Marcus Neves – Modular Drone Session – A

Marcus Neves (1983-) é artista sonoro e sound designer. É formado em Licenciatura em Música (2006), especialista em Estudos Literários (2008) e Mestre em Letras (ênfase em Estudos Literários, 2010) pela Universidade Federal do Espírito Santo onde, desde 2010, leciona como professor efetivo nos Cursos de Licenciatura e Bacharelado em Música e Bacharelado em Cinema e Audiovisual. Co-fundador do NESCoM (Núcleo Espirito-Santense de Computação Musical/UFES) e coordenador do Grupo de Experimentação Sonora (GEXS). 

Tem se dedicado ao registro de paisagens sonoras, composição de música acusmática e experimental, performances ao vivo e trilhas sonoras para espetáculos de teatro, dança contemporânea e cinema, neste atuando também como mixador e sound designer.

Publicou em 2015 o livro Augusto de Campos e a música de invenção (uma escuta entre poemas) pela editora Prismas.

MI – Sua produção é diversa:  música acusmática, trilhas sonoras, poesia sonora… Conta um pouco sobre seu percurso até aqui, sobre a sua formação e atuação como professor de música na UFES e sobre esses diferentes “registros” criativos.

MN – Comecei tardiamente na música, aos 18 anos entrei para minha primeira banda de rock como vocalista e passei por outras 2 bandas, ficando neste cenário por 8 anos. Aos 19, em paralelo, durante o pré-vestibular decidi trocar a inscrição do vestibular para o Curso de Licenciatura em Música da UFES. Passando no vestibular pude durante os 4 anos da graduação abrir meu repertório e em uma das aulas de História da Música da Profa. Mònica Vermes pude descobrir a existência da música eletroacústica e das vertentes experimentais da música de concerto do século XX, a educação musical me permitiu se aproximar da paisagem sonora através das leituras das obras de Murray Schafer. Ao fim da graduação logo comecei a lecionar como professor substituto na UFES e posteriormente da Faculdade de Música do Espírito Santo (FAMES), majoritariamente nas disciplinas de História da Música. Em paralelo ao início da carreira como professor universitário decidi buscar fora de Vitória/ES cursos que poderiam enfim me possibilitar adentrar tecnicamente na composição de música eletroacústica já que no estado não havia com quem dialogar. Por sugestão do então recente amigo paulista Tiago Gati fui ao Festival de Música de Londrina, em 2008, fazer o curso de “composição de música eletroacústica” com o Prof. José Augusto Mannis. Lá compus minha primeira peça, Sobre todos os sons, entre a poesia sonora e a música acusmática, fora baseada no poema “Todos os sons”, do poeta concreto Augusto de Campos que àquela época já era meu objeto de estudos na especialização lato sensu e seguiria como assunto no meu mestrado, ambos no campo das Letras, nos Estudos Literários. Em Londrina conheci Janete El Haouli, a quem devo e muito meus aprendizados, através dela retornei a Londrina diversas vezes após o curso do Mannis para aprender com figuras como Chico Mello e Ricardo Mandolini.   

Em 2008 comecei também a participar em Vitória do cenário da composição de trilha musical e desenho de som para espetáculos de dança contemporânea e teatro, no qual mantenho ainda algum contato até hoje. De 2008 a 2014 minha produção então se concentrou em algumas peças de música acusmática, trilhas sonoras e muitas gravações de paisagem sonora, sendo estas uma das ações que mais me atraem até hoje, sobretudo gravação de soundwalks binaurais e field recordings. Em 2010 entrei para UFES através de concurso público no departamento de Teoria da Arte e Música como professor efetivo lecionando a priori, Educação Musical, na Licenciatura em Música, posteriormente pelas necessidades surgidas do curso novo àquela época, o Bacharelado em Música com Habilitação em Composição ênfase em Trilha Musical, desloquei-me para as disciplinas de História da Música do século XX e XXI e de Trilha Musical, atendendo também ao curso de Cinema e Audiovisual.

