Resenha: Taticocteau – “Caminhando com minhas próprias pernas”

Não é o simples movimento. Mas como a caminhada incorpora no transeunte símbolos que se liquefazem e são partes fluídas do que se entende por pessoa.

O movimento incisivo excede a atividade mecânica e recebe sinais do espaço em que se locomove. Um rosto percebido entra numa mesma instância criadora compartilhada- ele migrou da indiferença para os sons e as imagens que nascem de outro. O tempo funde sons e imagens em uma mesma manifestação.

Lembretes que puxam o fio dos significados e os distribuem como sobreposições que enfrentam referências rígidas. Eles persuadem uma fratura nas exposições específicas e liberam um vaivém, como se cada reminiscência fosse uma abertura arbitrária na escassez dos caminhos. Lembretes que são caminhos escondidos, acessos que perdem sua veleidade quando abraçados pela caminhada.

Uma colagem que é resquício de várias convivências fragmentadas como uma carga de lembranças e esquecimentos. Um resquício da caminhada: a captação da ausência porque jamais seria possível apreender um todo. Você poderia andar horas e horas na mesma avenida, sob as mesmas condições de tempo e espaço, e ainda veria que novos corpos, ainda que tão desconhecidos quanto os outros, rabiscam uma nova história e, portanto, o espaço jamais seria naturalizado. Quando o cansaço chegar, os muros indefinidos serão os receptáculos de uma apreensão nebulosa de tudo acumulado pela caminhada. Você poderia perder-se.

Lembretes coletados e transformados em narração. Hoje, eu escuto os sons produzidos com uma referência, mas ela desapareceu com o passar do tempo e tal espaço foi ocupado por outros símbolos. Memórias esparsas lutando pelo espaço central do que vai ser capturado e transformado em retrato. Nada voltará como sua forma de partida, moldando os desgastes da caminhada como mapa de afetos.

Como um filtro errático ajustado por regulagens imensuráveis, memórias limitam a fidelidade para honrar a imposição do tempo.

Foi uma proposta simples. Taticocteau evidenciaria o que testemunha em suas caminhadas, dimensionando-as em camadas sonoras que socorrem algum significado de perambulação. Ela chamaria isso de caminhar com as próprias pernas. Isso se desdobraria em impressões racionalizadas de um processo iminente, muito parecido com alguns movimentos de pintura e artes plásticas. Pode representar uma construção subjetiva de um mundo concreto e a racionalização dessa subjetividade fluída através do processo de edição, mixagem etc.

Mas não foram apenas sons recolhidos, foi música.  A zona de “Caminhando com minhas próprias pernas” constrói-se na fidelidade impossível e a manipulação interventiva, filtrando os sons recebidos e modulando-os em processo de construção e recorte. Sons que são lembretes de caminhadas nas quais uma impressão de mundo era apreendida. Música de um espaço que está em constante processo de tornar-se ruína.

As ruínas eram inumeráveis. Seus caminhos labirínticos desembocam em paisagens distorcidas, lugares afetados pelo desgaste físico e mental. Eu nunca duvidei da deferência da Taticocteau aos lugares que testemunhava e a maneira de ela evidenciar esses terrenos, como uma revelação instável, fez-me lembrar das vezes em que eu passava longas tardes caminhando com meu avô, até que ele se perdia e, embaraçado, tinha de perguntar como fazia para voltar para casa. E é por isso que  “Caminhando com minhas próprias pernas” me parece um reduto encharcado de possibilidades formadas por desistências e afirmações. Afirmar-se pela certeza de que cada passo pode ser um desvio e de que as pegadas se desfazem enquanto seguimos; pouco resta. Minha pele me leva àqueles lugares ao ouvir estes sons atormentados, como se a memória precisasse de uma chave para promover, simultaneamente, tantos acessos e reentrâncias.

Uma memória dos espaços percorridos, distorcida enquanto os pontos lembrados convergem para um signo. A ocasião para o que se chama de arte poder surgir; da criatividade de reelaborar apreensões em linguagens interativas. E parece acolhedor poder transformar os equívocos em possibilidades.

Outro lembrete ; só com o esquecimento seria capaz de promover um dever criativo com o espaço em que se transita. É o desajuste fazendo-se marcado por trás de superfícies blindadas. A única linguagem pela qual Taticocteau se comunica é através de silêncios e ruídos, uma coesão interna originada de uma tensão musicada. E como muitas coisas para as quais não temos resposta, a deterioração das lembranças em partes viscerais de caminhada surge como uma certeza de que algo foi apreendido e muito se perdeu e que apenas honrando as poucas reminiscências um espectro do perdido poderá ser visualizado. Mas isso não é uma memória. É um objeto vivo, uma peça de música, que sinaliza coisas que só podem ser consideradas música se reunidas sob um prisma produtivo. É o curso da caminhada.

  “Caminhando com minhas próprias pernas” é, portanto, um ato de tradução. Localiza ausências ao afirmar presenças, mapeia um acesso criativo dos lugares transitados atravessados pela agente.

Neste álbum, o trânsito é a locação. Os silêncios e os murmúrios contemporizam os ruídos na mesma escala desafinada do cotidiano. Taticocteau nos leva através desses suspiros sufocados e abafados por uma grandiosidade nebulosa e massiva. Um espaço circulável por esboços de energia que se insinuam e somem. Uma felicidade brutal de perceber essa emergência aproximando-se e esvaindo-se. Os estrondos e silvos que só serão percebidos uma única vez. Receio nunca mais poder ouvi-los da mesma forma.

Sons específicos que terminam, amplificando outros ruídos adormecidos. Chegamos a andar percebendo essas interrupções, observando as luzes e sombras modificando-se tão desordenadamente quanto os barulhos.  O que sabemos sobre essas modificações são seus resultados finais, a não ser que alguém tente escancarar o processo da polifonia transitória. E então eu estava alheio outra vez, até perceber que os sons antigos já morreram e restava um vozerio indefinido onipresente. O que soou neste tempo perdido? Quem se surpreenderia se, detrás dos grunhidos, não houvesse nem fantasmas? O silêncio é a única tradução da ausência?

Há um momento em que a atenção fracassa e sobram os restos. Se você ouvir “Caminhando com minhas próprias pernas” caminhando pela vizinhança de novo e de novo, como eu ouvi, vai perceber uma saudosa transição, cujo afeto está mais ligado ao que não se concretizou. Uma resposta emocional à sensibilidade provocada pelo disco. E o som da perda que foi uma existência.

Nos últimos minutos, Taticocteau apresenta uma cadência desestruturada frequentemente interrompida por assopros. E você não precisa de ter testemunhado o que ela testemunhou para perceber que são vestígios inauguradores. É por isso que você ouve música, em primeiro lugar. Para compartilhar de instâncias em que uma criação tão íntima ressoa em seu próprio espaço subjetivo. Eu não teria como ser mais grato a alguém por ter me proporcionado este compartilhamento. Ao traçar vestígios, um mundo possível é inaugurado.

Nada pode ser o mesmo de novo.

Não é sobre traduzir os passos, mas transformar seus vestígios em criação.

artista: Taticocteau
ano: 2019
álbum: Caminhando com minhas próprias pernas
selo: Música Insólita

texto: Henrique Barbosa Justini
mais textos do Henrique em:
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/author/henrique/

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