Resenha: Antonio Brito – Sem Título (I)

Essa composição lentamente cresce numa trajetória na construção de um significado, incluindo silêncios em sua ambientação sonora. Durante a audição da peça, fica fácil perceber que ela é um epicentro que absorve do ambiente seus empréstimos sonoros para retaliá-los e tirá-los da alienação externa, transformando-se, assim, em propriedade do seu executor. Antonio Brito é uma espécie de solista cujo corpo reverbera a passagem temporal em processos musicais. O que me leva a me fixar na faixa como uma construção predominantemente cronológica, um caminho pelo qual é necessário trafegar.

Uma coisa que ele faz é explorar o mundo circundante num contínuo processo de intercâmbio: muito é dado, muito é recebido. Brito caminha no avançar dessa troca, escancarando seu procedimento temporal, explorando o interior e o exterior até que ambos se fundam na estática que ganha espaço completo. No plano de fundo, ouvimos muitas coisas; sintetizadores fragmentados, semi-harmonias e interrupções bruscas de sons que surgem dissolvendo-se. Algo que eu adoro, porque essas reminiscências restam como espectros.  É impossível retomá-las sem ouvir toda a composição novamente.

Na maior parte do tempo, fica nítida a impressão de uma construção linear que tem como grande vantagem a captação de um mundo indeterminado, capaz de modificar e ser modificado por quem registra e cria o processo. É uma performance em que elementos reconhecidos perdem suas características e são transformados em outra coisa. O acionamento mecânico soa como uma extrapolação da determinação objetiva dos instrumentos, partindo de uma intervenção em sua própria sonoridade tradicional para auxiliar o compositor na escrita desta trajetória, creditando à performance uma interação com uma realidade manipulável, em que os sons originários cedem parte de sua autonomia para o criador, consistindo numa sobrecarga e num atrito que se evidenciam como improviso. Razão que personaliza o álbum como uma história de constantes revisitas.

Quando elas acontecem, a suposta origem perde a relação de causa para resultar numa manifestação iminente de um momento que fugiu de uma construção canônica, que nem é mais uma construção, mas sim aparecimento. Brito propicia um caos que se transfigura em dispersões constantes do que antes era unidade. O que significa que a rigidez abandona a composição à medida que o compositor mais extraí a característica própria das sonoridades.

É uma peça cheia do que pode parecer como opostos, mas que se justapõem quando estão presentes em corpos capazes de testemunhar uma modificação perpétua no que se instala como imobilidade. É um álbum que facilmente constrói um “propósito” e não hesita em revertê-lo quando sente necessidade de modificar sua própria trajetória assim que os instrumentos abrem frestas para revisitas e inconstâncias. E criam texturas novas nessas aberturas, intrigando pela própria suscetibilidade.

artista: Antonio Brito
ano: 2019
álbum: Sem Título (I)
selo: Música Insólita

texto: Henrique Barbosa Justini
mais textos do Henrique em:
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/author/henrique/

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