De 2013 em diante fui praticamente abduzido pelo mundo da produção audiovisual, de lá para casa assinei captação de som e/ou edição de som e/ou mixagem e/ou desenho de som e/ou trilha musical de 21 curtas-metragens, 2 séries e 1 longa-metragem. Este mundo me fez lidar com um limite que o trabalho experimentalista nos impõem menos, o que me fez adequar minha sonoridade às necessidades técnicas e mercadológicas do cenário cinematográfico. De todo modo, toda vez que estou lidando com cinema me sinto fazendo música eletroacústica em algum nível. Essa vivência foi muito importante para eu escutar o cinema e hoje, inclusive, poder escolher os trabalhos que podem me dar algum tipo de liberdade sonora para colaborar. Até aqui já são 6 anos trabalhando com ou música ou som sob demanda.

Em 2019 decidi que precisava voltar a compor para mim mesmo e a esta altura já estava envolvido há um ano estudando sintetizadores modulares e módulos eurorack, queria me livrar do computador nas performances e ter uma resposta gestual mais “à mão”, o “giro do knob”, e esses instrumentos me deram esse conforto. Recebi então o convite do amigo e colega de departamento, o compositor e alaudista, José Eduardo Costa Silva – com quem já havia composto três trilhas musicais para espetáculos da Cia. Inconsciente em Cena (RJ) – para gravarmos um trabalho em duo de guitarra barroca, instrumento que ele também domina, e modulares. Deste encontro nasceu em janeiro 2020 o disco Na falta do ouvinte a palavra é música, trabalho que considero uma volta a composição e performance, livre da interface com outras linguagens, algo que almejava há algum tempo mas não estava sendo possível.

Modular Drone SessionA inaugura minha retomada solo. Este ano ainda pretendo compilar um disco somente com minhas gravações de soundwalks realizadas nos últimos anos e dar segmento à produção de material sonoro a partir dos estudos de modulares eurorack. Grande parte das minhas gravações de paisagens sonoras se encontram em meu Souncloud, algumas espalhadas por coletâneas nacionais e internacionais e em dois discos compilados no meu Bandcamp. Minhas peças acusmáticas e alguns outros sons produzidos ao longo desses anos também estão no Soundcloud. Na falta do ouvinte a palavra é música e Modular Drone SessionA são minhas primeiras aventuras no mundo dos modulares. Para finalizar, em 2011, a partir de um trabalho chamado Atari Sound Performance, realizado em co-autoria com um grande amigo, o artista sonoro Herbert Baioco, resolvemos fundar o Grupo de Experimentação Sonora, o GEXS, como projeto de extensão dentro dos cursos de Música da UFES. De lá para cá, após o fim da performance o Herbert alçou outros vôos muito interessantes, mudou-se para São Paulo, e eu segui com o grupo a partir de 2013, recebendo alunos que queriam estudar e desenvolver poéticas em música experimental e artes sonoras. Posteriormente abrimos duas outras ramificações, uma de estudos de procedimentos de produção e pós-produção de som para cinema e outra em produção música eletrônica, esta última ainda mais recente. Nestes 9 anos o grupo já teve três alunos, sendo quatro peças, selecionados para a seção Hipersônica do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE), a produção de diversas apresentações de live electronics, incluindo a realização de três trilhas sonoras ao vivo para filmes, além de fomentar as carreiras individuais que cada um que chega ali. Vários alunos já estão por aí hoje produzindo seus próprios trabalhos e o grupo segue atualmente com 10 membros, fortalecendo e fazendo a manutenção do espaço das linguagens experimentais em som dentro dos cursos de Música da UFES.

MI – Como o disco Modular Drone SessionA (Música Insólita, 2020) foi pensado? Quais os procedimentos que estão em jogo nele e como foi elaborado?

