Resenha: Pompeii Burning – Ibirapema

Ibirapema é uma massa obscurecida de som, atravessada pelo peso do massacre histórico, com figuras distorcidas, que ainda assim insistem em berrar seus gritos de resistência enquanto a retaliação perfura uma cultura. Aqueles familiarizados aos experimentos artísticos vão sentir aqui um dano caótico ao perceberem a arte como uma instalação viva de desconfortos, de sangue e de tortura. Ibirapema conta com belezas intermitentes (os cantos dos índios, a resistência) que rasgam as contínuas paisagens caóticas. Mesmo que o Pompeii Burning sugira algumas melodias, o que fica exposto é um sistema entrópico que vaza tensões enquanto tenta ser organizado de uma maneira que comporte uma temática sempre tão urgente e necessária.

  Explorando novas “arquiteturas sonoras” como ampliação de um diálogo ético, ou uma alçada ética que intervém enquanto uma produção artística é realizada, estendendo-o não como metáfora de resistência, mas sendo a própria imagem que é continuadamente reconstituída enquanto outras vozes invadem o mundo. O universo, uma vez amplificado em meio a tantas questões, vaza sons inumanos para recentralizar uma determinação de ressurreição  num mundo de abandono.

  ” Entrada no Ciclo Escatológico” fecha o disco como um atravessamento contínuo de subjetividades alheias ao elemento humano, determinando sempre uma readaptação do receptáculo, porque os elementos não são, obviamente, novos, mas determinam uma expropriação que há muito deveria ter ocorrido. Essa música você sente em seus ossos e suas transições e improvisos também exigem que você não esteja receoso com os elementos que se tornam uma ameaça a sua subjetividade. Dentro das atmosferas angustiantes, há um elemento de improviso e um elemento ancestral, desconhecido até então, que se manifesta enquanto entidade indígena lutando por seu espaço num mundo aparentemente admoestado. ” Ossos Encontrados no Fundo do Rio” conjura uma tempestade de interações assombradas reverberando e rugindo, surgindo cantos indígenas como restabelecimento de uma subjetividade emergente, potente e criativa.

  Pegando emprestada uma oração de Greil Marcus para outro artista, é um som de um colapso contínuo, em que a fragilidade humana mostra-se vulnerável à mediação de rituais que julgava petrificada, esquecida num cemitério colonial. Ibirapema é uma constante revaloração do que significa estar no mundo e coabitar com outras entidades e como a força delas constitui constantes reentrâncias para despejarem suas legacias.  Há chocalhos estalando que propiciam uma experiência de cisão, que refrata a subjetividade para instalar-se enquanto entidade viva e rica. Pense nessa experiência como uma invasão legítima de algo que até então você julgava abstrato, observe isso incorporá-lo enquanto modo de alteridade para se impor como solo originário.

artista: Pompeii Burning
ano: 2019
álbum: Ibirapema
selo: Música Insólita

texto: Henrique Barbosa Justini
mais textos do Henrique em:
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/author/henrique/

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