Agla Aëón – It’s A Decopunk Retrofuturistic Untime Machine

O projeto criado em 2017 dedica-se à experimentação sonora e
performática. Seu álbum conceitual de estreia aposta em enormidades sonoras: sobreposições de ruídos maquinais, feedbacks e timbres perfurantes, cujo resultado é uma massa complexa e cuidadosamente esculpida. Conversamos com Bianca Tossato, à frente do Agla Aëón, sobre histórias, ideias e propostas.

Agla Aëón em performance no O Outro Baile, setembro de 2019.
Crédito: Julieta Alsina

MI: Sua primeira formação é a filosofia? Como se deu a passagem para a música, se é que você nota esse movimento de forma separada do seu trabalho filosófico. E como surgiu o Agla Aëon como um projeto?

Minha primeira formação é em música. Eu decidi ser compositora lá com meus 12 ou 13 anos. Naquela época eu escrevia desesperadamente, escrevia como modo de sobreviver à vida. Então talvez minha primeira formação não-formal tenha sido a escrita. Eu também desenhava muito e com afinco. Eu não sabia nada de teoria musical. Eu via a canção como um veículo de idéias muito eficaz, sobretudo pra quem não fala – e eu não falava. E eu tinha muito interesse pelo som puro. Eu experimentava muito com a boca, com sons vocais, me desligava completamente do mundo e ficava fazendo barulhos com a voz, sozinha. Às vezes eu ficava gritando só pra ouvir as reverberações dos gritos no cômodo e gargalhava, e a minha avó brigava comigo e eu gargalhava mais ainda. Mas eu não ouvia muita música. Na minha casa ninguém podia ouvir música, não era exatamente proibido, mas havia um clima opressivo o tempo todo. Quebrar aquele silêncio com música podia deixar tudo muito pior. Minha primeira formação musical foi toda feita pelo meu vizinho, que era adolescente e andava de skate quando eu era pequena, e sempre ouvia rock clássico. Eu ficava sentada embaixo da minha janela, que dava de frente pra janela dele, ouvindo o que ele estivesse ouvindo. E era ali que eu me deliciava com a música, pela primeira vez na vida. Eu adorava aquelas músicas que ele ouvia. Acho que até hoje ele não faz a menor idéia disso.

Já maiorzinha descobri um programa de rádio chamado Ministry of Sound, de música eletrônica, que passava de madrugada. Recentemente eu descobri – a Érica Alves, da Baphyphyna, me disse – que Ministry of Sound era uma casa da vanguarda da música eletrônica de pista em Londres e o programa tocava os sets dos DJs que tocavam lá. Ouvia isso escondida, no volume mínimo porque eu não tinha fones de ouvido, nem um rádio meu. Esperava todo mundo ir dormir e fingia que ia dormir também, então levantava e sintonizava no programa. Colava o ouvido nos falantes do rádio, um lado de cada vez. Depois fiquei obcecada com a Maldita, na AM, que também ouvia de madrugada e gravava. Aí eu já tinha fones de ouvido e um walkman com toca-fitas. Nessa eu comecei a fazer o diabo com as fitas. Eu tinha mania de desmontar aparelhos eletrônicos e ficar testando coisas. Descobri que se espetasse o fone de ouvido no buraco do microfone do rádio ele virava um microfone. Nessa época eu não sabia o que era input e output. Só saía apertando botão, abrindo gaveta e espetando uma coisa na outra. Gravava numas fitas as músicas que tocavam no rádio e eu gostava. Com isso, comecei a gravar meus próprios programas de rádio. E era sempre assim: tudo no volume mínimo, sussurrado, quase inaudível. Teve uma vez que eu gravei uma fita de Dia dos Pais pro meu pai, era um programa de humor, com muita sonoplastia que eu mesma fiz e músicas que eu escolhi – ele ficou meio desconcertado com aquilo. Como eu tinha um walkman, eu podia ouvir música e fazer silêncio em casa ao mesmo tempo. Eu ouvia as fitas de música clássica do meu pai.

