Resenha: A-tros | Vulgar Débil

E toda a diferença é colocada sob suspeita quando se ergue uma questão fundamental: como os sons brotam? Os sons humanos não seguem a lei da natureza. Eles são inventados. São ficções materializadas de enigmas implícitos que escancaram estarem sempre na penúria de algo desconhecido.

  Vamos começar com a repetição constante de “Apógrafo”, peça que se inicia sem percebermos que a antecessora, “Quidam”, terminou. Nós notamos essa realidade paralela -essa ficção, essa não existência materializada em sons espaçados e indistinguíveis- intrometer-se em nossos sons, nossa realidade usurpada pela intervenção alheia. Compreendendo de outro modo: o mundo novo criado é um modelo de diferenciação radical dos barulhos que temos como referência- está aplicando-lhes novas combinações que se estendem num inimaginável horizonte aleatório. Esse é o momento em que o ouvinte divisa um mundo alienado da realidade, embora partindo dela. Confirmação e negação coabitam num espaço íntimo, em que autoestranhamento se configura para coabitar paradoxos. Nós devemos ouvir um novo mundo ganhando dimensão enquanto a realidade, da qual ele se originou, começa a enfraquecer e perder a dureza da existência.

  Por perceber a distinção sonora, a realidade, que os sons criam, passa a ser fortalecida pelo estranhamento, partindo do modelo referencial para se tornar um mundo de transformações e conversões.

  Mas, sem dúvidas, elas caracterizam movimentos que transitam entre as referências sensitivas e a novidade que se apresenta no desenrolar das peças. Por se apresentarem submissas a significações prévias, elas são o encontro entre a pura invenção e uma realidade inescapável. Por exemplo, a faixa três, “Abjeto”, caracteriza uma unidade por repetir barulhos relativamente conhecidos como uma sequência matemática, mas não se sabe qual a sequência e qual sua lógica utilitária, criando um campo enigmático em que a intimidade com algo tão próximo torna-se um mergulho no desconhecido, mas sem dúvida que sempre existiu intensamente enquanto uma possibilidade que aguardava encarnação a partir da criação. Depois desse contato, começa o declínio, porque esses sons desconhecidos já foram expostos e já aderiram ao campo prévio da nomeação. O momento em que se encontra o som é uma cisão em que o compartilhamento abre um novo, breve, campo interpretativo. Nós podemos ouvir essa abertura possível apenas por um instante, antes de sua introdução completa no mundo do real e das significações. É quando os barulhos estão desaparecendo que a rápida consciência dessa abertura surge.

    Nos sons que ouvimos podemos notar que algo enigmático reside, impossível de ser revelado. Por mais que cavamos entre os ruídos, só percebemos vestígios de uma suposta formação originária. Com a chegada de seus fragmentos, estamos suspensos em um campo em que contradições deixam de existir, pois só há rastros de destino. Só então compõe-se a compreensão de que há um fator fatalmente não humano nesta busca. Uma parte exterior que não sucumbiu ao desaparecimento através de composições tradicionais, mas que resiste enquanto obscuridade. Tal experiência solidifica-se quando registramos que os barulhos expostos são espectros intermináveis de um descontínuo fluxo pelo qual o inominável transita, dando breves aparições aos seres humanos. Sabe-se, apenas, que se trata de uma experiência anterior aos recursos clássicos de composição. De forma que os estranhos ruídos são lembretes constantes da dificuldade de passar, formalmente, esse tipo de experiência: a de ser visitado pelo sopro do dissolvimento.

artista: A-tros e Vulgar Débil
ano: 2018
álbum: A-tros | Vulgar Débil
Selo: Música Insólita / Sattvaland Records

Texto: Henrique Barbosa Justini

mais textos do Henrique em:
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/author/henrique/

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