Vulgar Débil – “Obra II”

Vulgar Débil é o projeto/alter ego de João Pádua (SP), surgido conceitualmente em 2012 e com vasta produção lançada a partir de 2016. Pela ocasião do lançamento do disco “Obra II”, conversamos um pouco sobre o hermeticismo que cerca o projeto e suas referências.

Vulgar Débil em vídeo produzido para a série “Música Insólita vídeos performance – temporada 2019”

MI: Conta um pouco sobre como surgiu o Vulgar Débil e como foi a sua trajetória até aqui.

Vulgar Débil é um alter ego que permeia minha forma de expressão. A alcunha significa um indivíduo com tendências a praticar pequenos delitos de forma discreta, conceito encontrado em um livro por volta de 2012. Desde então vim pensando e repensando este conceito, até ele realmente se consolidar em 2016, com a produção do álbum “Nihil Admirari”. Eu uso esse heterônimo pra todos os tipos de produção artística diretamente ligadas com meu próprio processo de individuação. É uma forma de conversar com a minha própria alma, uma autoanálise. Tem certos tipos de sentimentos com os quais só tenho contato quando paro pra analisar o produto que o Vulgar Débil me expõe. Sempre tive interesse em produzir música, mas por muito tempo permaneci na inércia de apenas querer. Uma série de experimentações, aprendizados e conversas me levaram a realmente consolidar a produção artística, contudo nunca cheguei a considerar seriamente, até o nascimento do “Nihil Admirari”, que consiste numa série de experimentações artesanais sonoras, que juntas fizeram todo o sentido e foram realizadas e jogadas para o mundo. O Vulgar Débil desde então é uma hecceidade, uma forma de me colocar na existência.

MI: Uma das características fortes do seu trabalho com o Vulgar Débil são as referências a um certo hermetismo que, se considerarmos uma rede de influências, aproxima o seu projeto do registro do post industrial/neofolk. Penso em nomes como Current 93 e nos primeiros discos do Death in June. Há essa relação de fato? Fale sobre esse seu elo com magias e filosofias ocultas.

Antes de mais nada, esclareço que desde que me questiono como ser humano, sempre me interessei muito pela filosofia. Os temas dos meus trabalhos sempre vão estar muito ligados com pesquisas, emoções e temas filosóficos. Nessa série de encontros e desencontros acabei chegando até o estudo das artes ocultas, magia, hermetismo, alquimia, tarot e etc. Também através do estudo da psicologia jungiana, me conectei extremamente com os temas relacionados aos processos de individuação, com foco na alquimia e demais sabedorias consideradas herméticas. O que mais me liga a estes temas é como eles expõem a fragilidade da linguagem para dizer o indizível. O indizível é apenas indicado, através de palavras corriqueiras e metáforas, e ainda assim há quem consiga apreender o real significado dos dizeres e sensações. Ao mesmo tempo que é linguagem é frágil, esse tipo de conteúdo tem o condão de evocar imagens de forma muito fácil e ágil, que é como eu pretendo tocar as pessoas com as músicas. Desde então, tenho cada vez mais me aprofundado nestes temas, na medida do possível. Quanto à relação com os projetos Current 93 e Death in June, posso mencioná-los como uma influência indireta ao meu trabalho, já que antes mesmo de começar a produzir as músicas, ouvia muito os discos de ambos. Tanto os demais projetos que lidam com este assunto quanto os estudos teóricos são apenas menções. O substrato de todos os temas e sons são sempre a forma de percepção que tenho do meu próprio processo de individuação, e também de outras pessoas. Para citar mais alguns projetos que muito me influenciam neste campo são: Sigillum S, Nocturnal Emissions e Vox Populi.

A alquimia, mais precisamente, é algo sempre presente na minha vida já alguns anos. Tenho praticado, estudado e aplicado este tipo de conhecimento. Este álbum “Obra II” é uma segunda versão de um disco prévio, chamado “Obra” que vale a pena a escuta, cujos nomes invocam o “fazer alquímico”, um procedimento cujo resultado normalmente é chamado de obra. A obra, no caso, remeto imediatamente ao fazer artístico e, de forma mediata, ao existir como um indivíduo perante o todo. Lido dessa forma com reutilização de temas como em “Autofertilização”, “Corpoeterno” e “Granito II”. 
Vale relatar também uma série de encontros misteriosos que levaram a confecção de faixas como “Corpoeterno”, que surgiu de um papel que recebi de um andarilho misterioso, totalmente desconhecido por mim e que não cheguei a rever, com inscrições quase ilegíveis, indicando algum acontecimento que não foi de fácil elucidação. Hoje consegui decifrar que é uma indicação à realização de projeção astral. Parte das inscrições deste papel é a arte da capa deste disco. Nunca recebi nenhum esclarecimento sobre quem era essa pessoa, ou qual o real significado das inscrições e dos gestos do andarilho. Senti como se ele houvesse me reconhecido de alguma forma. Chego a me arrepiar enquanto escrevo isso.

