Caeso – “Aum”

Compositor, guitarrista, músico de computador, artista-sonoro-visual-e-etc., Caeso tem produção criativa diversa e experimenta meios como a acusmática, a eletrônica em tempo real, a improvisação livre e também a composição tradicional escrita, além de produzir esculturas e gambiarras sonoras de todo tipo, e de outras coisas legais e que não fazem som. Pela ocasião do lançamento do seu álbum “Aum” pelo selo Música Insólita, conversamos um pouco sobre a sua trajetória e sobre os processos de trabalho na peça que nomeia o disco.

MI: Sua produção, ou melhor, suas diferentes formas de produção são diversas: passam por escrita musical em partitura, pelo improviso livre, por criação de esculturas musicais. Conta um pouco sobre seu percurso até aqui, sobre a sua formação e sobre esses variados “registros” criativos.

Falar em trajetória dá ideia de uma linearidade singular. Não sei se consigo ver isso muito bem, acho que sempre vi como muitas trajetórias, que de alguma forma se complementavam, mas corriam principalmente em paralelo. Toquei guitarra em uma quantidade considerável de bandas quando adolescente, estudei violão clássico, fiz graduação e mestrado em composição, trabalho com teatro desde 2011, me aprofundei em artes visuais, programação, eletrônica, fiz parte de um coletivo multidisciplinar, banda e duo de improvisação livre… Acho que só nos últimos 3 anos é que finalmente comecei a juntar os cacos para construir algo mais sólido, mas pra falar a verdade ainda estou muito no começo. O que percebi ao longo dessas trajetórias, no entanto, é a importância para mim do contato direto com os suportes, seja um objeto físico ou um grupo de instrumentistas. Essa interação e experimentação me permitem descobrir, além de som e sonoridade, possibilidades poéticas e conceituais que apenas eles podem me oferecer, pois sempre tem algo “por baixo” orientando o processo, por mais que vago, por mais que nem sempre tão evidente. E, em dado momento, a lógica de um transborda no outro, começam a fazer parte de um repertório, o que faz também com que eu esteja sempre fazendo edições e mudanças a partir de um ensaio, de uma última apresentação, etc.

Caeso

MI: “Aum” é uma peça para coro/vozes amplificadas. Desde a sua composição à reunião dos intérpretes, até o tratamento do material para o lançamento foi um caminho razoavelmente longo percorrido. Como “Aum” surgiu e foi estabelecida?

Na época eu fazia parte de um grupo de compositores, o TAO, e fechamos com o coro Sacra Vox para que compuséssemos para eles. Mas havia uma limitação: eles só fazem repertório sacro. E eu sou ateu. Não me sentia nem um pouco a vontade para me apropriar de uma crença de outros e na qual eu não acredito. Me sentiria hipócrita. Até que, pesquisando, me embrenhei na simbologia dessa sílaba, AUM (ou OM, ou ainda Õ), que é sagrada a mais de uma crença/religião, e transcende uma questão de entidade. Seria o som mais poderoso do universo, o tipo de coisa que tem uma vida própria. Daí, estudando sobre isso, acabei estruturando a peça formalmente e conceitualmente ao redor da sílaba, e queria que a obra fosse tão aberta quanto a própria, amarrando sua estruturação formal e conceitual na sua simbologia, e portanto a compus como uma partitura gráfica de uma página. Mas acaba que pelas limitações de um concerto tradicional, ela foi executada nas duas vezes com duração bem curta, o que fazia com que muito fosse perdido dessa intenção inicial, não só conceitual, mas também sonora. E o elemento sonoro também me levou a optar por amplificá-la, para valorizar as pequenas nuances e flutuações que, em especial em uma performance curta, acabavam passando quase despercebidas. Assim, decidi chamar apenas amigos, que iriam entender a proposta, e fazermos nós mesmos, fora de um espaço de concerto tradicional, da forma que achava que deveria ser. Fiquei bem feliz com o resultado.

“Aum” executada por amigos/artistas da cena experimental em novembro de 2018, na Audio Rebel, no Rio de Janeiro. Da esquerda para a direita: Daniel Alves, Gabriela Nobre, Paulo Dantas, Caeso, Henrique Correia, Rafael Sarpa e Bernardo Girauta.

MI: O que você ouve e como você vê a sua relação com a produção de som experimental?

Cara, eu não sei dizer direito o que eu ouço. Parece idiota, mas é verdade. É diverso sem ser diverso. Posso dizer que ouço muito a galera que vem tocando na cena experimental do Rio por ser frequentador, além da produção de outras galeras pelo Brasil. Acho que, no momento, minha maior influência é essa. Mas tem coisas centrais também como Mr. Bungle, Naked City, Marlí, Ligeti, Kate Bush, Fausto Romitelli, Nadja, Liturgy, Alice in Chains, Black Sabbath, Ravel, Debussy, Smetak, Alvin Lucier, George Crumb, Flying Lotus, Portishead, Björk, Derek Bailey, Art Blakey… Acho que você vai ficar puta comigo, mas eu sou dessa gente que baixa um monte de coisa avulsa sem pé nem cabeça, ouve em qualquer ordem e nem sabe de que disco faz parte, então é meio foda ser específico quanto a o quê de cada um. Mas, de alguma forma, acho que essa mistureba faz parte do que eu faço. Eu ainda me dou a liberdade de jogar um monte de referência junta e ir ajeitando as coisas. Acho que isso tem muito a ver com forma a como experimento as coisas.

MI: Haha, não vou ficar puta, você ouve como quiser! 🙂 Como as pessoas que se interessarem podem conhecer mais do seu trabalho?

Tenho um site (ocaeso.wix.com/caeso) e tenho também um soundcloud (soundcloud.com/caeso). Mas o bom mesmo é ver ao vivo, daí quem quiser acompanhar, tem facebook (facebook.com/caeso.mus) e instagram (@_caeso) pra essas coisas.

artista: Caeso
álbum: “Aum”
selo: Música Insólita
streaming e download:

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