Aí eu ainda não sabia nada de teoria musical, mas tomei, mesmo assim, a decisão de me tornar compositora. E junto com isso tomei a decisão de procurar formação em teoria musical – por conta própria, sem avisar a ninguém da minha família. Essa era uma época em que eu ia pra casa de uma amiga ouvir a coleção de discos do Pink Floyd do padrasto dela. Minha mãe só descobriu quando um professor de matemática da minha escola ia me levar na Villa-Lobos pra ver como fazer pra me matricular lá. Ela ficou apavorada achando que o cara podia ser um pedófilo. Até aquele ponto ela não sabia de nada, porque eu não falava com ela e nem ela comigo. Mas ali ela começou a entender que eu tinha um objetivo e, na medida do que era possível pra ela, começou a colaborar. Minha madrinha me deu o violão quebrado dela. No ano seguinte eu fui estudar no CEFET, que tinha um departamento de Educação Artística com aulas de música. Entrei no curso técnico de Edificações, então eu só desenhava planta baixa e ficava grudada no violão. Esse mesmo violão minha mãe arrebentou em mim pouco tempo depois e minha madrinha me deu outro. Eu não estudava nada na escola, a não ser música. Comecei a ficar obcecada, passava tipo 12 horas seguidas agarrada no violão, sem comer nem ir ao banheiro, tentando tocar mesmo com as unhas sangrando. Minha unha é presa ao dedo até a ponta, quando ela descola é um horror. Felizmente isso não acontece mais hoje.

Nessa época, música também passou a ser um pesadelo pra mim. Finalmente entrei na Villa-Lobos e saí do curso de Edificações. Eu tinha me aproximado da galera mais artística da escola, e uma parte dessa galera era do grêmio. Foi ali também que minha formação política começou. Mas no início o foco de tudo era a música, eu só existia pra isso. Ficavam aqueles bois punhetando guitarra, mostrando que sabiam tocar os solos mais firuleiros da face da Terra. Isso me irritava profundamente porque eles extraíam aquilo tudo de tablaturas e não faziam a menor idéia do que estavam tocando. Eu estudava harmonia sozinha, destrinchava os acordes, as seqüências, procurava entender o que estava acontecendo musicalmente em cada coisa que eu tocava. Passava horas e horas fazendo conta. Mas tocar mesmo, uma música um pouco mais complexa tecnicamente, não sabia. Eu estava mais interessada em entender que em executar. Pior: eu, dogmaticazinha, só admitia a execução se ela fosse fundada na compreensão. Me revoltava que as pessoas não se interessassem por entender. Eu tinha dois amigos que já eram músicos profissionais: o Felipe Rodrigues, violonista, e a Laila Oazem, cantora lírica. Eram meus colegas de escola, que tinham um duo, e começaram a abrir as portas dos concertos pra mim. Com as greves na escola, me tornei uma freqüentadora mais assídua de museus e concertos. Assídua mesmo, ia quase todo dia, andava com aquela revista Viva Música! na mochila, toda rabiscada e fluorescente de marca-texto. Tenho coleção desses catálogos gratuitos de exposições e concertos dessa época. Numa dessas andanças fui parar na Bienal de Música Contemporânea.

Eu tinha a intenção de prestar vestibular pra Composição Musical, mas o THE me impediu. Se a escola pública não oferece formação suficiente pra um aluno prestar o THE, esse teste tinha que ser abolido ou pelo menos transformado. Assim, como é agora, é injusto e elitista. Na música as igrejas ocupam a lacuna deixada pela escola, e a educação musical perde a laicidade. Foi por causa desse THE que eu não fui fazer composição. Eu já estava estudando piano visando esse teste, mas só tinha um tecladinho emprestado e sabia que estudando harmonia sozinha não iria passar. Fiz vestibular só pra treinar e sem querer passei pra Filosofia. Dali eu engatei graduação, mestrado e doutorado, direto, sem respirar.

