Resenha: Flavia Goa – Conto Cibernético

Um espaço sob ataque é um espaço onde o atrito ganha propulsão para estabelecer-se como desafio à apropriação. Você não pode ficar parado porque as ruas tremem, os dados entrecruzam-se e os guias referenciais são transformados em pontos errantes.

Você é o paradoxo que deve reconciliar a tensão entre movimento e estase, estagnando sangue para absorver os signos que, aceleradamente, substanciam uma velocidade inapreensível. A consciência das coisas que você sente é transformada em uma enorme dúvida porque experimentar cada som aufere desonra a uma memória fixa. Você vê suas lembranças sendo transformadas sob a égide do desequilíbrio (movimentar um objeto desanimado,  quando se presencia as coisas desintegrando-se), já é tarde demais para um retorno. O caminho foi apagado. A própria degradação do caminho criou uma profundidade que difere radicalmente das lembranças rígidas. Sua aventura aqui é determinada pela carne dos outros, pelo rastro de automóveis, pelos cheiros desconhecidos, por todo o desencontro que é mover-se no elemento urbano. Todas as ladainhas do descaso desencontrando-se para compor uma argamassa mutável, estranha e expropriada- uma coisa única que é esse mundo onde retrocessos são sempre reformulações de caminhos dizimados. Reconstruções forçadas pelo processo de destruição, pela velocidade que os objetos deixam de ser. A timidez de quem está no ônibus quase vazio, em um fim de domingo, fones no ouvido, observando que a cidade, que sempre conheceu, ganhou características extraterrestres, como um borrão que instiga apenas uma reminiscência rara de construções que agora parecem lendas, figuras distantes de uma infância inatingível. Transformações incrustáveis, graduais, somando para uma conjunção de horror e espanto.

Por que não ficar parado? Nenhuma das vezes em que eu ouvi o álbum eu senti uma estagnação, mas sim como um processo em que a natural decomposição transforma-se em criação, em intervenção direta nos muros aos quais somos submetidos. O trabalho de Flavia Goa estabelece uma relação maníaca com as molduras repressoras e tenta reformular uma forma de comportamento de quem está no centro do urbanismo acelerado e da política decadente praticada nas últimas décadas. As participações estendem esse efeito surreal escutado com sonoridades incomuns que partem de elementos tradicionais. São passos que tateiam uma nova possibilidade perante um mundo esgotado, afetações sensíveis de um universo em desequilíbrio para extrair do escombro maneiras radicais de explorar a música. Um trabalho construído quando as especulações ganham uma força autônoma, como um ofício diabólico em que a coposição desestruturada parece construir novas maneiras possíveis de acessar esse mundo velado.

São sons que afetam a maneira de perceber o mundo, concebendo às imagens uma contínua significação entre o que surge como abrupto. Quanto mais você ouve essas músicas, estranhamente a paisagem que passa pelo ônibus ganha uma nova forma de engajamento.

Não é pouca emoção ouvir um disco com a capacidade de auxiliá-lo na forma com que você interage com as paisagens às quais está habituado.

artista: Flávia Goa
ano: 2019
álbum: Contos Cibernéticos
selo: Música Insólita

texto: Henrique Barbosa Justini
mais textos do Henrique em:
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/author/henrique/

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