Orlando Scarpa Neto – Centro

Orlando Scarpa Neto ao vivo no Festival Audio Rebel Instrumental, em 2018. Foto: Divulgação

Orlando Scarpa Neto é compositor e pesquisador curitibano, radicado no Rio de Janeiro. Seu trabalho com som passa por diversas abordagens em música eletrônica e experimental, além de trilhas sonoras para cinema, teatro e televisão. Pela ocasião do lançamento do seu disco “Centro” (Música Insólita, 2020), conversamos sobre sons cotidianos, narrativas e memória.

MI: Conta um pouco sobre a sua trajetória na música até aqui. Como e quando seus interesses por sons começaram?


OSN: Eu tenho poucas memórias de não tocar algo. Meu primeiro instrumento foi clarinete, comecei bem novinho, com sete ou oito anos. Fiquei um bom tempo estudando o instrumento e parei no início adolescência. Foi com 14 ou 15 anos que virou uma chave na minha cabeça: comprei um baixo Giannini usado por 70 reais de um amigo e comecei a tocar em bandas e frequentar os rolês da cena punk de Curitiba. Foram minhas primeiras experiências tocando ao vivo, viajando para tocar, tocando músicas minhas. Nessa época que entrei em contato com uma lógica faça-você-mesmo de produção, que é de certa forma indissociável do meu interesse em música e sons. Desde a adolescência tenho um interesse em música eletrônica, mas comecei a fazer música eletrônica/eletroacústica no início da faculdade, em 2004. Uma coisa bastante acadêmica, compondo coisas pra serem tocadas em sala de concerto. Nessa época também estava estudando violão erudito (embora não tenha ido muito adiante na empreitada) e retomei o clarinete, também foi a época em que me aprofundei mais em teoria musical e composição. Da parte eletrônica, inicialmente meu interesse era muito voltado para processamentos de sinais, manipulação de uma forma mais sistemática, estudei um pouco de Max/MSP e CSound. Uma coisa bem na tradição da música eletroacústica europeia mesmo. Com o tempo, fui deixando isso um pouco de lado e, de certa forma, comecei a ter uma relação um pouco mais intuitiva com a criação musical. Acho que ainda tenho um apego muito grande à ideia de forma musical e não consigo evitar de estruturar música na minha cabeça usando teoria musical europeia, mas hoje é uma relação bem menos neurótica se comparada ao que já foi. O curioso é que, paralelamente, esse tempo todo continuei tocando em bandas da cena punk curitibana, onde a lógica era totalmente diferente. Era uma espécie de vida dupla: de dia ia pra faculdade, estudava Bach, Mozart, Beethoven, Schoenberg; de noite, ensaiava com as minhas bandas. Ao mesmo tempo, e talvez no meio do caminho, eu tinha uma produção elotroacústica, que até era tocada ao vivo, mas que nunca foi lançada. Foi só em 2012, mais ou menos, que comecei a publicar minhas coisas eletrônicas no soundcloud e bandcamp, assinando com meu nome mesmo. Foi quando comecei a desenvolver uma estética minha, de certa forma, uma coisa que mistura gravações de campo, guitarra e baixo fortemente processados e várias formas de síntese sonora. Uma mistura meio esquisita que foi se consolidando aos poucos. Foi nessa época que apareceram uns primeiros trabalhos de trilha sonora, que é uma coisa que faço com alguma frequência desde então.

MI: O álbum “Centro” (Música Insólita, 2020), assim como seus discos mais recentes, “Cotidiano I” e “Cotidiano II”, ambos lançados em 2018, ecoam sua pesquisa sobre sons cotidianos, materializada na sua tese de doutorado “Espaço, memória e narrativa na criação musical com sons cotidianos”, de 2019. Ou seria o contrário? Qual é o encanto dos sons cotidianos, afinal, e como ele está relacionado com o tema da escuta para você?