A Filosofia foi um hiato. Um hiato bem amargo, diga-se. Abdiquei da música nesse período, e foi uma das coisas mais idiotas que eu fiz. Foi como me enterrar viva. Sempre tive uma dificuldade grande pra decorar melodias, cantava tudo errado. Exceto no coral, em que eu podia ler as partituras e repassava as melodias exaustivamente. Cantei a capella num dos primeiros shows que fiz na vida e funcionou super bem, eu devia ter uns 16 anos. Fora desse contexto, sem estudar, era um desastre. Nessa época todo mundo já tinha internet em casa e baixava música, e eu dependia dos amigos me emprestarem ou fazerem cópias de CDs. Na minha casa não tinha internet porque minha mãe achava que era besteira, “pra brincadeira”. Eu só fui ter internet contínua em casa quando já estava na faculdade. Acho que essas restrições todas moldaram muito minha percepção, minha capacidade epistêmica e minhas neuroses. Cantar errado é uma dessas coisas que eu acho que foram moldadas. Isso vinha junto com um bullying que pra mim era muito pesado. Meus amigos me sacaneavam, os pais dos meus amigos me sacaneavam… As pessoas em quem eu mais acreditava me sacaneavam porque eu errava melodias. Aquilo me feria muito, e acho que ninguém imaginava. Pensa que vergonha pra alguém que tem aspirações musicais não conseguir entoar uma melodia certo. Eu já me sentia desestimulada a tocar por não conseguir resolver incapacidades técnicas, nos ambientes em que havia música eram sempre os homens, com aquela autoestima toda, monopolizando, e se eu abrisse a boca pra cantar, as pessoas me sacaneavam. Eu parei. Nunca mais olhei pro meu violão. Fiquei cerca de 10 anos sem tocar e sem abrir a boca.

Retomei a música quando estava passando por um período trevas no doutorado. Meu pai e minha avó já tinham morrido havia muito tempo e minha mãe tinha acabado de morrer também. Eu estava um caco. Retomei escondida, pegava o violão quando não tinha ninguém em casa. Comecei a compor como quem vomita depois de ter comido muito. Uma música atrás da outra. Algum tempo depois comecei a gravar sons ambientes que achava interessantes. As máquinas, em especial, me atraíam. Ainda segurei esse material por um bom tempo em segredo até me dar conta de que eu – como todo mundo – tinha o direito de produzir um álbum com minhas músicas. Depois que me chutaram da Filosofia, fazer um álbum foi a única opção que me restou. Aí a Agla Aëón ainda não tinha nome nem forma definida. Ela foi surgindo à medida que fui elaborando e entendendo o material. À medida que fui entendendo qual era a questão subjacente ao que eu estava fazendo.

Passei um bom tempo da minha vida acadêmica estudando Filosofia Antiga, então a antiguidade grega me serve como um bom sistema de referências. Foi de lá que coletei os recursos pra exprimir conceitualmente o que buscava com o projeto. A temporalidade era importante, a natureza do tempo. Os gregos antigos tinham 3 expressões temporais: chrónos (a régua, a sucessão), kairós (o instante, sem duração) e aión (o tempo sem limites, sem começo nem fim, a eternidade). A temporalidade de que eu precisava não podia estar limitada pela materialidade mundana expressa no chrónos, nem pela efemeridade no kairós. Escolhi o aión porque me oferece uma ferramenta de afastamento em relação ao mundo, é o tempo dos deuses, solene, sagrado, imaculável. Com o aión posso colocar o mundo sob exame sem me restringir ao humanamente viável. Posso sobrepor períodos cronológicos e distorcê-los. No entanto, tenho também que admitir que é uma temporalidade pesada e sisuda. Então entrou em jogo a noção de aglaía, o esplendor. Aglaía é uma das 3 Graças, que personificam as alegrias da vida. Associar a leveza de uma Graça à sisudez do aión foi um recurso para criar no nome uma tensão semântica que respeitasse a solenidade do aión, mas desse a ele um caráter mais generoso e benevolente. Fiz algumas adaptações na grafia pra dar uma apresentação visual que me agradasse, e cá está o projeto e seus princípios: Agla Aëón. Eternidade em Esplendor – tem algo de drag queen.

MI: A partir da sua performance ao vivo e dos elementos visuais que estão engajados ali – o figurino, a presença do sino que determina a passagem do tempo e o recorte entre as seções, a personagem um tanto melindrosa um tanto cyberpunk -, é quase que impossível não ouvir “It’s A Decopunk Retrofuturistic Untime Machine” regido por certas referências/signos. Para além de como o público pode, livremente, aproveitar seu disco e performances, qual é exatamente a sua proposta conceitual para esse álbum?

Minutos antes do show na MONO, no Desvio, em outubro de 2019
Créditos: Bruna Félix

O título pode ser lido como um aglomerado de hashtags, com a superficialidade de uma hashtag, e o que a superficialidade e a literalidade têm de trágico. A gente se engana achando que as metáforas são só alegorias, negando sua dimensão de literalidade, quando no fundo está tudo ali na cara, o que quer dizer é aquilo mesmo, o absurdo. Não tem nada por baixo. O álbum, em si, é resultado de um acúmulo do tempo presente – os anseios e fracassos da minha geração, as tecnologias que nós abraçamos e descartamos, os códigos peculiares e os meios através dos quais nós aprendemos a nos comunicar pra sobreviver, as coisas que, fora do nosso controle, nos apavoram e a resignação em estar apavorado. Não acho que seja coincidência esse álbum estar sendo lançado em meio à pandemia de Covid-19, porque ele é justamente sobre isso. Sobre o colapso do nosso modelo de vida e, em última instância, da possibilidade da vida.

