Verjault – s/t

“S/T” é um continuum denso de texturas que se transmutam e se encaixam, tendo o baixo elétrico como espinha dorsal e utilizado como instrumento percussivo. O 26º disco do projeto de Daniel Alves, traz um diálogo claro com bandas como Boris, Magma e Amon Düül: toda criação é uma revisita viva.

Verjault ao vivo na Biblioteca Mario de Andrade, SP, 2016.
Foto: Larissa Vescovi

MI: O primeiro disco do Verjault foi lançado em 2011. Desde lá, há já mais de uma dezena de álbuns. Conta como foi o inicio do projeto e a sua trajetória até aqui. E claro, fale sobre o nome do projeto que é também um pseudônimo, certo?

V: Na verdade eu comecei a fazer o que depois vim a entender como “música experimental” em 2008, sendo que o meu primeiro disco, “Avant!” (2011), é uma coletânea de faixas que criei nesse período. No começo eu fazia mais coisas com sintetizador – leia-se, um teclado Yamaha barato -, ligando um p2-p10 fuleiramente emendado no meu pc onde eu gravava com uma versão crackeada do Adobe Audition 1.5 (tentei instalar o 3.0 uma vez e a máquina não aguentava). Durante muito tempo essa foi a forma como gravei minhas coisas, e de fato começou a melhorar quando consegui uma máquina melhor e uma cópia do Reaper, mas coisas como interface (uma M-Audio Fast Track Pro usada) que só fui ter recentemente. Tudo era gravado em linha e, quando precisava gravar voz ou algo, recorria ao mic do notebook. Os vocais do ep “Killerself” (Plataforma Records, 2014) por exemplo foram gravados dentro de um guarda roupas com o notebook na cara (risos). Foi desse jeito gambiarresco e usando o que eu tinha que comecei a gravar minhas coisas. Mais tarde me seduzi pelo timbre do baixo elétrico com fuzz e esse passou a ser uma tônica na minha criação.

O nome do projeto vem de uma faixa do Amon Düül intitulada “Asynchron (Verjault und Zugeredet)”, do álbum “Disaster” (1971). Durante muito tempo busquei uma tradução pra essa palavra que me seduziu em sua forma e que parece ser um alemão arcaico, mas chegando ao encontro de um antigo dicionário alemão-inglês, vi que o termo se relaciona a algo que se apodrece – há inclusive uma palavra similar mais comumente usada, Verfault – que se desfaz de um jeito digamos, mórbido. Achei que tinha a ver.

Verjault ao vivo no Estúdio Mitra, SP, 2019
Foto: Gabriela Nobre

MI – Você trabalha com temas específicos no Verjault: a sexualidade, como aparece no “Brainflesh” (Seminal Records, 2015) – disco que referencia o romance “História do olho”; a sexualidade explícita e pornográfica como apresentada no “The Toploader Chronicles” (2018), e também o tema do isolamento, dos lugares e paisagens remotas, tal como trabalhados no “Geographic Misanthropy”(Seminal Records, 2016). Qual a importância desses temas e como eles foram se tornando parte do sentido do Verjault?

V: Ler “História do Olho” foi pra mim uma experiência catártica. Vi muito no romance uma conexão estética com o que eu fazia com música, e acabei por decidir fazer um álbum inspirado nele. Pra mim, o erótico/pornográfico e o noise estão bastante conectados. Ambos são, a meu ver, formas de êxtase estético expressos em formas bastante plurais, e eu gosto da forma tanto como Bataille escreve o livro, quanto a relação da cena noise japonesa com pornografia – especialmente quando aliada a um humor ácido como no caso do Gerogerigegege. São conjuntos que se encaixam muito bem. Exploro um pouco disso também nos álbuns “Worship”(2013), focado no tema FemDom, e no “BBW Music” (2013), que foi meu primeiro álbum, efetivamente, de noise. Já no “Geographic Misanthropy”, quis expressar outro tesão: mapas. Desde criança eu tenho um fascínio apaixonado por mapas e em um determinado momento, isso esbarrou na estética do meu projeto, quando estava pesquisando sobre pontos remotos do planeta. O título de cada faixa do disco é o nome de uma ilha remota: Oodaaq, na Groenlândia, suposto ponto mais setentrional do planeta mas que não recebe o título porque não se chega a um consenso se é um pequeno ponto de terra firme ou apenas um banco de saibro; as ilhas Diomedes (Inalik e Ratmanov) no estreito de Bering, sendo uma delas habitada por uma pequena comunidade de pescadores; e Ilha do Sentinela do Norte no Oceano Índico, onde reside uma tribo completamente isolada que hostiliza ferozmente qualquer outra aproximação humana. Todos esses dados de localizações remotas com isolamento ou ausência humana foram um prato cheio pra criar o GeoMis.

