Resenha: Herbert Baioco – Atmosfera de Luz e Sombra

Coloque seus olhos sobre as superfícies iluminadas. Tencione os ouvidos nas sombras. Pressione os sentidos para perceber como desembocam no mesmo plano, sem uma separação radical entre eles, apenas condicionando para uma mesma multipercepção.

Os sons que determinam a experiência sensorial chegam neutros, sem inclinação alguma, até encontrarem quem organizará o caos como uma vivência possível, como uma organização mais ou menos admoestada para ser um meio de relação entre superfícies, sons, mundo interior e exterior. Cada processo desse mundo em contínua transição, em que uma sombra transita até virar luz, reverbera em nossos corpos como um ponto de colisão errante. Tentamos ser peritas em domar esses sentidos, mas só conseguimos captar o que eles deixam como atrito, um ruído que é espectro e, por ser isso, deixa uma impressão duradoura de sua contínua transformação. Nós construímos caminhos a partir desses resquícios, a partir das projeções entrecortadas entre sonoridades mais delicadas e agressivas, consumindo qualquer possível rigidez anterior. E nós catalogamos sons por horas a fio para perceber que desembocamos numa aleatoriedade gigantesca.

Eventualmente nos desintegramos como a madrugada vira manhã e deixa rastros de sua passagem, para provar que se fez presente durante um período e sua existência deixou espectros que surrupiam qualquer estabilidade temporal. Já não é mais a mesma superfície iluminada, mas há resgates possíveis em que uma cintilação lhe devolverá uma sensação antiga. A última impressão é sempre dos desvios, dos eventos que marcaram um soco na continuidade. Aí se percebe não apenas como os sons eram regulares, mas como eles se divergem quando captados por diferentes aparelhos e diferentes fontes.

Porque passados os eventos, o corpo segue em frente, ainda com a marca dos espectros que quebraram uma continuidade; a hora em que a madrugada decididamente passou a ser manhã e como ,nesse momento decisivo, percebeu-se duas instâncias segmentadas. No local do dano do contínuo, as frestas antecessoras sinalizam uma abertura. Elas coagulam-se na forma como a gravação é pressentida, como uma fratura no tempo que se distende, sempre sendo transformada pelas diferentes ambiências em que foram captadas. Elas podem ser interpretadas mal até haver uma existência nítida da ruptura que as diferencia do restante, perdendo a familiaridade para sinalizar uma incorporação do ambiente engolfado.

Essas tensões que reivindicam o  protagonismo dos sons anteriores. Graças a elas, pode-se reconhecer mais facilmente o caminho até chegar ao ponto presente. “Atmosfera de Luz e Sombra” é uma topografia de como algum corpo recebe e manipula as mudanças de ambiente, climáticas e sonoras, redistribuindo-as como um álbum que faça perceber as tensões e rachaduras, mas também a continuidade. É uma atitude de respeito e consideração com a captação da luz e sua transformação e como, do limbo em que ela nasce, as sonoridades reivindicam seu espaço, invadindo a camada mais externa para transformar profundamente como se percebe uma superfície ou uma frequência sonora. A representação do que foi perdido perdurando de forma cada vez mais distinta, até se transformar numa outra coisa. Numa nova manhã.

artista: Herbert Baioco
ano: 2018
álbum: Atmosfera de Luz e Sombra
Selo: Música Insólita

Texto: Henrique Barbosa Justini

mais textos do Henrique em:
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/author/henrique/

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