corda e corte – “desacorda”

Gabriela Nobre e Verjault


Criado em 2018, o duo do Rio de Janeiro faz seu primeiro lançamento. Entre elementos texturais de sintetizador e baixo elétrico combinados a diferentes utilizações vocais, o projeto pode soar como pós industrial da década de 80, como drone doom onírico, mas é ruído com corpo, poesia grave para quem puxa cordas e abre cortes.

MI: O corda e corte é um projeto novo. Como ele surgiu e quais foram as motivações de vocês para criá-lo?

GN: Eu e Daniel já trabalhamos juntos em diferentes esferas: além de compartilharmos nossas vidas há 3 anos, já tocamos ao vivo juntos, inclusive em uma faixa que entrou para o disco que lancei em 2018, o qual ele assina a masterização junto comigo, o “caos com nome”, do meu projeto solo b-Aluria. O próximo disco dele terá um texto meu. Foi algo que sempre quisemos fazer. A gente trabalhava alguns esboços, gravava ideias de faixas, letras, mas nunca sentávamos e decidíamos as coisas. Talvez porque nós dois estejamos muito imersos nos nossos projetos solos, tanto eu com o meu quanto ele com o Verjault. Um dia, enquanto eu procurava um texto já não lembro para que, me deparei com um poema antigo meu chamado “corda e corte”. Disse a ele que achava um bom nome para uma banda. Adoramos a ideia e isso foi como o que faltava. Esse poema virou a letra da 1a faixa do disco, homônima. Depois disso sentamos, finalizamos as faixas e em um mês o “desacorda” estava pronto.

V: Eu sempre gostei muito do trabalho da Gabriela, tanto de poesia quanto de música. Costumo dizer que ela tem o melhor ouvido que já conheci. De fato a ideia de trabalharmos juntos é algo que já cogitávamos há um bom tempo mas sempre havia algo a ser feito com nossos projetos – somos ambos muito metódicos, passamos um longo período estudando formas de aplicar as ideias. Gravamos um bom material e a partir de algumas dessas gravações elaboramos as faixas do CeC.

MI: Como vocês definem a sonoridade do “desacorda”?

GN: É um disco bem caótico nesse sentido, e esse é um traço que gostamos – trabalhar as referências em seus limites. Para mim é um disco de “canções tortas”: óbvio que não me refiro à canção em sua forma convencional, mas no Corda e Corte lidamos com elementos que, pra mim, soam como faixas de industrial. O industrial bem ali, no caminhar dos anos 80, quando ele se apropria do rock e chega no pós-industrial. Mas isso tudo são conclusões as quais chegamos depois que terminamos as faixas. Na real, nada foi pensado para soar como tal ou tal coisa exatamente.

V: Difícil definir. É uma confluência de várias referências. Mais fácil dizer que soa como Gabriela Nobre com Verjault, rs.

MI: Quais equipamentos, procedimentos e técnicas vocês utilizaram na composição do álbum?

GN: Em termos de equipamento eu uso somente um synth analógico, o Volca Keys e um Monotron – ambos da Korg, e microfone. Sinceramente, todas as vezes que eu tocava e sabia que estava produzindo algo para o Corda e Corte, eu queria soar como Goblin, rs. Sei que os resultados saíram diferentes mas o que eu queria era isso: criar um “tema” entre um registro cafona e “catchy” que soasse deslocado, porém “acessível”. As letras são todas minhas, a exceção de “Mr. Rainbow”, que é um cover do Slapp Happy, daí eu fiz uma versão dela em português, e mantivemos o refrão em francês.

V: Da minha parte usei o baixo elétrico com efeitos gravado em linha. Participo com vocais em 3 das 5 faixas do disco. Toda estrutura foi pensada em conjunto, desde a composição à masterização.

MI: Como vocês entendem a cena da música experimental hoje?

GN: No Rio, forte e frágil ao mesmo tempo. Temos artistas incríveis aqui, incríveis mesmo. E são muitos hoje comparado a como era na segunda metade dos anos 2000, quando praticamente o único espaço que abrigava “música torta” na cidade era o Plano B. Temos cerca de 4 casas de shows que apoiam de forma democrática a cena, e isso não é exatamente pouco. Cito o Fosso como um novo lugar impressionante do ponto de vista de curadoria, sempre oferecendo ao público o que considero uma experiência: shows (importante frisar que não somente artistas do RJ!), debates, expo de artistas visuais… Por outro lado, temos um público que reclama de pagar um ingresso quando o problema, muitas das vezes, não é a falta de dinheiro.

Tenho me surpreendido negativamente com São Paulo. Entendo que uma cena não se faz sem amigos e que é utópica a ideia de que uma “panela” não deveria existir. Sei que temos amigos de quem gostamos e que têm trabalhos que admiramos e queremos colocar na roda, isso é altamente positivo, claro, uma das “razões de ser” de uma cena. Mas me parece que hoje, em SP, com a saída de cena de lugares como o Ibrasotope, onde inclusive fiz a minha estreia com o b-Aluria em 2016, não é prioridade olhar ao redor e convidar artistas que não sejam seus vizinhos. Me pergunto onde está a gana de curadoria, de busca por divulgação, de troca entre diferentes experiências. Sinto falta da grandeza de SP enquanto opção para tocar ao vivo.

Em 2018 fui convidada a tocar em Belo Horizonte e foi uma das melhores experiências ao vivo para mim. Me surpreende que exista um público de não artistas, simplesmente gente que leu sobre o show e que foi conferir por interesse genuíno. Henrique Iwao e Felipe Lopes são pessoas que têm energia para driblar os poucos locais que a cidade tem para shows e propor eventos em praças públicas, por exemplo. Iniciativas assim são coisas que encaro como ideais.

V: A Gabriela já disse tudo, rs.

MI: Como as pessoas que se interessarem podem conhecer mais do seu trabalho?

GN: Além do corda e corte que estamos promovendo com essa entrevista, rs, tenho o bandcamp do meu projeto solo, o b-Aluria: https://b-aluria.bandcamp.com/music.

Ao vivo, gosto muito desse show que fiz em BH: https://www.youtube.com/watch?v=6X_1hYat7FY&t=71s e desse live que fiz para o Música Insólita: https://youtu.be/YlrQFyfaxD0?t=833

V: No meu bandcamp tem minha discografia completa, além de links pra outras plataformas com materiais meus: http://verjault.bandcamp.com

artista: Corda e Corte
álbum: desacorda
selo: Música Insólita
streaming e download:
http://musicainsolita.bandcamp.com/album/desacorda

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