A música eletroacústica no Brasil

I Encontro de Música Eletroacústica, UnB, Brasília. Por Jorge Antunes, 1994.

Gentilmente cedido pelo camarada Paulo Motta no grupo: Sintetizador em · QUARTA-FEIRA, 21 DE FEVEREIRO DE 2018

(Extraído do programa do I Encontro de Música Eletroacústica, realizado em Brasília, DF, Brasil, 10 a 14 de setembro de 1994, p. 1-2. Segundo Jorge Antunes, responsável pela coordenação geral do evento, “o I Encontro de Música Eletroacústica [tratou] de, pela primeira vez, reunir a comunidade de músicos-pesquisadores brasileiros que se dedicam a esta linha de pesquisa e corrente estética. Torna-se necessário, portanto, ressaltar que o evento além de [ter sido] um acontecimento científico e cultural, [foi] também um acontecimento histórico.”)

Muito embora seja verdade que a criação musical nunca esteve desvinculada do conhecimento científico, a segunda metade do século XX presenciou uma vinculação crescente , estreita e fortemente integrada entre Arte e Ciência. É no ano de 1924 que localizamos o primeiro ponto da notável da curva que mais adiante começaria a descrever o vertiginosamente crescente entrelaçamento entre a criação musical e os avanços tecnológicos. Referimo-nos à era dos instrumentos rádio-elétricos e às inovações de Mager, Theremin, Cahill, Obouckof, Martenot e outros. No final dos anos 40 John Cage nos Estados Unidos e Pierre Schaeffer na França assentavam um novo caminho para a linguagem musical, com a utilização das primeiras conquistas da chamada era da eletrônica: a válvula termoiônica, o disco em acetato e, logo em seguida, a fita magnética. A música instrumental, simultaneamente, vivia um momento de crise em razão dos arrojos e avanços estéticos iniciados por Schoenberg, Berg e Webern, e levados às últimas conseqüências pelos serialistas de Darmstadt. A Música Eletrônica surgiu então como o desaguadouro das inquietações e crises técnicas que colocavam compositores e estetas de todas as correntes em um beco sem saída: a mais avançada tecnologia da época permitia a transposição dos impasses, porque a gravação em fita magnética permitia a direta manipulação sonora.

Verdadeira revolução musical começava a ter início. De maneira acelerada o grau de avanço e complexidade da invenção artística passou a ser cada vez mais intenso. Enquanto para a Idade Média o século é a unidade de medida temporal para a descrição do avanço histórico-musical, temos que para a história da música do século XX passam a ser a década, o ano e o mês as unidades de medida de tempo que permitem estudar a evolução estética e técnica.

Na América do Sul o fenômeno da aliança entre arte e ciência esteve e está sincronicamente presente. Venezuela, Chile, Brasil e Argentina são países que a partir de 1947 tiveram evidência nos círculos internacionais da vanguarda musical. Mas a notoriedade destes países se deve apenas a um único motivo: nasceram neles os esforçados, isolados e incansáveis compositores e pesquisadores que, por iniciativa própria e de modo quixotesco lutaram e lutam em verdadeiro trabalho de guerrilha cultural contra o stablishment das retrógradas políticas culturais do Estado.

O Brasil desponta neste pioneirismo desde os anos 60, através da projeção internacional de alguns de seus compositores. Hoje o quadro é animador, quando focalizamos a situação da pesquisa musical nas Universidades brasileiras. Em Brasília, Campinas, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Santa Maria, Belo Horizonte e São Paulo encontramos compositores, todos com titulação pós-graduada, que trabalham na área. Suas respectivas Universidades começam a prestar apoio, embora ainda medrosamente, na instalação de laboratórios modernos com recursos tecnológicos informatizados.

[…] A partir dos anos 70 algumas universidades brasileiras começaram a integrar, em seus corpos docentes, vários dos compositores-pesquisadores brasileiros pioneiros da chamada geração Revox. Aquelas instituições, ao mesmo temo, prometiam-lhes apoio e infra-estrutura para o desenvolvimento da pesquisa de ponta no domínio estético e técno-musical. Mas o rico país da miséria e da fome, de política educacional e cultural permanentemente claudicante, esteve constantemente surdo aos roncos da fome cultural de sua gente.

