Resenha: cisma – “linha vermelha”

Dentre os paradoxos que coabitam uma estrutura, é muito difícil abordar, simultaneamente, polos opostos. As composições do cisma carregam uma intervenção temporal, como se tivessem sido modificadas diversas vezes em um período razoável. O trabalho tem conexão com espectros, com estilos que se insinuam como lembretes dum passado distorcido que faz contínuas revisitas.

Mesmo para o mundo da música exploratória, o cisma aborda os paradoxos evidenciando suas distâncias gritantes, mas também coabitando radicais que insinuam intercâmbios. A música de plano de fundo instala uma ambiência que remete à música eletrônica e à intervenção por processos analógicos (até que se cruzam, repetindo a frequência anterior, mas ganhando novas tonalidades que preenchem uma lacuna que só é evidenciada pela repetição do processo). Essa música floresce em uma época que quase tudo soa eletrônico e instala repetições que desenham um desassossego com a própria maneira de criar algo. A conexão do cisma, parte, então, das perturbações de uma continuidade que, quanto mais exibida, transmite sua fragilidade. E então nasce o processo de redescobrir infiltrações em um túnel que antes parecia ser composto por concreto em sua totalidade.

Essa audição de paradoxos que evidenciam diferenças em uma estrutura aparentemente rígida é permitida pelo contato em diferentes épocas e contextos com o álbum. Essas peças são endurecidas pelo acúmulo de experiências que cristalizam um reconhecimento mais surpreendente tanto da quietude quanto do descontrole. Cada uma das três faixas contém um desequilíbrio e uma calmaria que perseguem o ouvinte de maneira quase frenética, porque, com as consecutivas audições, elas fazem parte de um arco que só sobrevive se a outra parte também se instalar. É perturbador saber que não será atravessado apenas por uma reentrância e que cada deixa preconiza uma nova deformidade.

O título do disco, “linha vermelha”, configura um local que certamente pode ser percebido como uma frequência gritante, quase maquiavélica, na vida do criador. Mas essa paisagem, tão incomum e inimaginável pra mim que resido no interior de Minas Gerais, surge como um mapa sonoro, uma imposição imagética que os sons criam: um contínuo túnel invadido por luzes e ruídos e todas as bizarrices de uma cidade grande. Os sons que ficam cada vez mais discerníveis, são, portanto, uma invasão externa e alienígena, uma mutabilidade tão frequente da cidade que se impõe como originária. Pelos minutos finais, a tensão se eleva e configura um embate contínuo entre tempos divergentes, cujas modificações são capazes de cristalizar subjetivamente a paisagem mencionada no título.

cisma é um criador atravessado pelo deslocamento e por experiências temporais divergentes que se encontram no disco. Mas há uma suspensão desses períodos em linha vermelha, pelo menos para quem escuta. Ouvir o disco é ser atravessado pela paisagem de outra pessoa e todas as tensões acumuladas numa simples travessia.

artista: cisma
ano: 2019
álbum: Linha Vermelha
selo: Música Insólita

texto: Henrique Barbosa Justini
mais textos do Henrique em:
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/author/henrique/

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