Paulo Dantas – 02022020

Paulo Dantas em performance
Foto: Charlotte Bohn

MI: Conta sobre a sua trajetória na música até aqui. Como e quando seus interesses por sons começaram e se desdobraram?

PD: Bem lá atrás, com o synthpop e a trasheira que tocava nas rádios 80, as canções dos seriados japoneses, além das trilhas de videogame e de filmes. A fita do Prince e o demônio na capa do álbum do Iron Maiden. Montana e Zomby Woof numa mixtape feita pelo irmão de um amigo (que também tinha Richard Strauss, Deodato, Tecnotronics, Jean Luc Ponty, Kraftwerk e Allan Holdsworth, era bem esquisito). Os ‘programas de rádio’ que eu fazia com o Gradiente. Os Roques (os ‘clássicos’, o metal, o progressivo e o grunge). A amizade com músicos de orquestra e a vontade de participar daquilo, de alguma forma. A Chaconne. O violão de presente da família (não sem alguma dificuldade). Alberto Mejia e o quarteto de violões ( Alberto acolhia as composições e improvisações que eu trazia para as aulas, mesmo que isso indicasse que eu não tinha estudado tanto o Brouwer e o Villa durante a semana). Rimsky-Korsakov. Concomitantemente a isso, a eletricidade do Mellon Collie, a guitarra e as bandas (uma ‘banda gótica’ bem estranha, uma outra ‘groovada com prog’, uma terceira meio Hendrix…). A segunda de Mahler. A ‘música contemporânea’ nos programas de tv do Simon Rattle, aos domingos. Miles Davis. Schoenberg e Stravinsky. Mais Frank Zappa e Björk. Bowie. A graduação em Composição, o Pauxy e o Rodrigo. O curto período com o Farta Cecília, a convivência com a Ofelex. Piano e regência. As Bienais e os concursos de Composição. Schaeffer, Stockhausen, Cage e Max-MSP. A Associação de Canto Coral e o Coro de Câmara da Pro Arte. O mestrado, Tristan Murail, Brian Ferneyhough e Ligeti. Janete El Haouli e Denise Garcia. Berlin (a cidade) e minimal techno. O último John Coltrane (mas também o do Ballads) e Thelonious. Richard Barrett e Xenakis. Cornelius Cardew. Fernando e o Plano B, que me deslocaram não somente da ‘Composição’ para a ‘composição’, mas também para a ‘criação’ e para o ‘som’. O cargo de sub na EM-UFRJ e o pessoal que eu desorientei por lá. Os almoços com Rafael Sarpa, Japanoise, Industrial e extremos. Ibrasotope. O curto e intenso período em Bogotá. O trabalho com os ensembles Agora, Abstrai e Schlag! ENCUn. O início do trabalho na Unirio. 

[Certamente estou esquecendo e editando muita coisa, mas isso cobre grosseiramente o período entre 1981 e 2009, tentando manter alguma ordem cronológica mínima. Dá pra sacar mais ou menos o que aconteceu a partir de 2010 pelo restante desta conversa]  

MI: Como o disco novo, “02022020” surgiu para você como ideia e como ele foi trabalhado?

PD: Assim como aconteceu com os trabalhos que foram publicados nos meus outros álbuns solo (Cidade Arquipélago e 20160810_19:50:??_-22.920972,-43.238181), eu comecei a pensar e montar 02022020 bem antes de imaginar o lançamento de um disco. No fim de 2019 eu e mais dois artistas–o bailarino Alan Athayde e a cantora e performer Clara Anastácia–fomos chamados por Bianca Tossato, Fernanda Paixão, Natália Carrera e Rebecca Nora para uma colaboração. Cada um de nós deveria contribuir com uma performance durante as ativações da ‘Encruzilhada’, instalação concebida por elas para o Novas Frequências daquele ano. A faixa que elas produziram foi montada a partir de gravações de campo, realizadas em encruzilhadas de todas as zonas do Rio de Janeiro. Essas encruzilhadas foram definidas a partir de um sorteio, cujas regras poderiam ter conduzido as artistas a qualquer canto da cidade. Pelo que entendi das conversas que tive com elas, isso foi algo que acabou colocando-as de frente com questões de interesse sócio-político, algo que não vou seguir comentando aqui por conta do tempo. Além dessa dimensão investigativa-política, havia uma dimensão metafórica que relacionava a encruzilhada a práticas e entidades de religiões de matriz africana, algo que foi bastante explorado nas contribuições da Clara e do Alan. 

