Experimental de Cinzas ao vivo na AUTA

Experimental de Cinzas foi um mini festival que aconteceu em fevereiro de 2020, em São Paulo. Pensado por Gabriela Nobre e Nanati Francischini, o evento de dois dias aconteceu na AUTA, reunindo artistas paulistas e cariocas. O áudio gravado na ocasião, registrado na íntegra, foi acolhido e lançado pelo Música Insólita.

Antes e (um pouco) depois das cinzas

Por Gabriela Nobre

Dezembro 2019

Terminando o ano em que, possivelmente, mais fui produtiva, eu simplesmente não consegui ficar quieta durante o recesso de fim de ano. Quando finalmente pude relaxar, me apitou uma ideia. Corri para falar com Nanati: “Tava pensando aqui, o que acha da gente fazer um evento megalomaníaco durante o Carnaval?”. Ela me pergunta se seria no RJ ou em SP. Digo que nada pode oferecer competição com o Carnaval carioca, simplesmente não existe essa opção aqui. Faremos em SP. A princípio, uma programação só de artistas mulheres. Abrimos mão disso aos poucos quando vimos que, naturalmente, a programação foi surgindo majoritariamente composta por mulheres. E então, como sempre, conversamos mais uma vez sobre a importância do Dissonantes para que a gente tivesse chegado nesse ponto. Estamos felizes trabalhando juntas, temos o mesmo pique, as conversas e ideias sobre a cena inflam a nossa energia de produção. A situação é familiar para mim, confortável, habito o espaço que venho conquistando para mim nos últimos anos, funciono a plenos pulmões.

Janeiro 2020

Começo o ano a mil, equilibrando um fim de residência artística, shows, esboço de agenda e afazeres para o Música Insólita. Reuniões com Pimenta e Pompeu, planos, prazos, tudo isso que pilha bem uma workaholic feliz. Talvez eu precise desacelerar, focar só no b-Aluria e no projeto de doutorado? Não, não é uma opção: o trabalho que faço na cena, a divulgação, todas as trocas e colaborações são tão importante quanto a atuação individual. O trabalho com o trabalho dos outros é também o meu trabalho, é a ideia que formulo em diferentes conversas sobre o tema com o Paulo. Fechamos a programação do Experimental de Cinzas (é o nome que Nanati escolhe e acho que veste como uma luva). A programação está bonita, redonda, faz sentidos. Além de ser pensada para um público, é algo que eu adoraria assistir também. Começamos a pensar o lugar que acolheria um mini festival ruidoso em pleno Carnaval.

A AUTA nos acolheu. Desde o início, com toda o cuidado no trato, atenção e respeito ainda não tão comuns no nosso meio. Nanati vai até lá, fotografa e filma para que eu possa “conhecer” o espaço. Pensamos mil e mil vezes em como dispor os artistas. Fazemos e refazemos o horário de passagem de som de forma a acolher todos da melhor forma. O Experimental de Cinzas acontecerá nos dias 26 e 27 de fevereiro. Estou feliz, vai dar certo, funciono a plenos pulmões.

Fevereiro 2020

Não costumo aproveitar o Carnaval do Rio, eu e Daniel pensamos então em ir bem antes do inicio do evento para São Paulo. Termina não acontecendo assim, há os gatinhos que precisam de cuidado, a falta de grana, e precisamos terminar trabalhos por aqui. Escolhemos ir para SP numa bizarra 3a de Carnaval! Tudo revirado, horários, temperatura. Vai dar certo mesmo assim. Tivemos como companheiros de viagem Lu e Gil, da Guache, e Bia (Agla Aéön). Chegamos bem, a viagem foi bem melhor do que esperávamos. Nanati bravamente recebe e hospeda a todos nós na casa dela.