MI: O som do Verjault pode se situar em algum lugar impreciso entre as complexidades do krautrock e o aparente minimalismo do drone. Como você mesmo se situa em sua rede de referências?

V: É uma rede bastante plural, embora tenha seus centros. O rock experimental alemão é uma influência de peso e foi através de uma banda desta cena, o Amon Düül, que tive meu primeiro contato com um som mais experimental. Quando ouvi seu álbum “Psychedelic Underground” (1969) pela primeira vez na adolescência, foi como se eu tivesse descoberto o punk: era sujo, espontâneo, improvisado, denso e enérgico, sem contar que a banda era parte de uma comunidade de esquerda de Munique e esse viés político me foi atraente também. Ali tive uma epifania: percebi que não precisava de regras convencionais de música para fazê-la. Na época estava deixando pra trás uma parte do meu gosto por rock progressivo e entrando no universo não só do chamado ‘krautrock’, mas também do drone metal, de alguns nomes do jazz como Keith Tippett e Miles Davis e nos trabalhos de John Cage e Stockhausen. Só vim a conhecer o noise muito depois através das colaborações da banda japonesa Boris com o Merzbow e em seguida com o Gerogerigegege. Aliás, Boris e Gerogerigegege foram bandas que me influenciaram muito, assim como Thrones, projeto solo do baixista Joe Preston. O noise trouxe de forma mais radical o que o Amon Düül havia trazido anos antes, tanto em termos de estrutura sonora como de performance (Masonna e Hijokaidan). Depois vieram os nomes do industrial como TG, Neubauten e etc… Mais recentemente tenho me interessado por música eletrônica como Alec Empire e Autechre.

MI: Há um bom numero de lives na sua discografia. Qual é a sua relação com tocar ao vivo? Aproveita e conta o que você costuma usar com equipamento, tanto em estúdio quanto em shows.

Gosto muito de tocar. Sempre me empolgo preparando meus shows que geralmente trazem materiais inéditos. Ao vivo costumo ser bem sucinto em termos de equipamento: baixo e eletrônica, sendo que esta varia entre pure data e sampler. Costumo usar muito mais o vocal ao vivo, geralmente tentando competir com a aparelhagem em termos de volume (risos). Há uns anos minhas performances eram mais catárticas, eu fazia muito mais uso de uma fisicalidade explosiva. Hoje me concentro mais na elaboração de estruturas, não que eu tenha deixado a catarse pra trás, esta apenas se manifesta de outras formas.

Set up Verjault

Em estúdio não é muito diferente do que eu já havia citado anteriormente. Uso uma interface modesta pra plugar os instrumentos e microfone, gravando tudo majoritariamente em linha. Eu ainda uso meu velho Yamaha pra fazer algumas texturas e como drum machine, mas tenho me tornado cada vez mais adepto do sampleamento.

Verjault ao vivo no Aparelho, 2019.
Foto: Anne Santos

MI: Como quem se interessar pode conhecer mais do seu trabalho?

V: A melhor forma é pelo meu bandcamp: verjault.bandcamp.com . Lá está minha discografia completa assim como links pro meu canal do Youtube e Spotify.  

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