OSN: O interesse pelos sons cotidianos surgiu, inicialmente, como um interesse musical. A primeira coisa que fiz usando esses sons foi uma peça chamada “A respeito dos sons que escolhemos ignorar”, que fiz no final do mestrado. Apesar do título meio pretensioso, gosto bastante dela até
hoje. O doutorado foi uma tentativa de tentar definir, do ponto de vista bibliográfico e sonoro, o que é um som cotidiano. O que significa cotidianidade e o que caracteriza um som como cotidiano. O que me encanta na experiência de escutar sons cotidianos gravados é a maneira como criam espaço, estimulam a memória e sugerem uma narrativa.

 

Ao escutar a gravação de uma estação de metrô, com os sons dos trens e dos anúncios, eu crio uma imagem mental daquele espaço, comparo-a com minhas memórias de outras estações de metrô, imagino todo um cenário para aquela gravação. Este movimento da imaginação é, para mim, essencialmente narrativo, é a criação de um contexto. Vale lembrar que o interesse sempre foi mais voltado para o som cotidiano gravado, e não necessariamente da experiência destes sons in loco. O ar condicionado do vizinho é um inferno, barulhento pra burro, mas dá uma ótima gravação. É um processo fundamentalmente diferente da escuta de sons instrumentais, por exemplo. Ao escutar, por exemplo, uma gravação de um violoncelo tocando, ou um de sintetizador que se comporta como um som instrumental mais tradicional, eu também imagino um contexto para aquilo, imagino uma pessoa por trás dos gestos musicais, mas o contexto gerado é, eu diria, na maioria das vezes secundário. Em suma, acho que o que me encanta nos sons cotidianos são essas particularidades narrativas e como a experiência de escuta das gravações destes sons contrasta com a escuta de sons instrumentais gravados.

Quanto aos álbuns “Cotidiano I” e “Cotidiano II”, eles não vieram antes ou depois da tese, mas fazem parte dela. O último capítulo da tese é uma discussão sobre o processo de criação destes álbuns, procurando compreender criação musical como produção de conhecimento, fugindo um pouco da ideia de que a única maneira de se produzir conhecimento é pela via bibliográfica. Já o Centro é o um disco pós tese, não foi feito com nenhuma discussão acadêmica em mente. É, de certa forma, um disco mais pessoal, que explora minha relação com o centro do Rio de Janeiro, uma certa melancolia misturada com esculhambação que ronda aquela região, que é minha parte favorita da cidade.

MI: Os sons do centro do Rio de Janeiro são usados como gatilhos para a memória nesse seu disco, mas também como sons que possuem uma musicalidade intrínseca. Pensar em memória aqui, é, necessariamente, falar de uma experiência a priori de sons e vivências do centro do RJ? Até que ponto é preciso que se reconheça um som para que ele ganhe uma identidade ou um sentido? Como você pensa e opera essa noção de “reconhecimento” dentro da linguagem de gravações de campo?

OSN: Algum nível de reconhecimento é inevitável, mesmo que você não tenha uma experiência pessoal com os sons usados no disco. A questão principal, pelo menos no meu processo de criação, é menos o quão necessário é o reconhecimento dos sons para que adquiram algum sentido e mais qual o sentido que um som ganha quando reconhecemos que é um som cotidiano, mas não sabemos exatamente o contexto daquele som. Ao reconhecer a cotidianidade do som, inevitavelmente criamos um contexto para que ele faça sentido, e aí voltamos a questão anterior, da narratividade intrínseca a este processo de criação de um contexto.

A chave não está em reconhecer o som, sua origem, todo seu contexto, mas de perceber que trata-se de um som cotidiano, de uma gravação de campo de um lugar real, com sujeitos, subjetividades, conflitos, negociações. O som do vagão de metrô, com sua reverberação típica, remete à cotidianidade do metrô. É impossível separar as qualidades acústicas do vagão (e da estação) dos significados que carregam no dia a dia. Lembrando, sempre, que a gravação dos sons do metrô não equivale a estar no metrô e escutar aqueles mesmos sons. São experiências fundamentalmente diferentes, embora uma influencie a outra. Ao escutar a gravação, lembro-me do metrô e sou jogado, pela memória, à ideia de cotidiano. Ao estar no metrô, vivo a minha vida cotidiana como qualquer outra pessoa. Sem esta vivência, talvez a gravação não fizesse sentido. Ao mesmo tempo, se escuto uma peça (ou vejo um filme) com sons de metrô sem nunca ter pisado em um vagão, é provável que minha memória da gravação influencie a experiência cotidiana, caso venha a usar o metrô no futuro. Somos o tempo todo bombardeados com pequenas cenas de cotidianos alheios através do jornal, de filmes, de séries.
Isso, de alguma forma, vai se acumulando, treinando a escuta para reconhecer o cotidiano nos sons.

