Resenha: Corda e Corte – desacorda

desacorda encontra-se em algum intersecção entre a música industrial e a revelação de uma tensão contínua. É eloquente como nervos dissipando-se por todo o local em que eles são criados, subvertendo a dinâmica de propriedade para destruir as relações com ela. Nos assuntos que toca, aproxima o ouvinte a uma continua relação de iminência que ganha corpo revelando-se como preenchimento total de um campo desabrigado.

A primeira coisa que você vai notar é a capa. É seu ponto de início e de uma franqueza enorme, esta que continuará inflexível no decorrer do disco.

A gravação trafega em um tipo de ambiente quase esquelético, em que as rupturas sonoras, estranhamente, configuram uma continuidade temática de revelação, de libertar a propriedade de sua relação com o executor para preencher o espaço em distorções e anunciações. A abertura, “corda e corte”, lembrou-me, a seu modo, da abertura do primeiro disco do Black Sabbath, proeminentemente baseando-se na atmosfera que se intercala entre o baixo estalando distorção e as palavras entrecruzadas de Gabriela Nobre e Verjault. Uma faixa depois, em  “o diabo a vontade”, as erupções estáticas, que pareciam mais retidas em “corda e corte”, rebelam-se e adquirem quase uma vontade própria, manifestando-se multidimensionalmente até voltar a uma estaca de pura pronúncia, abreviando-se a sussurros e grunhidos que retomam o espaço de congelamento. Corda e Corte dedica-se a construir uma estranha redoma em que a constituição de polos distintos sedimentará uma narrativa de revelação, de um contínuo pronunciamento que absorve todo o campo rançoso ao redor. É uma contínua produção de efeitos não naturais que vão interferir diretamente na relação com o som e a linguagem, predominantemente.

A composição é um transe que trafega nos limites do imediatismo, num epicentro volúvel e que se desdobra escancarando frestas e sombras manipuladas, que se apropriam e são expropriadas.

São músicas que possuem uma fibra para distorcer as certezas que fundamentam uma pessoalidade, como se os sons e as palavras apenas fossem mediações que escancaram uma precariedade objetiva entre o ambiente que se delineia e a necessidade de explicitá-lo como atravessamento e ocupação. Há uma grande tensão entre o que parece estar contido, em quarentena, e a maneira de explicitar esse local em que o fio que se perdura (os poemas, os sintetizadores, o baixo) tenta entrar em pura manifestação. Corda e Corte apresenta outro olhar para essa troca entre o que está preso e o mundo; uma enunciação que, quando liberta, segue caminhos imprevistos, ainda assim atendendo à finalidade de escancarar algo, nem que seja a precariedade ou seus próprios limites,  em que a entrega basta para explicitar uma condição de vulnerabilidade de quem está apto a ser atravessado pelos vestígios mais ocultos da música e da linguagem.

artista: Corda e Corte
ano: 2019
álbum: desacorda
selo: Música Insólita

texto: Henrique Barbosa Justini
mais textos do Henrique em:
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/author/henrique/

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