Comparar períodos históricos sempre gera algum material interessante pra reflexão, mesmo se a escolha dos períodos for arbitrária. Quando me dei conta de que estávamos prestes a virar a década, resolvi olhar pra 100 anos atrás. Lá estava a década de 20 do século XX. Foi uma das décadas mais importantes do século em todas as áreas da produção humana. As artes e as ciências estavam em ebulição. A política e a economia entraram num período de reestruturação em todo o globo, pro bem e pro mal. A Primeira Grande Guerra tinha acabado de terminar. A Revolução Russa, que daria origem à União Soviética, também. Houve um processo terrível de aprofundamento colonizatório na África. O fascismo encontrou as condições ideais pra começar a se consolidar. Todos esses acontecimentos são conectados e nós sentimos hoje decisões de Estado que foram tomadas pelas potências nessa época.

É interessante olhar pro Brasil desse período. A República Velha começou a entrar em crise porque uma parcela importante da sociedade estava questionando a oligarquia cafeeira. Havia uma insatisfação generalizada com a política e a instabilidade econômica associada à guerra. O Brasil ainda era majoritariamente rural, mas as classes médias urbanas – que tinham um perfil mais intelectualizado e giravam em torno de valores mais liberais – estavam começando virar uma força relevante. O Tenentismo veio a dar expressão de movimento a essas insatisfações, exigindo a destituição do presidente, o fim da elite oligárquica e das injustiças sociais, e acabou culminando na Coluna Prestes. As tensões ideológicas dentro do movimento só ficariam mais nítidas na década seguinte, contrapondo a esquerda comunista e a extrema-direita integralista, que se baseava em princípios fascistas. Nesse período as coisas ainda eram meio difusas, havia um messianismo em torno desses militares de baixa patente, e as pautas do Tenentismo não tinham fundamentação ideológica sólida. A Semana de Arte Moderna aconteceu na formação desse contexto, em 1922. Essa necessidade de afirmar uma identidade cultural brasileira estava alinhada ao espírito antioligárquico que pairava na época. Apesar disso, o nacionalismo reivindicado pelo modernismo brasileiro ganhou abordagens bem diversas, já na primeira fase aconteceu a cisão entre esquerda e extrema-direita dentro do movimento. O fato é que o modernismo brasileiro enquanto movimento intelectual, artístico e cultural teve um papel determinante na nossa história política. O pioneirismo político das feministas também teve uma relevância especial: a datilógrafa sindicalista Almerinda Farias Gama, a cientista Bertha Lutz, a advogada (depois 1ª juíza federal do Brasil) Maria Rita Soares de Andrade, a primeira mulher eleita para um cargo executivo na América Latina, em 1927, Alzira Soriano… Elas e muitas outras foram figuras cruciais na luta por direitos humanos básicos pra mulheres, não só o direito ao voto, mas o direito à saúde, à educação, à dignidade. Se hoje estou aqui, fazendo o que faço, devo isso a elas. E ainda hoje não é fácil.

Todos esses direitos conquistados estão sendo ameaçados agora. Direitos conquistados pelos setores oprimidos – mulheres, negros, indígenas, pobres, trabalhadores precarizados, LGBTQIs, animais (via representação humana) – precisam de manutenção permanente, precisam continuar a ser defendidos com unhas e dentes pra que não sejam retirados sob o menor pretexto. Veja só o exemplo da Pérsia/Irã. Hoje, a ascensão da extrema-direita, conservadora, fundamentalista, não está acontecendo só no Brasil, mas ao redor do globo. E é evidente que isso iria acontecer agora porque estamos em um momento de crise planetária. Temos um colapso climático em curso, atingindo a possibilidade de vida na Terra. Uma crise sem precedentes, que vai atingir primeiro as populações acometidas pela pobreza, as mais vulneráveis e menos responsáveis por essa catástrofe. O sino que eu toco carrega um pouco dessa mensagem: acorda dessa crise existencial subjetivista, olha pro mundo, deu merda, o que vamos fazer? Isso é uma mensagem pra mim também. Não dá mais tempo de sequelar.

