cisma – “linha vermelha”

Leonardo Oliveira é um artista carioca, à frente do cisma, que começou a experimentar o improviso musical com ruídos e a testar diversos processos de composição musical em 2014. Seu estilo é baseado em sons corrosivos, ao mesmo tempo que procura harmonizá-lo com sonoridades mais suaves, buscando sempre um contraste entre essas duas camadas. Em seu novo trabalho, “linha vermelha”, ele utiliza gravações antigas e atuais, procurando uma forma de consolidar seu estilo e ao mesmo tempo ressignificar velhas composições.

MI: Fale um pouco sobre o seu álbum. Como você define a sonoridade dele, como foi o processo de criação?

O esqueleto do “linha vermelha” está pronto desde o final de 2016. Numa espécie de garimpo eu achei as faixas, e ao perceber a evolução da sonoridade, decidi selecionar três e trabalhar em cima delas, adicionando novas camadas e um pouco do meu atual estilo de composição. Sobre a sonoridade, eu diria que o álbum passa por diferentes estilos. Utilizando o ruído corrosivo, samples de vozes e diria até que flertando com uma espécie de powertechno, o esqueleto foi feito inteiramente por meios digitais (uma característica de meus trabalhos mais antigos). Ao perceber a evolução que comentei acima, decidi “desovar” esse esqueleto e remontá-lo, adicionando criações a partir de equipamentos e processos analógicos — que é o meio/processo no qual me encontrei e atualmente me sinto mais à vontade criando.

O disco começou a ser pensado durante uma parte conturbada da minha vida, quando meu pai estava internado em estado grave no HUCFF (para quem não mora no Rio, é um hospital universitário da UFRJ). A minha rotina durante os últimos meses de 2016 foi de dividir o tempo entre trabalhar e passar noites no hospital acompanhando meu pai. O principal meio de chegada da minha casa até o hospital passava pela Linha Vermelha e é daí que veio o nome do álbum. Imagino que a utilização de samples vocais gritados, baterias rasgadas e ritmo acelerado foi uma forma de expurgar todo o sentimento de inquietação, ansiedade e desespero que sentia na época.

Ao me deparar com isso, procurei remontar as faixas e misturar com novas criações feitas a partir de ruídos gerados com loops de pedais, um contrabaixo de apenas duas cordas sendo histérica e aleatoriamente tocado. Já para criar a sonoridade mais calma (e confrontar com o teor caótico das faixas), utilizei um antigo teclado CASIO SA-21, com presets do próprio instrumento. Junto aos pedais fui improvisando em cima de sons mais suaves.

MI: Quais equipamentos, processos, técnicas, abordagens você utilizou para desenvolver esse álbum?

Assim que decidi trabalhar em cima dessas faixas antigas, formulei um mapa mental pra saber por onde começar e de início tentei me colocar emocionalmente na época em que ele foi originalmente composto, buscando por fotos feitas na época. Após isso, parti para a seleção de faixas, procurei as que mais se afastavam do que faço hoje em dia e comecei a ouvi-las, pensando em elementos que iria adicionar e como seria o processo de não só criar novas faixas e camadas, mas também como mixar as faixas antigas para que soassem minimamente melhores e eu conseguisse retirar o máximo possível delas. Depois disso tudo, diria que foi um processo “fácil”: trabalhei em cima de improvisos com o teclado, pedais e contrabaixo, literalmente deixando fluir o meu estado psicológico e emocional atual, para que acontecesse o confronto das duas linhas temporais da história. Diria que é um álbum sobre finalmente pensar sobre e entender tudo o que aconteceu naqueles três longos meses e comparar as mudanças (não só musicais mas também psicológicas) que aconteceram desde então.

MI: O que te interessa no meio de música experimental – o que você mais ouve?

Olha, é um pouco difícil de colocar em palavras. Eu tenho uma relação com o sentimento de abstração e experimentação muito forte em qualquer tipo de arte, e a música não fugiria disso. O que me aproximou do meio experimental, de improviso ou como queiram chamar foi a possibilidade de me expressar de um jeito que de certa forma foge da rigidez clássica musical (uma banda power trio ou qualquer formato que já viesse de certa forma pronto). Vi no meio experimental uma liberdade para abstrair, ressignificar e entregar a minha arte – que eu enxergo sendo uma entrega de si mesmo – da forma que eu quiser, escolhendo o processo que eu bem entender e recebendo o feedback do público, sempre na espera de novos olhares diferentes do que o que eu coloquei em cima do processo de composição de qualquer música.

Ultimamente eu tenho escutado bastante o álbum Mirages, do Tim Hecker. Diria que é uma das minhas principais inspirações, me acompanha desde que comecei a mexer com música. Já partindo pra outro lado, sempre busco ouvir artistas do nosso cenário independente, sejam os “consolidados”, como J-P Caron, Quasicrystal, DEDO, Bemônio, etc; mas também os novos. E aqui aproveito pra citar o trabalho mais recente do Antonio Brito, o “Sem Título”. Inclusive posso afirmar que é graças ao próprio Antonio que voltei pra experimentação musical após um bom tempo de pausa. Também posso citar o EP “anodokatodo” da Mary Lisita como um dos álbuns que tenho ouvido bastante, os trabalhos do Cássio Figueiredo, o “caos com nome” da b-Alúria… enfim, eu nunca deixo de procurar escutar coisas novas, revisitar as que eu não escuto há um certo tempo e também não me foco em um só estilo musical. Acho interessante flutuar por diversos tipos de músicas para criar um bom “background” de referências que podem ser utilizadas no futuro.

MI: Como as pessoas que se interessarem podem conhecer mais do seu trabalho?

Tenho um SoundCloud onde posto faixas que gravo ao longo do tempo (https://soundcloud.com/cismacisma) e dois Bandcamp: um do meu projeto atual (http://cismacisma.bandcamp.com) e o do meu finado projeto (http://lxnrdo.bandcamp.com).

artista: cisma
álbum: “linha vermelha”
selo: Música Insólita
streaming e download:

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