A partir dessas informações, e depois de ouvir as prévias da faixa na medida em que avançavam com a composição, eu comecei a imaginar formas de me colocar no projeto e acabei bolando uma espécie de roteiro ‘sci-fi apocalíptico’ que orientou o meu processo criativo. Nele, o Rio de Janeiro e todas as suas encruzilhadas seriam inundadas no dia 02 de fevereiro de 2020. Esse ‘desejo por destruição’ foi também alimentado pela minha percepção do estado de coisas em 2019, um ano péssimo. Eu não poderia, naquele momento, imaginar que tudo pioraria vertiginosamente. 

Vista da janela, a cidade debaixo de chuva; 

suas luzes neon, refletidas em poças, distorcidas 

pelo gotejar, pelo desordenado e grave solo; 

o mar que avança pelo vale longo, trazendo consigo as quatro; 

armar, com a qual castigam o concreto; 

a brutalidade em fase, o transe e o tambor conduzem ao molecular, 

à possibilidade de reconstrução; 

mas antes, ao desolamento e à suspensão. 

Comecei a trabalhar a partir desse roteiro, saindo para gravar os sons de que precisava e elaborando patches nos sintetizadores com os quais venho trabalhando já há um tempo. Eu sabia que tocaria essa peça concomitantemente ao soar da instalação, mas eu queria que ela tivesse uma independência também. E, como também aconteceu com os dois álbuns anteriores, essa versão autônoma de 02022020 circulou por algum tempo e foi bastante modificada e experimentada antes de ser gravada. Além da performance no festival, apresentei esse trabalho em outras ocasiões, sempre com alguma modificação: em ‘versão ensaio’ na Audio Rebel, dias antes do Novas Frequências; em evento na UFF, organizado pelo Ricardo Basbaum e pelo Tato Taborda, já após o festival; e em 08 de fevereiro de 2020, no Fosso 15.   

Logo depois da performance no Novas Frequências, em dezembro de 2019, eu recebi o convite para lançar 02022020 pelo MI. Gravar, produzir, mixar, isso tudo me toma muito tempo. Então só agora em Agosto a coisa apareceu. Daí eu pedi à Julia Furtado, uma artista/designer/amiga genial, que cuidasse da parte visual do disco. Ela ouviu a faixa, conversamos um pouco, acertamos as ideias e ela apareceu com essa capa, que acho incrível.  

    

MI: Além de artista sonoro, você é professor e técnico de som. O quanto essas atividades se visitam e se relacionam?

PD: Eu percebo muitos fluxos entre essas atividades. Talvez fosse legal tentar fazer um quadro mais detalhado dessas relações, até para mapear um pouco melhor a coisa para mim. Mas, para ficar com um exemplo, noto uma flecha que parte do ‘artista sonoro’ em direção ao ‘professor’, já que muitos dos materiais que apresento e discuto em sala de aula estão diretamente relacionados a ideias e trabalhos que conheci nas cenas em que circulo enquanto artista; há também uma flecha que retorna, do ‘professor’ ao ‘artista sonoro’, por conta da grande quantidade de coisas que eu fico conhecendo em sala e que passam a me influenciar de alguma forma, como é o caso da pesquisa do Gabriel Dargains com o ‘piano retroalimentado’; ou quando o Lucca me apresentou o trabalho do Lionel Marchetti; também os anos de Prática de Conjunto em Música Experimental e de Barulhão; ou ainda a experiência recente com os Seminários de Quarentena.

