Taticocteau: “Caminhando com minhas próprias pernas”

Tatiana Drummond Moura (aka Taticocteau), Cataguases (MG), 1979. Vive e trabalha no Rio de Janeiro como professora de artes visuais da rede municipal de ensino. Tem pesquisa artística centrada na relação entre imagem e som, visando a dissolução das fronteiras entre estes meios.

MI: Você tem um trabalho cuja proposta está atrelada às artes visuais. Conta um pouco sobre como é para você essa relação entre visual e sonoro e como foi o seu trajeto como artista até aqui.

A relação começou desde que iniciei uma série de pinturas em 2015, a pricípio abstratas (inspiradas em abstrações do pintor Gehard Richter), que, com o tempo, foram se assemelhando a colagens parcialmente figurativas. Tinha essa vontade de extrapolar os limites da imagem mas ainda não sabia por qual caminho seguir. Queria continuar criando arte no “campo ampliado” (pra ser mais “Kraussiana”). Comecei a investigar a sonoridade da imagem (ou a pensar os sons como imagem) quando me interessei por databending e glitchart ao me deparar com um vídeo do artista sonoro e músico Magno Caliman em sua página no Vimeo. Infelizmente não pude fazer seu curso no Parque Lage, na época em que era ofertado. Porém, atualmente estou fazendo o curso “Fábrica de Sons Eletrônicos” na Unirio, ministrado pelos professores Alexandre Fenerich, Bryan Holmes e Paulo Dantas. O curso aborda assuntos que têm me instigado: databending, circuit bending, a utilização de aplicativos como Supercolider, Pure Data. Já criamos novos sons e objetos fazendo intervenções e montagens (físicas) com discos em vinil, método utilizado por artistas como Christian Marclay (como bem lembrou Alexandre Fenerich, durante uma aula). Conheci online recentemente a May HD, que é artista da Bahia que trabalha com esse recurso em arte sonora.

MI: Como você define a sonoridade do “Caminhando com minhas próprias pernas”?

Creio que, por utilizar desde a primeira faixa sons obtidos em minhas caminhadas diárias, amalgamadas com fragmentos de “sons instrumentais” criados no aplicativo Garage Band, com trechos editados no Audacity, tenho chamado essas obras de “colagens deambulatórias sonoras” ou “colagens deambulatórias eletrônicas”. A ideia consistiu em usar o som do próprio ato de andar (tentei aí decifrar o andar calmo, o andar ansioso, apreensivo etc.). O que é caminhar com meus próprios pés? Caminhar com minhas próprias pernas – e nesse contexto onde vivo, no Rio de Janeiro?

As sensações / emoções, que não são enunciadas verbalmente, procurei traduzir através da parte “instrumental”, que foi uma forma de sair de minha zona de conforto, em mais um salto, uma vez que não sou instrumentista e não tenho conhecimento formal de música, tentando transmitir pelos sons sintetizado o que é trazido à tona pela memória de acontecimentos pessoais ou, simplesmente, da atmosfera da época em que estava / estou imersa. É uma obra muito pessoal, “autobiográfica”, mas que, de forma alguma consideraria como totalmente figurativa ou totalmente abstrata, mas sim narrativa. É um autorretrato sonoro no qual procuro explorar ao máximo todos os aspectos que seriam interessantes para incluir nesse quebra cabeças que é a construção de autorretrato. Quase um “retrato falado” com pistas para se reconstituir não só o rosto, as características físicas, como outras: o modo de andar, de agir, de pensar, de trocar afeto, a personalidade etc.

MI: O que te influencia e te leva a compor música experimental, música de ruídos?

As artes visuais, especialmente arte contemporânea, performance, têm muita influência sobre meu trabalho, embora não trabalhe diretamente com isso. Minhas imagens são criadas utilizando meios menos efêmeros como pintura, fotografia e manipulação digital. Creio que artistas como Marcia X (embora nunca tenha estado presente em nenhuma das suas performances, só tendo contato com registro dessas); o trabalho de Tracey Emin (que, para esse álbum, em especial tive duas obras em mente: My bed e Everyonde I Have Ever Slept With); Sophie Calle; Gabriela Mureb; Mariana Manhães; Marilá Dardot, entre outras.