MN – Eu venho há pelo menos dois anos ouvindo muitos compositores que trabalham com módulos eurorack com procedimentos mais experimentais e compositores que trabalham com desenvolvimento de fluxos texturais de diversas maneiras. Dessa escuta toda fui absorvendo e refletindo e agora me senti mais apto a sentar e buscar uma sonoridade para este primeiro trabalho solo com meus modulares eurorack. Logo no começo dessa minha entrada nos modulares eu havia me encantando com um standalone do Vinicius Brazil chamado Monsterdrone [2] e assim que pude encomendei e comprei. Ele é a minha fonte sonora para o trabalho, sua divisão se dá em quatro pares de osciladores que são submetidos, cada par, a um encadeamento de modulação de frequência e em seguida um controle de ritmo através de modulação de amplitude. Neste disco eu pensei cada par como uma voz e parti então para a busca da identidade sonora inicial de cada voz, seus movimentos possíveis em cada “tocada” e em qual região da tessitura elas atuariam. Através de um módulo digital de nome Carcellata [1], produzido pelo Gibran Curtiss, da marca Pantala.Labs, utilizei um submódulo chamado “Music from airport” para definir 3 lentas LFOs para controlar o movimento frequencial de um dos osciladores das três vozes superiores do Monsterdrone, a voz mais grave funciona como um pedal. Essas vozes saíam mixadas para um módulo de distorção chamada Plasma Drive (Erica Synths) [3] no qual eu trabalhava o adensamento via distorção e filtragem e dele o sinal era direcionado para um módulo de reverb chamado Erbe-Verb (Make Noise) [4] no qual eu controlava o tamanho da sala, geralmente muito grande, o feedback alongado e eventual uso de shimmer. Assim, neste disco usei quatro módulos para obter essa sonoridade final.

As peças foram gravações em takes únicos, partindo sempre da etapa de procura da sonoridade, achando-a eu começa a gravar em uma pista estéreo e em tempo real manipulava as vozes, os módulos de efeito e os controles dinâmicos mixando-os. Não há nenhuma edição ou correção de dinâmica entre as vozes, apenas trabalhei no reforço da região grave e aguda com equalização de maneira moderada na mixagem e na dinâmica geral das peças para atingir o loudness que eu gostaria na master final.

MI – O que você ouve e como você vê a sua relação com a produção de som experimental?

MN – Eu ouço de tudo, mas preferencialmente rock n’ roll, com destaque para os gêneros grunge, new metal, emocore e metalcore, depois vem o jazz e atualmente bastante rap. Na música de concerto meu repertório de escuta fica nos compositores do século XX, principalmente nas obras de música acusmática ou eletroacústica mista e música minimalista. Sempre acompanho e escuto o cenário da música experimental brasileira através dos grupos que participo no Facebook. Para esse trabalho me dediquei a ouvir bastante música espectral, drone, drone metal, ambient e derivações, sendo que, entre tantos artistas, as principais influências foram Elaine Radigue, Phill Niblock, Brian Eno, Suzanne Ciani, Kaitlyn Aurelia Smith, The Haxan Cloak, Cadu Tenório, Gimu e Sun O))).

Minha relação com a produção experimental se dá sempre na busca por escutar o que as pessoas estão compondo, sou muito curioso e quero sempre escutar tudo que aparece à minha frente, escutar também ao meu redor, o dia-a-dia, as sonoridades que me cercam. Acho que a escuta é minha principal conexão com meu processo de entendimento como artista sonoro, tem sido a minha matéria-prima. O Experimentalismo me pega mais no âmbito texturas, no desenvolvimento lento do material em fluxo, esse é um outro ponto que tenho buscado no momento e é o mesmo exercício que faço sempre ao gravar meus soundwalks, “nunca parar de caminhar” é a minha única prioridade. 

MI – Como é a cena e o público de música experimental do Espírito Santo? Pode citar alguns artistas?

