Resenha: Symbiosis Inc – Synthesis

  Você é importante na medida em que provoca reações e estas respondem a seu espanto com outra caracterização de assombro. Acreditas  que elas te compreendem porque são uma manifestação de uma particularidade específica de estar no mundo. Você ouve uma sensação de desajuste que é catalisada por expressões provocadas por si, embora não saiba exatamente como esses sons foram produzidos e/ou registrados . Você aumenta o som e oblitera a si mesmo na esperança de que, nessa autodescaracterização, reste alguma espécie de origem essencial. Isso é literalmente uma fuga que anseia por construir um refúgio em um mundo desabrigado.

  Se, como eu, sua fé na música está no procedimento de deslocamento que ela causa, Synthesis é uma aceno nessa direção. Talvez porque o tempo batizado seja outro, e os atrasos redimensionem minha experiência durante a audição: é a vida concreta sendo interposta por um objeto imediato, saindo do seu cotidiano e experimentando o tempo em outras propriedades. Porque os “ruídos bonitos” evocados são como uma luz, de origem inexprimível, refratada pela subjetividade dos compositores para iluminar ou obscurecer nossa visão. Talvez eu estivesse preocupado demais na ideia de me deslocar sem que percebesse que as mediações provocadas pela música já nutriam um movimento. Ou que uma forma de beleza suspendesse o movimento; como se não fosse tudo um transe contemplativo, uma participação obsessiva num mundo retraído.

  É isso, eu estava preocupado com o movimento que a música podia causar, sem compreender que, como Clinamen, eu poderia ser retirado de “determinada maneira de experimentar o trânsito”. Como se os compositores retirassem substratos deste universo para revitalizar o testemunho de caminhada. É o problema em confiar demais na abstração: esquece-se que há uma quantidade limitada de objetos e que em sua combinação está a criação. Symbiosis Inc. é um pacto exorbitante de elementos (pássaros, violões, vozes, baixo, harpas e violinos) que recondicionam cronicamente a experiência.

  Na medida em que a música experimental serve para dizimar a ideia totalitária de unidade, de modo que evoca os resíduos e reconstitui uma transposição superficial em participação potencializada pelos restos. Eles criam a partir de micro-organismos que rejeitam uma estrutura canônica porque se reproduzem sem a necessidade de fidedignidade (se há uma relação de mimeses, seria uma corelação com sons instintivos). Symbiosis Inc tem um generoso senso colaborativo no recondicionamento de mundo constitutivo a partir das migalhas do que está mais visível. A diluição de algo grande e plenamente observável a fragmentos estilhaçados que recompõem uma outra forma de introdução no universo sensível a partir da aproximação.

  Se música é transformação, o Symbiosis Inc estende essa ideia para estabelecer um campo movediço de constantes saídas e entradas. E pavimenta esse caminho cíclico com impressões que se desfazem tão logo quanto nascem, sempre dispostas a ser outra coisa. Eles encontram esse “estado puro de transformação” porque reconhecem a impossibilidade de inércia, porque criação sempre descende de qualquer rotação mínima. Eles respondem a esses movimentos com outros movimentos, de modo que o resultado apresentado no disco seja do atrito de vários sons ocorrendo ao mesmo tempo. Como hospedeiro que tão logo liberta o que foi recebido com seu toque, o álbum fala de uma fé nesses recônditos.

  É um álbum de transformações, o que significa que cada audição será diferente. É um álbum de retração e expansão. “Clinamen” não soa como algo que nunca ouviríamos antes; mas sim como uma integração de resquícios percebidos ou não, uma expansão do universo sensível profunda e superficialmente conectado pela transposição de elementos evidenciados a partir da composição do disco. Isso inclui passagens que você demora muito tempo pra perceber ou algo que lhe chama a atenção logo de início. “Ethereal Labyrinth”, porque sua conclusão desemboca em outro início, e cada passagem é uma retomada e um aceno de despedida. Esse é o poder sugerido pela imersão: uma integração corpórea aos caminhos indefinidos, bem como a apreensão das coisas passageiras. Elas começam como uma representação de uma repetição que sempre se diferencia à medida que as relações de representação se modificam em qualquer tempo, em qualquer lugar, em cada inauguração e em cada revisita. Elas estalam, trazendo memórias e reconstruindo vivências a partir de lembranças disformes.

  A lembrança depende dos estalos para vir ao mundo, assim como as melodias dos compositores para criar esse campo comunicativo, em que “Mysteries of Mind” e “Ode ao Mar” destinam-se a cantar o mistério, seja o da mente ou das profundezas marítimas. Eu ouço esse abismo refletido em todos os objetos (“The Abyss of Inner Reflection”) porque afinal tudo é projeção, tudo é uma melodia instável que se oferece fragmentadamente no mundo instituído. Eu não estou ouvindo sozinho, então eles não gravaram sozinhos. Somos tão importantes porque temos reações e nos relacionamos com tudo.

  Qual a melhor forma de se relacionar com tudo que não a expressão sensível do universo sensorial e afetivo? Quando as vozes de desespero e os barulhos das armas surgem em “War”, há o lamento manipulado dos produtores pela perda gradual deste universo com o qual nos acabamos de nos relacionar. Symbiosis Inc coloca a redescoberta possível, ao afirmar que há sempre um plano multidimensional para se relacionar com a música. Através das ondas sonoras, há sempre uma relação mútua, aguardando para ser desbravada. 

artista: Symbiosis Inc.
ano: 2019
álbum: Synthesis
selo: Música Insólita

texto: Henrique Barbosa Justini
mais textos do Henrique em:
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/author/henrique/

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