É nesse cenário comparativo que o conceito do álbum se fundamenta, esse olhar pro presente através das lentes do passado. Agora é o futuro, não sei se tem depois. A produção desse trabalho incorpora a precariedade de condições em que a minha geração vive hoje. Nós crescemos cercados por máquinas e aparelhos eletrônicos como se fossem extensões dos nossos corpos. Cada uma dessas invenções tem um percurso histórico e muita força humana consumida. E, no fim das contas, a precariedade material e a precariedade psíquica acabam profundamente entrelaçadas. Procurei incorporar isso em vez de esconder. Utilizei quase exclusivamente equipamentos de baixa qualidade e/ou acessíveis a quase todo mundo, como o mic bem vagabundo de um smartphone, mic e saída de som (horríveis) do computador, copo de vidro que veio com geleia, fones de ouvido de brinde, objetos que coletei ao longo da vida… Para produzir as faixas usei apenas um software que pode ser utilizado gratuitamente e plugins nativos, gratuitos e/ou conseguidos gratuitamente em promoções. (O Paulo Dantas teve a delicadeza de se ater a esse princípio na master, sou muito grata.) Como exceção, para certos elementos cheguei a usar alguma estrutura de estúdio, como microfones, interface de áudio e monitores. Mas eu poderia ter feito o trabalho sem isso. De alguma forma foi bom, porque pude comparar as sonoridades que obtive por vias diferentes e duvido que alguém consiga distinguir o que foi produzido com que tipo de ferramenta. No mais, não usei nada crackeado.

Minha intenção não é evocar um suposto empreendedorismo, essa falácia em que vejo tanta gente desesperada cair hoje. A intenção é me colocar nas condições mínimas e ver o que consigo fazer com elas, ver que dá pra desenvolver estratégias interessantes mesmo tendo muito pouco. Ver se não é de menos que a gente precisa, e não de mais, pra chegar a soluções eficazes pros problemas que nós temos. Usar a tecnologia meio errado pra descobrir novas utilidades e desenvolver projetos ainda mais prolíficos. A noção de “decopunk”, uma vertente do cyberpunk, faz referência a esse passado centenário de opulência estética, o art déco, e o coloca cara a cara com o condicionamento tecnológico do presente, em que as relações estão cada vez mais virtualizadas e desprovidas de materialidade. O virtual imaterial coexiste e interage com a vida terrivelmente precária a que a maioria das pessoas está submetida. O sonho virtual parece ter se tornado uma maneira de contornar o horror da realidade. A vida é tão ruim que as pessoas precisam se iludir voluntariamente pra conseguir continuar vivendo. Em certo ponto a ilusão passa a causar sofrimento também e vira uma retroalimentação de ansiedade e depressão. O que alego é que é preciso inventar jeitos de fazer com que as coisas sejam mais viáveis, presenciais e materiais, e então criar meios de mudar o estado de coisas. A mim, parece que a tecnologia poderia ser um instrumento revolucionário, só que talvez seja tarde demais.

Sino usado em performance
Créditos: divulgação.

MI: Quais são as suas percepções sobre a cena experimental independente do Rio de Janeiro hoje?

Vejo essa cena florescendo de um jeito muito bonito! Deve ter mais ou menos uns 10 anos que comecei a frequentar e nunca tinha visto tantas artistas novas aparecendo, trazendo tantas ideias, sendo proativas. O Fosso é uma das iniciativas mais legais dos últimos tempos.

Por outro lado, algo que me preocupa é que vejo a perpetuação de práticas financeiramente insustentáveis. Nenhum artista dessa cena, que eu saiba, vive da arte que produz. Ou são professores, ou trabalham no cinema, no design, no banco, sei lá. Fazem outras coisas como ganha-pão, mas não porque desejam. Eu vejo isso como um problema. As pessoas gastam dinheiro pra tocar, pagam pra trabalhar. Eu inclusa. A gente precisa fazer uma varredura nesses problemas e mudar nossa cultura financeira de acordo. Gente, todo mundo precisa pagar conta. Por que as pessoas não são pagas pelo trabalho delas? É porque quem promove os eventos não tem dinheiro? Mas por que esses eventos não são rentáveis? É uma questão de organização? De público?