O que me deu coragem para começar foi o fato de acompanhar a produção de artistas brasileiras de arte sonora e poesia. Sites como Bandcamp e Soundcloud foram bastante importantes para entrar em contato com esses trabalhos. Também foram excelentes veículos para difusão de selos independentes como Música Insólita, Seminal Records. Inspirei-me bastante no projeto b-Aluria, pois acompanho o trabalho de poesia de Gabriela Nobre há muitos anos e foi bastante inspirador ver/ouvir seus escritos sendo performados, evocando imagens e referências cinematográficas.

A partir desse momento, procurei ouvir outros trabalhos de artistas brasileiras (Sanannda Acácia, especialmente seu “Quasicrystal”; Bella; Arcofluxo; Marcela Lucatelli; Flavia Goa; Leandra Lambert, e, mais atualmente, Rayra Costa; Olivia Luna; Nahnati Francischini (Teratosphonia);May HD (do selo Noise invade, homônimo do mixtape Noise Invade); Shaunary, só para citar algumas. Também, através da Gabriela Nobre, conheci o noise de Godpussy (Jhones Silva e o álbum “Não vamos dar a outra face”), o trabalho incrível de Verjault (Daniel Alves) e, obviamente o duo Corda e Corte (e o álbum de estréia “Desacorda”). Já tinha contato com os trabalhos de músicos e artistas sonoros como J.-P Caron, Paulo Dantas, que já eram uma referência com trabalho experimental em som (e já extrapolando a fronteira da música). O interesse por trabalhos que transitam entre som, imagem e performance é antigo. Posso dizer que remonta a um show de Naná Vascocelos que assisti na Fundição Progresso em 2000, bem como uma apresentação de “Curtos Circuitos” de J.-P Caron.

MI: Como vê e entende a cena da música experimental na sua cidade?

Confesso que não sou frequentadora assídua dos eventos de música experimental (ou qualquer evento que o valha), mas isso não significa que não acompanhe (mesmo que à distância), ou que não tenha ideia do que está se desenvolvendo. Sou da área de artes visuais, leciono em escola pública e nunca mais fui a uma vernissage. Frequento as exposições mais “incontornáveis” e procuro “escapar” em algum horário para ver alguma obra ou mostra que me interessa muito. Simplesmente saio pouco, por limitações de horário. Acompanho com entusiasmo a multiplicação dos selos independentes voltados ao experimentalismo sonoro. Tenho contato de longa data com poucas pessoas no meio, frequentadores do extinto Plano B (onde também performaram), que me impactaram com suas obras e resiliência para produzir. Vejo que essas pessoas, músicos e artistas sonoros e outras pessoas oriundas de áreas como literatura e, até mesmo filosofia, têm criado uma produção que desafia as fronteiras de suas próprias searas, uma vez que criam “trans-atravessamentos” com performance, pesquisa acadêmica, escrita (poesia, literatura), sonoridade. Há uma coisa aí que me interessa: através de várias estratégias, criar uma relação mais horizontalizada entre os diferentes meios, ampliando a possibilidade de criar dispositivos, portanto, novas formas de fruir imagem, som, texto e performance. São obras que surgem de maneira que fica difícil pensar em uma categoria para enquadrá-las.

É muito legal ver gente que quando conheci ainda estavam na adolescência, mas, desde aquela época me apresentavam toda sorte de “música estranha”. Várias dessas referências só “reacessei” recentemente. Na época em que me foram apresentadas, achava interessante, mas não sabia bem como lidar com esses sons. Enfim, as pessoas que conheci (e outras que ainda gostaria de conhecer), que estavam já produzindo trabalhos autorais considerados experimentais, hoje criam seus próprios selos e espaço (como o Ibrasotope em São Paulo, Fosso, Aparelho, Escritório, no Rio de Janeiro) organizando-se coletivamente, fazendo reverberar as pesquisas sonoras e acadêmicas via debates e produção textual. Então, vejo que é um momento crescente nessa área no Rio de Janeiro. Tenho orgulho em ver tanta diversidade entre artistas, inclusive na faixa etária, bem como o aumento do número de artistas mulheres se envolvendo em produção de álbum e eventos.

MI: Como as pessoas que se interessarem podem conhecer mais do seu trabalho?

  • Quem estiver interessado em conhecer meu trabalho com imagem, este é meu Portfolio: http://twixar.me/k77n
  • Estréia da instalação sonora “Partituras” no Sonora Festival (Festival Internacional de Compositoras, Porto Alegre, edição de 2018 (com organização de Isabel Nogueira): http://twixar.me/TN7n

artista: Taticocteau
álbum: “Caminhando com minhas próprias pernas”
selo: Música Insólita
streaming e download:

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