Começa o Experimental de Cinzas. Quem foi do Rio já estava em SP. Temos dois dias para fazer funcionar, preciso botar minhas estratégias econômicas para jogo, decidir onde me doo e onde me economizo. A primeira impressão, ainda durante as passagens de som, foi: ok, o som aqui é muito bom, todos ficarão felizes em tocar, há espaço, há estrutura. Eu e Nanati nos olhamos, sorrimos, batemos mãos no ar. Já está dando certo, e mais uma vez. Fazer o trabalhão valer com shows que você mesma queira assistir, apoiando aos artistas nos quais você aposta e/ou que contam com espaço e acolhimento. No final, é disso que se trata.

Um show incrível após o outro, era sensível o comprometimento dxs artistas. A AUTA ficou lotada, não acredito que vejo tanta gente. Um evento de som experimental, nos últimos dias de Carnaval?

O 2o dia foi exatamente incrível como o anterior. Eu não sentia cansaço, só pilha. Só cansei depois de tocar com o Corda e Corte, meu projeto com o Daniel. É claro, tocar é um outro tipo de investimento de energia. Me permiti sentar um pouco, mas com o Tascam no colo, olhei em torno, todxs concentrados no show que viam, ouviam.

Abracei muita gente, conheci muita gente, reencontrei pessoas que já não via há tempos, bebi dos copos alheios, fumei dos baseados alheios, mordi empanadas alheias para provar de todas (as sem carne, claro), conversei de perto, fiz planos na minha própria cabeça e, depois, muitos em parceria com muitos dos presentes. Alguns dias depois da volta de SP estou com uma gripe atípica, sinto falta de ar e quase nunca sinto isso. Atribuo ao cansaço e à correria. Ouço falar de um vírus que teria chegado ao Brasil e que assolava a China. Já nessa altura não me sinto mais respirando a planos pulmões.

Março 2020

O mês chegou com uma estranha e nova demanda de que eu saiba o tempo todo onde estão as minhas mãos e de que eu esteja fisicamente longe da maior parte das coisas que me importam. Eu e Nanati decidimos lançar um disco com todas as gravações que fizemos do Experimental de Cinzas. Conversei com os outros parceiros do Música Insólita sobre lançarmos pelo selo. Tudo certo, confirmado. O pessoal da AUTA fez também um registro foda em imagens. Vamos lançar tudo junto? Sim, perfeito. Daniel faz um trabalho de masterização precioso com as gravações, confiamos que é um baita material.

O mundo em que organizo esse lançamento não é o mesmo em que o evento aconteceu. E só se passaram algumas semanas. É difícil estar presa em casa, mas é pior ainda pensar que, a qualquer momento, posso ter que me despedir para sempre de alguém que amo. É pior pensar que o mundo que eu tive já não existe mais e que nunca mais será o mesmo (ouço muito silêncio e ambulâncias lá fora). E por mais rápido que eu consiga me programar, por mais rápido que eu já esteja me reprogramando, é doloroso e cinza demais ter que viver só no presente, por que não há ainda possibilidade de projeções e projetos, fonte maior de energia que me alimentou nos últimos anos.

Estou disposta, a postos, sei que precisaremos escolher novos ruídos. Mas não estou feliz, e certamente não funciono a plenos pulmões. Espero, na verdade, que eu mantenha o meu e que eu possa ajudar a quem amo a manter os seus.

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Fogo no parquinho

Por Nanati Francischini

Nesse relato/reflexão, vou usar o termo música experimental me referindo a esse amplo espectro de práticas presentes na cena (ruidismos, noise, artes sonoras, etc) e, por isso, também me referindo a esta cena experimental, que é composta por cenas diversas e que, embora aconteçam cada uma a sua maneira, estão interessadas numa atitude de experimentação, operando a partir de uma ‘ética/prática underground’.

Há uns anos atrás, minha “entrada” nessa cena foi frequentando e participando de eventos que aconteceram no Ibrasotope e no Circuito de Improvisação Livre (CIL). Mais tarde, pude ir conhecendo outros espaços, outros coletivos e, no ano passado, por algumas vezes (e pela primeira vez), pude tocar fora do estado de sp. Isso aconteceu em grande parte porque houve pessoas e espaços disposta/os a me receber em suas casas e me incluíram em/organizaram eventos para que eu pudesse tocar.

