Antonio Brito – Sem Título (I)

Entrevista com Antonio Brito sobre o álbum “Sem Título (I)”

“Artista residente do Rio de Janeiro, vem experimentando com ruído e música de improviso desde 2015. Com influências do movimento de improvisação minimalista onkyokei, a abordagem do no-input mixing é o cerne de seu trabalho. «Sem Título (I)» é um disco que dialoga com a evolução do artista, remetendo cronologicamente elementos da trajetória do seu envolvimento com a música.”

MI: Como você define a sonoridade do álbum?

AB: Conceitualmente diria que é uma sonificação da linha do tempo de minha relação com a música, utilizo sons que remetem a marcos específicos da minha trajetória, materiais ou ideais. Minha ideia foi fazer uma revisitação de todo o meu histórico, desde o primeiro contato e materiais antigos feitos por mim à performances recentes e abordagens novas. Poderia chamar de “música-sobre-música” por conta desse caráter temporal imbuído no álbum, é como uma crônica da evolução do processo artístico. Acredito que minha maior influência foi a sonoridade do DEDO, projeto de Lucas Pires, Rafael Meliga e Arthur Lacerda, pois foi bem marcante a sensação de presenciar a performance de barbie & king, meu primeiro contato ao vivo com a música experimental. Essa experiência deixou uma assinatura bem forte na concepção do álbum, sabores de estática se esgueirando até tomar quase completamente todo espaço disponível, pequenos staccatos dispostos ao longo da música e outras minúcias. Além desse traço estético, remeti ao uso de no-input mixing board como instrumento, algo sempre presente em minhas concepções musicais trazendo drones e padrões quasi-rítmicos à textura sonora.

MI: Que equipamentos, processo, técnica, método e abordagem aplicou na composição do álbum?

AB: Após concebida a ideia, comecei a vasculhar gravações antigas, instrumentos que havia abandonado e setups utilizados previamente. Conjecturei um guia visual (fig. 1) da disposição dos elementos e andamento da música e iniciei o processo de criação. A primeira etapa foi escolher pequenas gravações que havia feito que pudessem ser utilizadas no contexto do álbum, e então comecei explorando timbres de um antigo teclado, o processando de maneira que perdesse suas características e se tornasse um instrumento completamente novo. Feito isso, utilizei um pequeno sintetizador para gerar os anteriormente falados staccatos, tal sintetizador um dos primeiros equipamentos que tive, corroborando com a proposta cronológica do álbum. Outra sonoridade presente é a estática, uma proposta que venho trabalhando recentemente, imbuindo um elemento do presente/futuro nessa linha do tempo sônica, transladando texturas manufaturadas à composição. Depois de feita a seleção das gravações, em uma das passagens de som acabei reproduzindo o trecho errado e aquilo se mostrou sendo muito mais condizente com a sonoridade do que o planejado, esse acidente se tornou crucial para a estrutura da música. Após ouvir o resultado da diagramação dos sons percebi que ainda faltava algo, que não havia personalidade. Foi quando vi que havia renegado a sonoridade que me sempre foi presente, que sempre experimentei e construí meu léxico sonoro, o uso de no-input mixing board, novamente trazendo um elemento cronológico, existente nos três tempos diferentes da nossa língua, o passado, o presente e o futuro.

MI: O que te influencia e leva a compor música experimental de improviso?

AB: O que mais me aproximou da música experimental foi a não necessidade de propósito estético, ou melhor, a possibilidade de subverter o propósito estético. Feita essa aniquilação você se torna mais suscetível a explorar nuances e métodos, abre-se margem para a não ortodoxia do som. Um exemplo primal disso é o harsh noise wall, que pelo abandono da dinâmica te cativa pela intricada textura criada. Essa visão me fez ter interesse em feedback como método de composição pois você abandona tanto a causalidade de suas ações quanto os preceitos de utilização convencional de equipamentos eletrônicos. Cada ação feita gera um resultado diferente que depende não só da própria ação, quanto da evolução do estado que o sistema se encontra, é um sistema caótico. Utilizar no-input mixing é se tornar ciente que o controle que o músico detém sobre o instrumento pode se esvair a qualquer momento. Tomo muito como referência os trabalhos de Toshimaru Nakamura, expoente do uso de no-input mixing, William Basinski, pelo seu uso impecável de repetições que permeia algumas de minhas ideias e também trabalhos de artistas brasileiros como Thiago Miazzo, Arthur Lacerda e J.-p. Caron, que traçam paletas sonoras que admiro muito.

MI: Como as pessoas que se interessarem podem conhecer mais do seu trabalho?

AB: Tenho um SoundCloud (https://soundcloud.com/antn-brito) onde possuo algumas faixas que gravei ao longo do tempo e um Bandcamp (https://antoniobrito.bandcamp.com) onde disponibilizarei meus álbuns.

MI: Como vê e entende a cena de música experimental na sua cidade?

AB: Tenho sorte de estar no Rio de Janeiro que é um dos lugares mais prolíficos do país nesse quesito. Conheci essa faceta da cidade em 2013 em um show, lembro de ter ficado estupefato com a existência de um circuito de música experimental no Rio, era um mundo completamente novo. Passei a frequentar inúmeros shows nesse período, grande maioria através do projeto Quintavant realizado pela Audio Rebel, que de certa forma se tornou o núcleo da música de vanguarda no Rio de Janeiro após o fechamento do Plano B. Atualmente além da já mencionada Audio Rebel temos o Aparelho, que ajudou a democratizar o circuito sendo um local mais acessível para todos os artistas, e o neófito Fosso, com a sua aura underground e ágora estética, que toma as vezes do finado Plano B. Desde o momento que descobri o cenário e despertei interesse em fazer parte do mesmo, vários artistas me incentivaram a produzir, principalmente Paulo Dantas, a quem tenho um carinho excepcional e considero um mentor. É um meio excepcionalmente rico, que está sempre aberto a ouvir e apoiar novos artistas, por mais fechado que aparente ser. É um ambiente incrivelmente acolhedor e atento, em especial os membros da Seminal Records, selo que tive o prazer de ser convidado mais de uma vez para participar de shows, responsáveis pelos eventos do Fosso, que rompem a clausura entre audiência e artista.

Sem Título (I)





artista: Antonio Brito
álbum: Sem Título (I)
selo: Música Insólita
streaming e download:
http://musicainsolita.bandcamp.com/album/sem-t-tulo-i

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s