Aquela geração acolhida ou convocada nos anos 70 pelos Departamentos de Música de algumas universidades do Brasil formaram, nos anos 70 e 80, em sua intensa atividade docente, duas novas gerações de compositores que partiram para a Europa ou para os Estados Unidos, em busca das condições tecnológicas apregoadas e informadas por seus mestres brasileiros. Estes últimos, por sua vez, também estiveram e estão viajando permanentemente ao exterior, divulgando a criatividade e o “jogo de cintura” alternativo e tecnologicamente improvisado nas salas de aula da vida acadêmica brasileira. Eles, nessas viagens de estudo, de pesquisa e de concertos, se reciclam e concluem doutorados e pós-doutorados, voltando às âncoras e amarras de seus vínculos acadêmicos. Alguns voltam desiludidos se readaptando e se conformando com a realidade brasileira que os prende apenas em razão da futura aposentadoria. Mas muitos voltam aguerridos, esperançosos, inconformados e tenazes, se debruçando noites a fio sobre a máquina de escrever ou o computador para elaborar novamente mais um projeto de pesquisa ou de um curso de pós-graduação ou de um laboratório. Estes são os que perderam metade de sua vida semi-secular com datilografias de projetos que se perderam nas implacáveis gavetas do obscurantismo administrativo e governamental. Elas são os sustentáculos e símbolos em que se apoiam as novas gerações de mestres. De um modo biunívoco o encontro destas gerações permite o feedback de esperanças.

Mas a evasão de cérebros e de potencialidades artísticas e acadêmicas é muito grande. Talentos brasileiros das novas gerações por lá ficaram, porque é negro o quadro da realidade brasileira no que concerne à pesquisa e à prática musical de vanguarda. Bruxelas, Gand, Paris, Yale, Viena, Ontario e Köln são algumas das cidades que abrigam jovens compositores brasileiros, mestres e doutores, na faixa etária dos 30 anos, que se projetam na comunidade musical internacional, frustrados com a falta de um celeiro tecnológico, no Brasil, que pudesse servir de polo irradiador de influências inter-estaduais para a “sondagem”, o “nivelamento” e a preparação de novos terrenos para suas voltas.

[…] Embora desde os anos 60 o Brasil se destaque, no cenário internacional, com a produção musical eletroacústica de alguns de nossos compositores, este enriquecimento e a conseqüente projeção de nossa cultura têm-se dado às duras penas, com esforços e sacrifícios pessoais daqueles músicos. A universidade brasileira nunca apoiou de modo sistemático a produção artística e a pesquisa de ponta no domínio da música nova que usa os mais avançados recursos tecnológicos. Assim, embora a Música Eletroacústica já ocupe as páginas da História da Música dos últimos 69 anos, não é comum, na Universidade brasileira, o apoio às linhas de pesquisa estética e científica naquele domínio.

O advento, o surto e a moda da Informática, enfim, mudam este quadro. O mundo moderno em geral, e a Universidade brasileira em particular, se apaixona pelo computador, descobre suas maravilhosas aplicações e, mais do que isto, as busca e as inventa. Assim, só agora, às vésperas do novo milênio, quando aqueles velhos pesquisadores e artistas abraçam as novas tecnologias, e os novos artistas nelas iniciam sua história de pesquisa, aí sim abrem-se novas perspectivas, com apoios institucionais esporádicos que são promissores.

[O I Encontro de Música Eletroacústica reuniu] estes artistas pesquisadores, para que mostrassem e confrontassem suas idéias, suas pesquisas e suas obras. Embora alguns destes artistas brasileiros, isoladamente, venham convivendo com a comunidade eletroacústica internacional, participando de Festivais e Congressos na Europa, a verdade triste é que os compositores brasileiros de música eletroacústica, em sua maioria, não se conhecem entre si e não conhecem a produção de seus colegas brasileiros.

O Brasil é um dos poucos países em que ainda não são realizados Festivais e Encontros dedicados à música eletroacústica. Para que se avalie o distanciamento nosso do mundo musical desenvolvido da vanguarda contemporânea, basta lembrar que existe uma Confederação Internacional de Música Eletroacústica (C.I.M.E.) sediada na França, ligada à UNESCO, que congrega Federações nacionais dos seguintes países: Alemanha, Argentina, Áustria, Canadá, Cuba, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Grécia, Israel, Noruega, Holanda, Suécia, Suiça e Venezuela.

Um dos eventos paralelos ao I Encontro de Música Eletroacústica [foi] a exposição intitulada “38 Anos de Música Eletroacústica no Brasil”. A visita a esta exposição [permitiu] ao público verificar que este tipo de música já tem uma bela e longa história no Brasil. É hora de começar a se contar essa história, abrindo perspectivas para a nossa cultura e criando condições para que juntos inventemos o futuro.

Brasília, DF, Brasil, 3 de setembro de 1994

link original do texto:
https://www.facebook.com/notes/artes-sônicas-concrète-elektronische-electroacoustic-sound-design/a-música-eletroacústica-no-brasil-i-encontro-de-música-eletroacústica-unb-brasíl/1596043357177589/

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