Toda vez que penso sobre a cena e as experiências que ela me proporciona, três coisas me vêm à mente: o estabelecimento de vínculos; a possibilidade de poder pautar outras formas de se organizar em coletivo; a possibilidade de viver outras formas de pensar/fazer música. Para mim, essas três coisas são condição fundamental para que a cena seja acessível como penso que ela é (embora saiba que ela também não é, muitas vezes).

Corroboro bastante com a fala de Igor em seu relato sobre o Experimental de Cinzas e a leitura dele da cena experimental e de como ele prefere se colocar no meio (texto logo abaixo, aqui, nesta mesma postagem): “o experimental é essencialmente punk, DIY, e não poderia ser de outra forma: a gente se fode pra arrumar um pico pra tocar, carrega caixa pela cidade pegando metrô, queima os equipamentos e depois tem que rachar pro prejuízo não ficar nas costas de uma pessoa só; por outro lado a gente ainda recebe galera de outros lugares, come os rangos que a gente providencia, constrói junto nossas organizações estéticas e políticas…”. Para mim, isto descreve bem como grande parte da cena se articula (seja por necessidade, seja por princípio). Talvez isso seja meio óbvio para algumas pessoas. Mas não é para todas. E, claramente, há quem discorde e pense que ela não é assim, ou mesmo sinta que, na verdade, ela não é tão acessível e DIY assim. Quem tem participado e acessado essa cena? Como, de fato, temos agido? O que, afinal, as pessoas querem nessa cena? Também sei que nem todo mundo se pergunta essas perguntas. Mas como, para mim, isso é uma questão, estou aqui jogando elas na rede.

Uma vez conversei com o Aquiles Guimarães e ele disse que a cena é uma “grande rodoviária”: muitas pessoas passam por ela, contribuem ou não contribuem com a cena, e vão embora. Havia outras discussões no contexto dessa conversa, mas tenho me perguntando se há uma noção geral das pessoas de que esta cena é uma cena, e se as pessoas sequer percebem que usufruem dessa ‘ética/prática underground’ quando passam por ela, ou mesmo quando ficam. Porque, pra mim, essas práticas e éticas são um fato. Mas, num limite, o que importam essas questões? Se eu me interesso que estas práticas e éticas se façam presentes, que eu me organize por meio delas.

Talvez meu intuito com esse texto seja exaltar esta forma de organização e de relações entre as pessoas, lembrar porque elas existem, e quais são os contextos em que surgem. Lembrar que grande parte dessa cena (não toda) acontece também nesse ‘underground’ e muito a partir dos vínculos e apoios. Lembrar que estes apoios tem a ver com tentar construir uma coletividade (o que não quer dizer consenso). Porque, ao menos para mim, foi e é muito importante encontrar espaços e pessoas abertos/as aos meus trabalhos (como artista ou produzindo algum evento) e que ela seja aberta aos trabalhos de qualquer um. E é muito importante quando estabeleço vínculos de apoio, tanto na prática quanto na forma de pensar sobre como realizar essas práticas. Acho isso importante e desconfio que também seja importante para mais pessoas.

E o Experimental de Cinzas rolou essencialmente por causa dessas coisas todas (que já estavam aí quando eu cheguei na cena e que eu também fui construindo na medida em que me envolvia com ela). Só aconteceu porque xs participantes (artistas e espaço) estavam interessados em estar presentes e colaborar da maneira como podiam. E porque eu e a Gabriela, nesse caso, estávamos a fim de botar fogo nesse parquinho.

Vídeos

Vídeo de trechos dos shows do primeiro dia do evento – 27/02/2020
Edição de Anelena Toku e Juliana R.
Vídeo de trechos dos shows do segundo dia do evento – 28/02/2020
Edição de Anelena Toku e Juliana R.

Entrevistas

Bianca Tossato, à frente do Agla Aëón, e Igor Souza, integrante do duniya, comentam suas impressões sobre o Experimental de Cinzas.

Ouça o disco

Galeria de fotos

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