Amargo – Processo de Purificação

O black metal é um gênero musical cujas transgressões mais comuns não são apenas as blasfêmias religiosas da primeira e segunda ondas; mas a subversão de sua própria ‘pureza’ com a adição de elementos, instrumentos, lirismo e características colhidas de outras searas. Desdobrando-se para o lado escuro da força, a preferência geral é por uma produção mais suja, amadora voluntária, procura reforçar a questão emocional e subjetiva por trás de maquiagens cadavéricas e distorção ululante.

Um ponto de contato desta espécie, porém, oposto, é a intersecção com o noise. Ainda que o apelo estético de uma produção cristalina conquiste o apreço do mundo alheio à estática, não existe divergência sobre as ondas grávidas de ruído pertencerem ao cânone estabelecido desde os seus primórdios. O bedroom black metal foi, e ainda é, o laboratório por excelência daqueles que não tem como preocupação primeira equilibrar produção e qualidade – senão apenas apresentar resultados. Entretanto, mesmo para um universo em conversação constante com outros estilos, a não observância de alguns limites reitera dúvidas sobre a realidade das fronteiras entre os gêneros musicais.

Processo de Purificação é um desses cândidos esforços. Amargo é um projeto que em pouco mais de três meses lançou um álbum, um EP e um split no início de 2015, para depois rastejar, retornando à úmida escuridão debaixo do colchão.

O som é carregado e a reverberação tão densa que às vezes parece resvalar em si mesma. Começos e finais abruptos contrastam com as camadas de distorção da guitarra que sufocam os gritos e percussão, atentando contra o patrimônio. Em alguns momentos de distração, emulada pelo volume inchado onde mergulham os instrumentos, as ‘partes’ se degeneram quase num HNW. Ainda que carente de variabilidade, a guitarra é quem se sobressai, e é possível assoviar algumas linhas melódicas depois que o álbum termina, embalado pela levada. O black metal aqui pode ser pode ser considerado um empréstimo de algo que realmente parece ser o foco do Amargo: o impacto do ruído. Alguns segundos de suspensão antes da entrada conjunta de cordas e percussão, aliada a finais abruptos, com a faixa sendo simplesmente interrompida no meio de qualquer ritmo que esteja situado, traz a urgência que orienta o todo da obra. Curiosa ainda é a inserção de letras, bastante interessantes aliás, mas que apenas com muita dificuldade podem ser acompanhadas junto com a música devido ao barulho onipresente.

Afogue-se um pouco aqui:
https://amargo.bandcamp.com/album/processo-de-purifica-o

Filipi Pompeu

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