De fato, há um curto-circuito nessa cena porque o público de um artista é formado principalmente por outros artistas, depois rola um revezamento. Isso nos leva a outro problema: é uma cena muito, muito fechada. O perfil majoritário dos membros dessa cena também é intimidador – homens brancos, hétero, de classe média. Reconheço que há um esforço ativo pra diversificar esse perfil, é louvável, mas ainda está pouco. Hoje, pelo menos, há muito mais mulheres. Mas onde estão as pessoas negras, onde estão as pessoas indígenas? Será que artistas pertencentes a essas comunidades não se interessam pelo universo experimental? Ou será que o universo experimental é repelente? Por que a comunidade LGBTQI, que se concentra muito na música eletrônica, que era pra ser tão próxima, não interage? As exceções que me ocorrem confirmam a regra.

Todas as experiências de interação com outros campos das artes que vi foram muito interessantes e o impacto sobre o público leigo foi muito bom. A aproximação com as artes visuais já vem de longa data, mas podia ser muito maior. A aproximação com o teatro, tem muito pouco, quase nada, mas o pouco que tem é incrível. Por que não mais? E o circo? E a dança? E outras cenas musicais? Se formos pensar em termos de público, eventos inter artisticos poderiam quadruplicar o fluxo. Fariam a arte produzida na cena experimental ganhar outros espaços, atingir pessoas que nem sabem que esse tipo de música existe. Poderia cativar um potencial público formado por não-artistas e que seria determinante para o aporte financeiro de artistas.

É preciso saber de onde o dinheiro vem, descobrir onde ele está, entender como ele circula. Nem sempre é por venda de ingresso ou bebida. Às vezes é por patrocínio, por edital, por cachê em festival, pelo audiovisual… Mas a gente tem que se abrir pra isso. Não é deitar fora os princípios, é saber negociar com o mundo. Fingir que ele não existe e continuar passando perrengue não está dando pra ser opção. Ainda mais agora que o setor cultural está sendo atacado, me parece que há uma responsabilidade nossa em abrir mais a cena e levar o que fazemos para mais pessoas.

Enfim, pode ser que eu esteja enganada nisso tudo. Mas acho um desperdício enorme de talento, tempo, esforço, recursos e ficar nessa ilha à míngua.

MI: O que você ouve e como você vê a sua relação com a produção de som experimental?

Ouvir, pra mim, é algo muito delicado, sou muito sensível. Um som pode me hipnotizar completamente ou pode me gerar um incômodo doloroso. Isso acontece: sentir algo semelhante a uma dor física ao ouvir alguma coisa que não vai bem com meu estado mental e emocional. Então “ouvir” música e afins é uma atividade que eu acabo ampliando pro campo do estudo e da pesquisa. Quando algum trabalho me interessa, é bem comum que eu antes vá ler sobre ele, sobre o artista, coletar referências… antes de escutar propriamente. Isso é uma blindagem, assim eu posso de antemão me preparar pra deixar aquilo impactar meu corpo de um jeito que não me traga sofrimento. É raríssimo eu ouvir música na rua, de fones de ouvido. Isso eu faço quando estou obcecada por algum artista ou disco, e aí entro em loop.

E também isso: pra mim, escutar música é uma atividade privada. Eu não sei fazer isso em público. (O que parece um contra senso, já que sou uma das organizadoras do Estúdio Escuta.) E, mesmo quando estou em público, tipo numa festa, se a música me captura eu me desconecto do ambiente e fico absorta, ouvindo, esquecida de onde estou. Já fui demitida por causa disso…

Então, respondendo à sua pergunta, eu tenho o hábito de voluntariamente não ouvir – no sentido mais comum de ouvir música cotidianamente. Talvez o mais próximo disso, pra mim, seja eu, quando preciso de tranquilidade, me expor à música barroca/renascentista ou àqueles sons de taças tibetanas que ficam reverberando horas a cada toque. Esse é o ponto em que a busca por tranquilidade começa a se transformar em curiosidade (e também um gatilho pra perda da tranquilidade). Eu posso passar horas, dias seguidos pesquisando sobre práticas musicais ao redor do mundo. Preciso de sistematicidade nas minhas pesquisas pra não sucumbir emocionalmente e me tornar capaz de montar um acervo interessante, que possa ser passado adiante.

