Pompeii Burning – Ibirapema

Pompeii Burning (Filipi Pompeu)

1 – Um dos termos que você usa para divulgar o seu trabalho é “harsh noise indigenista”. Conta um pouco sobre a sua relação com a política indigenista e como e quando isso foi dando o tom para o seu trabalho com som experimental de ruído.

O indigenismo e o experimental nunca foram dissociados no PB. Começou ao contrário, com os experimentos artísticos. O harsh noise e o power electronics detém um grande grau de doma que funciona ao contrário do caos e da entropia, que é o atributo mais presente. Entretanto, todo som abstrato exige algum controle ao mesmo tempo que nega submissão completa. Nada parece coincidência desta forma; você precisa negociar com o processo de produção sonora porque ele não é um instrumento tradicional onde o comando é pleno, ele é quase uma outra consciência – o que subordina a necessidade da técnica à faculdade da ética. O que se pensa hoje sobre o pensamento indígena-animista é basicamente isso. O mundo é povoado por outras subjetividades que em nada devem à sociedade humana: possuem xamãs, ritos funerários, graus de parentesco, alimentos preferidos. Viver mergulhado em uma sociabilidade permanente e horizontal exige um enorme nível de improviso e reflexão. Não se trata de virar índio, ou qualquer outra falácia assim, mas de saber onde está o indígena em mim, partindo do improviso social indígena como um experimento artístico. Eu escolhi o som. O fato de isto ser aplicável aos materiais de domínio europeu anima uma subversão inquietante; há muito mais pontos de contato entre esses universos do que parece. Quando surgem agudos e microfonias, se ouvem flautas uivando a guerra. Quando a caixa vomita graves, percussões e atritos, são ruídos de uma grande tempestade que ecoam como amplificação ‘natural’. Há nos estalos e chiados da distorção máxima o ruído de um milhão de chocalhos que fazem dançar um milhão de xamãs. É uma visão e uma experiência poderosa. Esse é o meu indigenismo.

2- Como você define a sonoridade do “Ibirapema” e quais equipamentos, procedimentos e “técnicas” você colocou em jogo para criá-lo?

‘Ibirapema’ compensa uma preocupação que tenho a respeito do meu discurso: a de um indigenismo clássico demais, dos grupos isolados, do Xingu, da Amazônia. Está muito longe de ser a única presença indígena na sociedade brasileira. Tento trazer um pouco da atmosfera atual, que é caótica e tumultuosa há coisa de 519 anos, partindo do ponto de vista dos povos originários. Gosto da ideia de tentar minha própria expressão a partir desse tipo de pensamento e atitude. Não sou a voz do indígena, mas aprendo um tanto com suas palavras. O manto Tupinambá poderia ser uma machadinha Krahó e Galdino não precisava ser mártir. Tentou-se expressar a questão do patrimônio, da preservação, do reconhecimento e da resposta à altura como um incêndio abrupto. Eu já fiz outras fogueiras assim antes: não houveram grandes mudanças no set-up nem nas técnicas que tenho a minha disposição; o gesto e a identidade material entre o meu corpo e o corpo dos objetos de ruído segue como origem e pesquisa do som. Mas o arranjo pós-produção foi muito mais intenso e exigiu muito mais de mim. A única diferença visível pra mim parece o desenvolvimento de algumas dessas características já esboçadas nos resultados anteriores. A importância maior está no sentido do que na forma ou no resultado final.

3- Pelo que você se interessa mais em ouvir, quais são as influências que te levam a produzir som?

A temática me permite admitir mídias diferentes de inspiração. Leio muito mais do que ouço influências para o PB. O momento atual é de mitos Selk’nam, o povo mais meridional do mundo, e Kaingáng, uma etnia do meu Estado. Do lado sônico sou fã incondicional de black metal e atualmente tenho revivido uma fase bem forte, onde compartilho a temática com algumas bandas: Corubo, Blue Hummingbird on the Left  (e todo o Crepúsculo Negro), Panamerican Native Front, Xibalba Itzaes e Kaatayra. Outros projetos menos antropológicos incluem Gnaw Their Tongues, Rhinocervs, Moloch, Todesstoss, Mare, Spectral Wound, Drothnung, Paysage D’Hiver, Mutiilation e lá vamos nós… 

4- Como as pessoas que se interessarem podem conhecer mais do seu trabalho?

Aqui: https://pompeiiburning.bandcamp.com/.
Aqui: https://musicainsolita.com/.
Aqui: https://pib.socioambiental.org/pt/P%C3%A1gina_principal – onde este último é o principal afluente de um rio muito maior.

Obrigado.

artista: Pompeii Burning
álbum: Ibirapema
selo: Música Insólita
streaming e download:


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