Resenha: Vulgar Débil, “Obra II”

Nós curvamos nossas costas, de modo a alterar nossa perspectiva para reparar em semblantes impenetráveis, que talvez fiquem mais decifráveis se vistos por outros ângulos. Nossos olhos sempre vão situar tais semblantes antes de nossos cérebros, sendo que por uma fração microscópica de segundo o raciocínio de “abstruso” não vem à mente, apenas a imagem pura e suas distorções causadas por distância, luz etc. Começamos nossas relações como observadores. Começamos a reconhecer as formas a partir de um jogo de nomeações e sons, apurando os sentidos para classificar os objetos do mundo. Convertemos essas percepções à memória, a qual frequentemente recorreremos, ainda que de maneira falha, para continuar se inter-relacionando com os objetos de maneira cada vez mais categorizada.

A maneira como pensamos em nós é fruto dessas relações categorizadas pela experiência e pela exploração da memória, de modo que nos comparamos a outros semblantes e, se verificamos neles espaços fechados e ocos, é porque as constantes associações falharam e tem-se um corpo mudo do outro lado.

Quando ouvimos a música, é necessário perceber que ela foi construída antes de apertarmos o botão de “play”, que ela se desenvolve, também, nos ruídos dos meus fones de ouvido ruins e no barulho da rua lá fora num sábado de manhã. O que desfaz uma individualidade performática do artista em uma participação coletiva, ainda que quase sempre em dissonância; sons que se contradizem em altura e intensidade. Os olhos podem ser barrados pela impenetrabilidade dos semblantes, mas o ouvido pode chegar num ponto em que tal enigma se manifesta como ruídos, timbres ou (erradicação de) harmonias. Não podemos olhar para um som, mas podemos pressentir imagens de nós mesmos e dos outros que a música provoca, às vezes até aspectos dos quais não tínhamos conhecimento até ouvir determinado álbum.

“Obra II” tenta situar uma barreira fantasmagórica para manifestar tal desconhecimento a partir de sonoridades que se prolongam, insistindo no ponto cego como uma observação ativa. Vulgar Débil escreveu essas composições experimentais para dar um relato de um observador mudo atento, principalmente, às barreiras da visão e de como elas podem transformar-se em sons ou como elas já nascem carregadas de barulhos imperceptíveis à primeira vista – mas há sempre uma relação que recorrerá a uma manifestação sonora. O desejo de sistematizar tal aparecimento que a visão não explicita pode ser inerente aos artistas, mas é evidente que tais associações ocorrem a todos. De alguma maneira, ouvir Vulgar Débil parece como uma desistematização dessas associações lineares, como se tais ligações entrassem em espécie de curto-circuito. Como se as relações de causa e efeito fossem alteradas quando a fragmentação do modelo associativo colapsa ao máximo.

O que nós criamos no mundo está atrelado aos bloqueios cognitivos que temos. Como se, em um cômodo trancado, um grito barulhento pudesse expressar a ausência de espaço. Nos sons de “Obra II” nós testemunhamos as pessoas em processo de diferenciação através das próprias reverberações. E também começamos a perceber como a quietude é também uma ânsia inexprimível de rearticular em outros modelos organizacionais uma incompreensão do outro, que está fechado ao olhar. É preciso, portanto, ver por outros sons.

artista: Vulgar Débil
ano: 2020
álbum: “Obra II”
selo: Música Insólita

texto: Henrique Barbosa Justini
mais textos do Henrique em:
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/author/henrique/

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