“To purify”: símbolo da alquimia, utilizado sempre que se busca a purificação dos elementos

MI: Há também a relação com a literatura e o cinema. Ao vivo, você faz leituras de trechos de textos e fiquei com o disco “Querelle” na cabeça, que você fez em parceria com o Acid Woe. Conta um pouco.

A literatura interage com a produção das músicas por meio de encontros fortuitos. Às vezes encontro, de passagem, um trecho de um livro, uma frase, uma palavra, um símbolo ou um poema que condizem exatamente com a mensagem que eu gostaria de apresentar aos ouvintes. Foi o caso do poema “Na Luz” de Cruz e Souza, que li na performance de um ano deste selo, entre outros poemas que já utilizei. Um exemplo interessante é a faixa “As vile as a flower” do meu disco mais recente lançado pela Seminal Records, onde pretendi transformar em som esse verso de um poema do Aleister Crowley, presente no livro White Stains. Também há poemas de minha autoria que normalmente vocalizo em algumas faixas, como em “Granito II”.


“Querelle” nasceu de uma ideia do Ivan (Acid Woe) para continuarmos a nossa parceria musical. Temos muitas coisas em comum, e essa foi mais uma delas. Estava passando por um momento de tensões afetivas muito grande naquela época, e de repente ele me encaminhou uma seleção de sons que ele havia capturado e mixado do filme do Fassbinder. Este simples ato, imediatamente, me remeteu ao livro do Jean Genet e ao filme em si, condizendo em muitos sentidos com minhas aflições no momento. Saí de casa com o gravador logo em seguida e passei por uma construção em andamento, com vários pedreiros sem camiseta, trabalhando arduamente ao sol. Todo esse conjunto me remeteu aquela tensão quase voyeurística do capitão em relação ao marinheiro Querelle, e gravei os sons abertamente, que depois tratei e adicionei à mixagem do Acid, e não bastante, criei os vocais num repente, quase um espasmo catártico. Eu, particularmente, acho essa faixa muito pesada.
Em síntese, tanto a literatura quanto o cinema, sendo que sou apaixonado por ambos, são influências também indiretas do meu trabalho.

Destaque da forma das ondas sonoras da faixa “Granito II”

MI: O que você usa em termos de equipamento? Foi algo que mudou muito ao longo do tempo?

De equipamentos, como me enquadro na produção experimental, diria que posso usar qualquer tipo de material. Uso muito gravadores e microfones, de todos os tipos, desde o gravador do celular até o microfone hipersensível para captação de sons de campo. Gosto muito de utilizar microfones de contato em superfícies metálicas. Uso também vinis e fitas cassete, dada o seu anacronismo, são muito adequados aos temas e percepções que gosto de provocar. Uso também intensamente os softwares de áudio, em especial FL Studio e Audacity para tratar áudios mais sutis e criar um set. Gosto muito também de captar samples das mais variadas origens e utilizá-los como ingredientes da alquimia toda da produção musical. Ultimamente, tenho arriscado bastante na utilização de no inputs, seja no mixer, mesas de som, no estúdio, ou até mesmo no pc que temos na casa da minha família.

MI: Usa esse espaço para promover seu trabalho, com links que você queira compartilhar e convidar as pessoas a conhecer.

Gostaria de convidar os leitores e ouvintes a conhecerem mais dos meus lançamentos pelos links: https://vulgardebil.bandcamp.com e https://tumere.bandcamp.com , além de convidá-los a assistir ao vídeo-performance criado para a série “Música Insólita vídeos performance – temporada 2019” , no Youtube:  https://www.youtube.com/watch?v=Ydp3jxPVjEQ&t=819s .

artista: Vulgar Débil
álbum: “Obra II”
selo: Música Insólita
streaming e download:

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