Resenha: Caeso – “Aum”

Você senta na sua cama e pensa no dia difícil e pensa que, de alguma forma, suportou e pensa nas pessoas com as quais compartilhou as suas dificuldades e pensa em se isolar de tudo e de todos e pensa que foi tudo e todos que te mantiveram vivo.

Eu amei e odiei cada risada, eu amei e odiei cada suspiro- cada uma dessas esculturas emotivas moldaram sensações trôpegas, desconexas das realidades iminentemente ligadas a elas. Eu percorri tudo sem norte, foi tudo ao mesmo tempo- como justaposições de lembranças e situações.

Na companhia desses múltiplos sons em paralelo (que estão sempre se desdobrando), eu resgato um tempo que retorna como eco distorcido. Ao conviver com fantasmas reais, há uma múltipla invasão dos sentidos que abrigam diversas outras formas de presenciar a música; como um receptáculo dúbio que dilata e refrata cada suspiro.

Eu tenho tentado juntar os estilhaços para perceber que qualquer possibilidade de unidade é sempre erradicada pelas migalhas que o tempo leva. Eu pensei que a maneira mais honesta de tratar sobre perda fosse com ruídos que reformassem a sensação de ausência como uma continuidade, uma perda que sempre se renova porque cada som traz algo que foi aniquilado. A verdade sobre a ausência é que ela apenas se evidencia quando é tarde demais, como se fosse impossível dar todo o amor ao objeto presente. Como se a morte fosse um propulsor intrínseco do afeto. Esta é uma maneira muito horrível e maravilhosa de perceber que reproduzir uma sensação é uma forma de honrar seu funeral e não a sua vida. Cheio de vozes amplificadas, o que persegue é o lodo to tempo, como uma orquestra assombrosa que inibe uma manifestação plena.

Há uma verdade ao simplesmente trazer vozes e sua manifestação como um amontoado de reminiscências. Há uma honestidade incongruente ao fazer desse coral rebuscado a manifestação de um exílio que se prolonga no delírio diário. Há uma honestidade cínica escondida em ouvir o deus dos outros sabendo da impossibilidade de pertencer àquela fé; mas se a fé parte do coro e não de deus propriamente (ou se deus age por meio daquelas vozes), ela é apenas refratada por receptores que a refratarão ainda mais.

Eu cheguei ao Caeso quebrado, ouvindo em uma terça feita solitária numa cidade muito quente. A primeira vez em que ouvi eu precisei caminhar pela cidade atentando-me à produção algumas vezes e é impressionante como ela era um eco, um espelhamento brusco do deserto de vida que há por aqui. Eu mal acreditava que ouvia vozes que exerciam sons tão meticulosos e ainda assim inclementes, com uma religiosidade implícita em sua blasfêmia. Eu não precisei de batalhar para transpor, naquilo, um som oculto em todas as coisas, todos os recônditos que se estendem nesta cidade. Eu não consegui imaginar o que era a vida sem a certeza de que essas vozes existem, sem tê-las ouvido repetidamente como uma cadeia sonora constantemente trocando de imagem acústica. Elas já faziam parte da minha experiência de cidade e, portanto, da minha experiência de me localizar no mundo. Eu espero que por localização se entenda algo fluído, cambiante e errante transitando por um universo de trocas. Eu só quero dizer que este senso de localização que as vozes emprestam neste lugar são uma experiência fundamental em que o som se confunde com espaço, em que um cria o outro.

Aum é uma conversa entre espaços ilimitados que constantemente se atravessam, criando um atrito pelos locais que passam. É também uma espécie de timbre ritualístico que se prolonga e propicia uma abertura, uma fenda entre um local essencialmente sagrado e profano. Começa com oposições falsas que brevemente se mostram grudadas em suas diferenças. Termina como uma afirmação de um propósito. A única peça diversifica-se e prolonga-se como sensíveis alterações dum mesmo ecossistema. É uma produção sobre como partes radicais rascunham uma completude.

Se a crença é um sistema que indica uma abertura da realidade para uma transcendência através do lançamento do espaço limitado no infinito, então a música abarca essa mesma confiança. É tão maleável quanto a linguagem, indica tantos signos possíveis quanto ela. As vozes te deixam enquanto elas já estão instaladas em você. Você é somente uma especificidade porque o eu da primeira audição já não existe em mim, embora, como as vozes e os sussurros do disco, uma parte de sua estrutura inaugural está em mim. Somente alguns músculos diferem um choro de luto para um ritual de celebração do universo. E mesmo que formações constituintes foram deixadas para trás, o tempo não conseguiu apagar a impressão, ainda que borrada, ainda que resguardada a um canto inconsciente.

Eu tento ouvir esses sons diretamente, mas é impossível não relacioná-los ao espaço em que vivo e a que possibilidades suas aberturas me indicam. Eu tentei não levar muito tempo e ser o mais direto possível nas especificidade que eles me evidenciaram. Mas eu só precisei de um secundo para sentir algo fecundo para que seria necessário retornar de tempos em tempos. Isso já era parte de minha experiência dialética com estas ruas, seria impossível, ainda que tentasse, esquecer estas vozes.

artista: Caeso
ano: 2019
álbum: “Aum”
selo: Música Insólita

texto: Henrique Barbosa Justini
mais textos do Henrique em:
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/author/henrique/

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