Voltando à realidade, eu gosto especialmente de ouvir música pela primeira vez ao vivo, em qualquer gênero. Não sei classificar gêneros experimentais, mas trabalhos que têm noise e drone como elementos costumam me causar um prazer fisiológico. Projetos que envolvem teatro, performance e/ou elaboração conceitual são os que me capturam mais fácil. Canção de Matar, por exemplo, a delicadeza com que defloram a poesia é contundente, acho incrível. Adoro os projetos da Sanannda Acácia, a solidez e a sutileza. A elegância meticulosa de b-Aluria. A meditatividade da Teratosphonia. A pira nas máquinas da Gabriela Mureb… A Saskia, aquela perspicácia debochada. A lonjura paciente do Paulo Dantas. A onda que dá Tantão e os Fita. O refinamento dos synths modulares do Bartolo. Rakta e God Pussy, cada um à sua maneira, me deixam vidrada. São trabalhos que me enchem de alegria e orgulho – sou feliz pelo simples fato de existirem no mundo e pro mundo.

Não consigo, contudo, colocar a música experimental em um setor tão separado porque eu transito o tempo todo entre esse e outros universos. Mais que tudo, ouço rádio no Uber e eu ouço mesmo, considero com generosidade. E ainda artistas que circulam no midstream e no que poderia chamar de “ministream”, se é que isso existe. Letrux não é um fenômeno à toa, tem muita elaboração ali, tudo feito com muita consciência artística e alinhada ao zeitgeist. Linn da Quebrada e Jup do Bairro são duas fabulosas, sabem costurar o cômico, o trágico e obsceno como poucos. Luedji Luna é de uma finesse comovente. Troá, Papisa, Àiyé, Teto Preto, Maria Beraldo, Pietá, Flaira Ferro… Essa nova geração da música popular brasileira me soa muito especial. Dos internacionais, Hiromi Uehara, Benjamin Clementine e St. Vincent são alguns que posso mencionar.

Dentre as figuras consagradas, há algumas a que sempre volto. Os arranjos de Construção (de Magro e Duprat no álbum do Chico Buarque)… eu sempre fico boquiaberta com aquilo. Arranjos gigantes são sempre coisas que me deixam boquiaberta. Orquestra é um troço insano. Porém… ultimamente andei meio obcecada com o “Blue”, da Joni Mitchell, que é pequeno – a combinação das melodias com os textos, com as harmonias, a interpretação, aquilo é tão fluido e engenhoso ao mesmo tempo! A Tropicália como escola e Gilberto Gil, em especial, como a inteligência exímia que é, tanto do ponto de vista poético quanto do musical. David Bowie, Neu!, Nina Hagen, Björk… É impossível ser justa.

Posso mencionar alguns compositores que me foram profundamente formativos de uma maneira mais ou menos direta: Vania Dantas Leite, Rodolfo Caesar, Jocy de Oliveira, Daniel Puig, Paulo Dantas… Ainda que alguns possam não lembrar de mim ou possam vir a não gostar do que eu faço, me ensinaram muito. Pra além deles, eu poderia fazer uma lista enorme de compositores que me marcam: Bach, Schoenberg, Lutosławski, Penderecki, Stravinsky, Bartók, Debussy, Messiaen, Stockhausen, Schaeffer, Parmegiani, Arvo Pärt, Gershwin… Acho que esses nomes são meio lugar comum no universo experimental e sinto que falta variar esse perfil homem/branco, ainda tenho muito o que pesquisar.

Por fim, não separo muito minha “produção de som experimental” da minha produção em qualquer outra categoria de arte. Eu faço arte, e me utilizo dos meios e das linguagens que me são disponíveis de acordo com o que acredito ser mais adequado para veicular um determinado conjunto de ideias. Não tenho comprometimento com gênero nenhum. Meus projetos têm nomes diferentes não pra separá-los por gêneros musicais, mas porque são regidos por certos princípios. Calhou de a música experimental acomodar bem a Agla Aëón, a que sou imensamente grata.

Ao vivo no Experimental de Cinzas, na AUTA, em fevereiro de 2020
Créditos: Gabriela Nobre

MI: Como as pessoas que se interessarem podem conhecer mais do seu trabalho?

Podem me mandar cartas escritas à mão. Respondo à mão ❤

Podem mandar e-mail também: aglaaeon@gmail.com.

Tenho uma conta no Instagram em que posto sobre meus projetos em geral (@o_u__t___r____a) e uma página no Facebook que eu esqueço que existe com muita frequência. Em breve vou organizar direitinho meu canal de YouTube e peço pra colocar um update aqui.

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