MN – A cena em si, pensando em contraponto ao que vejo no eixo Rio-SP, com pequenas casas dedicadas ou abertas em algum momento ao repertório dessa natureza e com um público constante, não existe. O que temos são hoje trabalhos esparsos que vem do esforço de alguns nomes que começaram nos anos 2000 a debulhar experimentação sonora por conta própria, mesmo que de maneira indireta. Temos figuras como (com o perdão do lapso de esquecer alguém ou não conhecer): o Constantino Buteri, muito envolvido também com a produção e pós-produção de som para cinema; o Marcel Dadalto, produtor musical hoje radicado na Alemanha; o Rodolfo Simor, produtor musical e amigo de graduação, que também usufrui de uma escuta mais ampla e isso é muito nítido em seus trabalhos; e o Gimu (Gilmar Monte), radicado hoje em São Borja/RS, tem um trabalho volumoso em paisagem sonora/drone/ambient, reconhecido internacionalmente, uma das minhas grandes referências atualmente. Da geração mais nova temos alguns vôos solos: tem o Lucas Côrtes, com um trabalho já extenso; o Magno Caliman, apesar saído cedo, é capixaba, tem um trabalho de destaque; o Herbert Baioco, radicado hoje em São Paulo, artista sonoro que tem se destacado nesses últimos anos em nível nacional; o Duo Doce Caseiro, formado por Jenni Prélio e Alessandra Félix, que tem feito bastante apresentações localmente, são membras do GEXS, e nossos ex-membros Esteban Viveros, radicado hoje em São Paulo, e Sann Gusmão, radicado em Lisboa, de quem tenho profunda admiração pela qualidade sonora que ele consegue imprimir em suas peças.     

Sobre o público, posso falar das minhas apresentações ou das realizadas pelo GEXS, que são esparsas e sem constância, geralmente dentro da Universidade ou em espaços como galerias ou o no Sesc Glória. Geralmente são amigos e alunos que já conhecem o nosso trabalho, então já formamos um público reduzido mas que tem interesse na escuta desse tipo de sonoridade e sempre se faz presente. Há também muitos “curiosos” que acredito ser o público almejado também, é quando conseguimos despertar algum tipo de estranhamento que pode cativar (ou não) a uma imersão ainda maior nesse repertório. Encaro sempre como a possibilidade de fomentar a formação de público.

MI – Como as pessoas que se interessarem podem conhecer mais do seu trabalho?

MN – Hoje consegui compilar meus trabalhos no site www.marcus-neves.com , normalmente está um passo atrás na atualização, mas sempre que possível eu atualizo. Lá tem os links para o soundcloud, bandcamp, reportagens e trailers de espetáculos que já participei, fotos e redirecionamento para quem quiser conhecer e adquirir o livro lançado em 2015, Augusto de Campos e a música de invenção (uma escuta entre poemas), que está em revisão para uma segunda edição a ser lançada, se possível, ainda este ano.

espaço livre / aberto.

Agradeço ao Música Insólita, ao Fabiano Pimenta e demais membros organizadores pelo espaço, sempre acompanhei o grupo no Facebook e é muito gratificante poder agora ter um trabalho publicado pelo selo. Agradecer ao Vinicius Brazil (VBrazil Systems e Vinicius Eletrik) e ao Gibran Curtiss (Pantala.Labs), todos sempre muito solícitos, ensinaram-me muito sobre esse “novo mundo” dos modulares.  Dedicar também agradecimento à minha esposa Gabriela Alves, parceira de todas as horas, aos meus amigos que a música me deu, Herbert Baioco, Deyvid Martins e Dori Sant’Anna, sempre apostos e pacientes. Duas figuras muito importantes também, José Eduardo Costa Silva, sempre me incentivando e propondo parcerias refrescantes, e ao Daniel Tápia, sempre colaborando, aprendo muito sobre áudio com ele. Alô Janete El Haouli, obrigado por tudo, você é a grande propulsora e não me canso de falar isso para ti, deixo mais uma vez registrado. Aos jovens do GEXS todo meu respeito pela dedicação com que cada um conduz sua participação no grupo.

Que a escuta se mantenha sempre sem amarras!

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