Entrevista b-Aluria

1- Quando, como e por que começou a fazer música experimental?


Comecei a fazer meus próprios sons, oficialmente, em 2016, quando eu criei o b-Aluria. Mas minha “atuação”, acho que posso colocar assim, dentro do meio de música experimental é antiga. Por anos fiz textos, a maioria poemas, para alguns nomes da nossa cena, como o -notyesus>, duo do J-P Caron e do Rafael Sarpa – o nome do meu projeto, inclusive, é o mesmo de uma faixa deles cujo texto é um poema homônimo meu escrito em 2001, antigaço; Paulo Dantas, com quem já trabalhei muitas vezes, desde 2008 até ontem, rs; Valério Fiel da Costa… Aí meio que foi ficando frustrante ser aquela pessoa que ouvia tudo de todos, praticamente catalogava lançamentos, ia a todos os shows mas não criava sons, rs. Eu precisei de alguns anos para entender que lançar meus textos em papel era algo que não me interessava tanto e que eu poderia dar um outro rumo a eles.


Acredito que dois caminhos me levaram à música experimental: primeiro, minha relação com o rock – minha primeira formação em música foi estritamente roqueira, rs. Minha mãe só ouvia isso em casa. Comecei a tocar baixo em bandas lá pelos idos anos 90, quando eu era adolescente. Minhas preferências eram o rock dito alternativo, sons sujos, muita distorção, desafinações, coisas tortas. E segundo, meu interesse por “música de vanguarda”, tanto moderna quanto contemporânea – que começou alguns anos depois da tentativa frustrada de formar bandas e etc. Comecei a ouvir muita coisa e, sobretudo, a frequentar concertos. Foi quando conheci Stockhausen, Morton Feldman, quando me apaixonei por Gilberto Mendes. Nessa época eu praticamente rompi com o rock. E aí um dia eu conheci o Fernando Torres (aka, Fernando Sagitário), que, na época, vendia cds na Praça Pedro Lessa, no Centro do Rio, e alguns anos depois transformaria uma loja de tattoos e vinis no Plano B (pra quem não conheceu, foi o espaço mais ativo de shows de música experimental nos anos 2000 no Rio de Janeiro, gerido pelo Fernando e Fátima). Conheci também seus um bilhão de discos – sobretudo pra quem o visitava em casa. Eram metros de parede com muito do que eu viria a conhecer, e outras coisas que, em anos de convivência, eu não tive tempo de conferir, rs. Enfim, foi assim que eu conheci musica extrema, de ruido, “experimental”. Hoje entendo que esse termo é genérico, mas exemplifica razoavelmente bem o que considero ter sido a minha maior influência e o que, definitivamente, me fez querer fazer som. É claro que essa descrição é um recorte; houve mais eventos, mais gente envolvida, mas o resumo bom é esse aí.

2- Como define seu som?

Penso que o que eu faço é uma espécie de colagem non stop ruidosa. Uma espécie de polifonia feedbackiana infernal, predominantemente negativa. Narrativas descontínuas que morrem e se recriam. Me interessa o impreciso, o mal feito, o que fica “mal recortado”, fora de/do tempo.

3- Quais suas influências dentro do seu universo sonoro?

Definitivamente, não é só som que me influência. Tenho muita relação com cinema, o que deve ficar claro com minha utilizações de samples de filmes, tanto som quanto falas; com as artes plásticas e, óbvio, com literatura, poesia. Se eu for citar todas as influências eu não saio mais daqui, rs. Daí vou citar unicamente o que me parece mega necessário para que se saiba de onde “tirei” o b-Aluria: na música/som, Maurizio Bianchi (e Sacher Pelz), EVP’s (electronic voice phenomena), Coil (tudo em que o Peter Christopherson meteu a mão, na verdade) e NON (Boyd Rice), acho que são as primeiras coisas que vêm a mente em 5 segundos de música minha, rs. Velvet Underground, Leonard Cohen, Joy Division, Einstürzende Neubauten, Skinny Puppy. Death in June, Current 93; o neofolk de forma geral. Manon Anne Gillis, Cosey Fanni Tutti, Pauline Oliveros. Suicide, Alan Vega, Pan Sonic. Empirical Sleeping Consort, Dive. No cinema, Maya Derren, Kenneth Anger, Peter Greenaway, David Lynch, Shuji Terayama, Hal Hartley, Antonioni, Godard, Walter Hugo Khouri. Na poesia, Mina Loy, Adília Lopes, Emily Dickinson, Sylvia Plath, Lautréamont, André Breton, Maiakovsky, Samuel Beckett. Nas artes plásticas: Daniel Senise, Max Ernst, Bruegel. Coisa demais já e ainda nem ¼ do todo. Chega, rs.

4- Quais dos seus álbuns / apresentações você destaca para quem tem interesse em conhecer seu trabalho, e por quê?

Até o momento eu tenho um ep lançado, o “[vers]” (que pode ser ouvido aqui: https://b-aluria.bandcamp.com/releases). Estou finalizando o “Caos com nome”, meu próximo disco a ser lançado.

