéria; considero ela o conhecimento que pensa as relações das pessoas com as coisas, em qualquer temporalidade. Desta forma, acho que produzo uma espécie de Arqueologia Insólita, onde escavo e organizo sons com a liberdade que me é devida. A questão indígena sempre foi um ponto de debate dentro da Arqueologia como um todo; mas apenas de 2016 para cá fui me aprofundando no pensamento filosófico indígena como referencial teórico para a minha pesquisa arqueológica acadêmica. Isso ganhou forma a ponto de conquistar meu espírito e eu desejar encontrar o quê de indígena em mim. Pompeii Burning é a produção de um sítio arqueológico a partir das minhas experiências de vida através de um ponto de vista espiritual sobre o que é produzir som.


11 – Espaço para promoção

O texto que eu e Pimenta escrevemos sobre o experimental no Brasil está aqui: http://linda.nmelindo.com/2018/03/a-diferenca-da-distancia-aproximacao-e-contrastes-entre-musica-e-ruido/

A lista de selos brasileiros, pertencente à página do grupo Música Insólita pode ser encontrada aqui: https://www.facebook.com/notes/m%C3%BAsica-ins%C3%B3lita/lista-de-selos-brasileiros-experimental-e-eletr%C3%B4nica/1412116995580587/

Bandcamp:https://pompeiiburning.bandcamp.com/

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