Sempre lembro de uma história, de um amigo que, ao retornar de Cuba, comentou que ao sentar para jantar em um hotel que já estava longe do seu auge, com o tecido das cadeiras gasto e um pianista tocando música cubana em um piano desafinado, “se sentia em um filme”. Ele nunca tinha ido àquele local específico, era sua primeira vez em Cuba, no entanto o local era reconhecível pelo contato que teve com gravações (filmes, séries, qualquer coisa). Tinha entrado em contato com gravações daquele local antes de estar fisicamente presente, e estas gravações alteraram sua experiência.

 

MI: O que você ouve? Você diferencia o som que ouve por prazer e o que ouve como fonte de pesquisa?


OSN: Varia muito de época pra época. De maneira geral, é um pouco aquele clichê de “escuto de tudo”. Tenho escutado muito sertanejo durante essa fase de isolamento social, principalmente Milionário e José Rico. Aí na outra semana entro numa fase Ramones, e assim vai indo. No momento em que respondo esta pergunta estou ouvindo Tito Puente. Então a coisa é um pouco pra todo lado. Especificamente de música eletrônica ou experimental, escuto muito house e techno. Embora esse som não tenha nada (ou muito pouco) a ver com as coisas que componho e gravo, gosto muito da ideia de como esse gêneros criam uma ambiência ou clima específicos. A maneira como dialogam com o espaço urbano, de como os subgêneros são geograficamente localizados, é algo que me interessa demais. Da parte mais experimental, gosto de acompanhar tudo que é lançado no Brasil, e as últimas coisas do Cadu Tenório foram uma influência bem grande para o “Centro”. Acho ele particularmente competente no que diz respeito a criar ambiências, tem um clima muito
específico nos discos mais recentes dele. Acompanho as coisas do Música Insólita, da Sinewave, entre outros, e quase todo dia fico um tempinho vasculhando coisas no bandcamp. Tem muita muita gente competente lançando coisa toda hora, fica quase difícil escutar tudo. Mais recentemente, tenho escutado direito o “子供との戦い karatê kid” , da k0k0n, e o “s/t”, do Verjault.

Sobre a diferença entre uma escuta por prazer e outra por estudo: ela está presente quando passei muito tempo analisando uma obra específica, decupando ela, tentando entender sua forma, lendo sobre a peça.
Por exemplo, eu passei muito tempo analisando a obra da Denise Garcia, que para mim é uma das compositoras mais incríveis do cenário brasileiro, e é quase impossível escutar algumas coisas dela sem me debruçar em pormenores que cavuquei durante as análises. Também tem os casos em que não estou escutando música propriamente dita, mas sim gravações de locais, de pássaros, ou do que mais encontrar por aí. Aí é uma outra escuta, mais técnica talvez, que busca compreender como e quando uma gravação específica foi feita, que tenta criar uma imagem daquele local. Fora estas
situações, eu tenho uma escuta meio analítica: seja de nerd de equipamento (pensando em como aquilo foi montado, quais softwares ou qual hardware foram usados), ou seja, buscando compreender o contexto que aquilo foi feito (qual país, cidade, que época, por quem).

MI: Como ouvir mais do seu trabalho?


OSN: Quase tudo que já gravei está no meu bandcamp:

https://orlandoscarpa.bandcamp.com

Também tem a minha tese de doutorado, para quem se interessar:

https://www.academia.edu/42346233/Espac_o_memo_ria_e_narrativa_na_criac_a_o_musical_com
_sons_cotidianos

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