Meu show preferido até o momento foi o que fiz na Praça Sete, em Belo Horizonte, em maio desse ano (2018). Foi ao ar livre, no meio da praça mesmo, e para um público diverso e mega disponível, aberto e interessado. Experiência apaixonante. Dá para conferir alguns trechos breves aqui: https://www.youtube.com/watch?v=6X_1hYat7FY&t=7s

Quem tiver interesse em conhecer mais sobre a minha relação texto & som, deve baixar o “Cidade Arquipélago”, disco do Paulo Dantas com libreto que tem textos meus e arte do Aquiles Guimarães. Amei muito fazer esse trabalho! https://seminalrecords.bandcamp.com/album/cidade-arquip-lago. Tenho alguns outros trabalhos que adoro igualmente que fiz em parceria com o Paulo, mas esse é o que funciona bem como exemplo.

Há também a faixa chamada “B-Aluria” (sim, a grafia difere da do meu projeto propositadamente), do -notyesus>, de “Preto sobre preto”, um dos meus discos favoritos de noise, inclusive: https://toclabel.bandcamp.com/album/preto-sobre-preto. O texto que se ouve na faixa, lido pelo J.P Caron é um poema meu, de título homônimo, como disse acima.

5- Quais tipos de equipamento, técnica, métodos e abordagem utiliza e aplica em seu som? O que não pode faltar em seu set up? Por que?

Sobre o meu primeiro disco, a ideia dele conta com basicamente longas sessões de microfonia feitas com um mic, pedais de efeito e um amp Vox (meu queridinho) gravadas, depois fragmentadas e recompostas. Gosto da ideia de recortar um todo e depois reconstruir um outro todo a partir de fragmentos. Todos os textos que aparecem ali são meus. Vez ou outra aparecem gravações breves de campo (sinos, porta batendo, máquina de escrever…).

Hoje em dia, para tocar ao vivo e para gravar o disco novo, uso sempre o sampler MPX8 da Korg, às vezes um monotron também da Korg, gravo as vozes em um mic vagabundo do meu celular (tenho fetiche), ou no meu toca fitas da Panasonic. Uso teclado em duas faixas também.

Algo que não pode faltar no meu set up, como poeta seríssima que sou, rs, é um bloco onde anoto a sequência das faixas. Acho que meu trabalho depende de uma narratividade específica. Sou uma pessoa ultra controladora com o meu trabalho de som, então tudo é sempre muito ensaiado e medido infernalmente. Detesto a ideia de lidar com improvisações e eventos inesperados. Tenho projetos de mudar isso a médio prazo, rs.

6- Indique e fale um pouco sobre os artistas experimentais brasileiros de que gosta.

Olha, são muitos, rs. Detesto escolher, mas vamos lá. Um dos trabalhos que mais gosto e ouço hoje em dia é o Verjault, que “fura” a bolha do noise e faz, como ele mesmo nomeia, doom noise. Para além disso, acho impressionante como ele torna imprecisa fronteiras entre diferentes “gêneros” (detesto essa palavra, mas não consegui pensar em nada melhor), e mantém uma assinatura tão forte ao mesmo tempo: é drone, kraut, pop em uma mesma faixa. Ele faz uma espécie de pastiche forte que me interessa muito. Gosto particularmente das escolhas “democráticas” das referências sexuais de algumas de suas capas, das artes de seus discos de forma geral. Adianto, em primeira mão, que estamos iniciando uma banda juntos.

O trabalho do Paulo Dantas para mim é especial. Acho impressionante a forma como ele escolhe os materiais de suas gravações de campo e transforma tudo em verdadeiras paisagens sonoras com narrativas densas. Sei que sou um pouco suspeita para falar porque o cara é meu melhor amigo, rs, mas é um artista com quem tenho muita felicidade em produzir junto. Para mim o trabalho dele está relacionado ao do Thelmo Cristovam, que é uma outra referência para mim. Acho encantador como o Thelmo consegue ser tão preciso e poético (no melhor sentido da palavra) lidando com materiais tão vivos e livres.

Gosto do tipo de força que encontro na música do Túlio Falcão, que acho densa, visceral. Fico impressionada como ele “trata” os sons, com total controle deles: o que é para ter punch soa realmente como porrada, e o que é para ser sutil é de uma leveza incrível. Acho que essa característica de precisão, do cuidado com timbres e texturas que me cativa é algo que encontro igualmente no trabalho da Sanannda Acácia.

O trabalho do J-P Caron sempre foi uma grande referência para mim pelo seu caráter radical, denso e sensível. Não somente o trabalho de som, mas seus textos também, assim como as performances atreladas à execução de seus trabalhos.

Me sinto próxima ao trabalho do Fabiano Pimenta (não, não é puxa saquismo com o entrevistador! rs), sobretudo do seu projetos A-tros, que reconheço como um semelhante do b-Aluria. Principalmente pelo sons e texturas rarefeitos, pelos discursos descontínuos e muito presentes, pelos barulhos “frágeis”. Fizemos juntos uma das faixas do “Arcabouço”, de 2017, a “Homem de barbárie”, e temos planos de parceria para o futuro brevíssimo.

Um outro artista cuja estética acho também próxima é o Lucas Pires. Acho que eu ouço a produção do cara há tanto tempo que é possível que eu tenha imitado uma coisa ou outra dele, rs. Gosto muito do que ele faz, tanto no Mortuário quanto no trabalho que ele assina como Lucas, quanto no DEDO.

Me sinto próxima da mesma forma do Yersiniose, projeto que gosto muitíssimo do Mario Brandalise. O trabalho dele com fotografia é incrível também.

Agora serei mais breve, porque está ficando longo, rs: sou fã do Bronte e do Gustavo Torres. Adoro o em extinção da Rayra Costa. Fiquei impressionada com o show que assisti recentemente do Antonio Brito, no Aparelho. Fiquei apaixonada pela apresentação da Nahnati Francischini aqui para o Música Insólita; eu ainda não conhecia o som dela. Tive o prazer de dividir uma noite com o trabalho em dupla da Luisa Lemgruber e do Antonio Ferraz, que achei muito foda. Enfim, é gente pra kct!

7- Qual a importância dos selos que distribuem e divulgam artistas de música experimental no Brasil? Quais selos gostaria de indicar?

Não vou começar por um selo, mas sim um por um trabalho que acho fundamental hoje, que é a Série Dissonantes, criado pela Renata Roman e Natacha Maurer, ambas artistas de música experimental e também produtoras culturais. Eu as admiro muito nesses dois planos, inclusive.

A ideia desse projetos delas, que tem lugar normalmente no Ibrasotope, em São Paulo, é de promover shows de artistas exclusivamente mulheres, de preferência que estão começando. Meu primeiro show foi lá e foi uma experiência inicial fundamental para mim. Penso que a iniciativa de pesquisar e trazer à tona novos nomes, sobretudo o de mulheres, é algo indispensável ao meio e algo que não sê vê tanto por aí. Reconheço que melhorou muito o nível de preocupação em elencar artistas mulheres para shows, eventos e etc, mas a Renata e Natacha fazem de fato uma pesquisa para tal, estão disponíveis para isso. Em alguns meios acho essa chamada “representatividade” feita de forma preguiçosa e burocrática. Há uma repetição enorme das mesmas artistas num mar de possibilidades. Não faz sentido.

Com relação aos selos, gosto muito de alguns que conseguem criar uma identidade forte, tanto pela escolha de seus artistas quanto por uma seleção estética muito presente. Nesse sentido, admiro muito o trabalho da Seminal Records, e gosto, particularmente, do trabalho visual da Sanannda Acácia, que já mencionei acima e que assina parte das capas e artes dos discos, cartazes dos shows, zines, etc. Gosto muito do Estranhas Ocupações por eles terem lançado alguns artistas que são alguns de meus preferidos da nossa cena atual, acho uma seleção preciosa. Gosto muito do QTV também. Eu sou alguém que ouve muita música, rs. Se me interessar, eu vou ouvir; se eu gostar eu baixo para ter o disco comigo, independente de qual selo for.

8- Sua experiência de vida diária tem relação com sua prática musical experimental [estranha, ou insólita]?

Tem total relação, mas não acho que minha vida tenha nada de muito estranho ou insólito, rs. Sou na verdade uma pessoa bastante disciplinada. Basicamente, descobri nos últimos anos que quanto mais rigores, rs, eu tiver no dia a dia, mais liberdade eu ganho com as minhas coisas, minhas experiências. É preciso ter as horas para ter o tempo, rs. Adoraria poder contar que eu como cadáveres em putrefação antes de subir no palco, mas a verdade é que eu tomo chás inofensivos o dia todo e na maior parte do tempo estou com meus gatos em cima de mim.

O que ainda é muito “descolado” da minha experiência com som é o trabalho que tenho que fazer para ganhar dinheiro e conseguir pagar as cotas. Isso eu acho muito cruel porque toma tempo, toma tudo se você deixar. Então, se você tem que trabalhar para se manter, tem que rolar sempre uma força extra para não ir desistindo de coisas pelo caminho.

9- Noise ou música?

Individualmente, não faz mais sentido essa pergunta. Era uma questão legal quando eu queria afirmar coisas mal resolvidas, lá pelos 18 anos de idade, queria ser “true” e tal. Mas num sentido factual, se for para discutir isso, que não seja baseado em achismos e ideias vagas individuais. Existe uma trilha, uma história sobre a música, sobre os sons; existe o surgimento do ruido enquanto material passível de ser escutado. Existe o surgimento do desejo de se ouvir musica de ruído. Ignorar isso e falar sempre de sí, do que eu ou você achamos, é limitar sempre a conversa a uma cena opinativa, sacal e vazia. Não tenho mais saco pra esse tipo de compromisso com música/som: ter que escolher entre uma coisa e outra e ser fiel a uma coisa só, saca? Acho que fazer as coisas assim, escolher isso ou aquilo, é uma realidade típica do metal, rsrs.

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