MI: ‘Gravações de campo’, ‘paisagem sonora’ são alguns nomes aos quais você está relacionado. Mas há muito de sua produção que passou pela composição (em um sentido mais formal do termo – me refiro a presença de uma notação musical), pelo improviso, e, mais recentemente por algo como as ‘lecture performances’. Você nota essa variedade como diferentes processos?

PD: Sim, eu noto como sendo diferentes processos, ainda que, com o passar dos anos, eu perceba certas ‘coincidências’ que os amarram e organizam, mesmo que parcialmente. Às vezes eu ainda tenho o reflexo de buscar algo em comum costurando todos os trabalhos que faço, acho que ainda tenho alguma demanda por ‘clareza conceitual’. Ao mesmo tempo, se esbarro hoje com uma ideia interessante que enquadraria como ‘composição’, e amanhã com uma ideia igualmente interessante que enquadraria como ‘performance’, ou ‘pesquisa’, ou ‘sei lá’, eu vou e tento realizar todas sem dar tanta atenção à unidade do conjunto. Algumas referências têm me ajudado a não me sentir sozinho nessa. Por exemplo, o trabalho extremamente diversificado e sempre brilhante de Henrique Iwao. Ou ainda, as leituras de Donna Haraway, com o ‘Cyborg’, as ‘afinidades’, as ‘SF’ e os muitos registros de escrita. A filmografia de Mamoru Oshii, que em um momento é anime modelado a partir de lutas de arcade, no momento seguinte é filme-ensaio e ‘filosofia’. A ficção científica do William Gibson, um ‘toolkit’ que ele usa para discutir a sério moda, tecnologia e arte, militarização e crise climática, ciberespaço e outros. Christine Greiner e as diásporas cognitivas, dança, Japanologia e tradução. Etc.

[Sair por aí e gravar os sons do mundo também me ajuda a perceber o valor de toda essa variedade, e acho que isso se dá porque sinto que esse tipo de atividade me ensina a escutar e pensar de maneiras diversas] 

Foto: Kawabata Ryuta

MI: O que você gosta de ouvir?

PD: Sendo bastante honesto, tenho gostado muito de ouvir ‘o término do dia’. Principalmente nesses dias frios, com vento e chuva, madrugada adentro. Entendo que é meio cafona isso, mas é que tem sido foda aguentar, longe das atividades e das pessoas queridas, o momento atual: o excesso de reuniões online, “o asno fardado que urra junto à sua cria na alvorada”, os jornalistas-tentando-entender, a desigualdade ainda mais ampla e gritante, os números que vêm e vão, as nacionalidades das vacinas-empresas e a porra do remédio que não serve pra nada. Então o término do dia, esse momento de ‘silêncio’, de ‘ufa, acabou por hoje’, tem sido frequentemente a melhor escuta. 

Mas voltando à música e ao ‘som/arte’: eu sigo ouvindo muitas das coisas que mencionei lá em cima. Mas nos últimos anos eu venho conhecendo e me aproximando cada vez mais dos trabalhos de Thelmo Cristovam, Thomas Rohrer, Lucie Vítková, Henrique Vaz, Marcelo Carneiro, Ute Wassermann, Marco Scarassatti, Michael Winter, Manuel Pessoa de Lima, Melissa Pons, Aki Onda, Ikeda Takumi, Pedro Garcia, Túlio Falcão, Tarou Yasuno, Isabelle Stragliati, Ricardo Basbaum, Lucas Pires, Jéssica Marinho, Suzueri, Xabier Erkizia, Rie Nakajima, Gabriel Dargains, Sylvia Hinz e Jeanne Strieder, Agla Äeón, Powerpuff Girlsound, Hrönir, Lucca Totti, Carla Boregas, Renata Roman, [as trezentas personas de] Miazzo, …  

MI: Nos últimos anos você fez parte do Fosso (RJ), coletivo e espaço que abriga shows, debates, performances, instalações e exposições. Entre outras funções que você desempenha por lá, destaca-se a sua atuação como técnico de som. Você pode falar um pouco sobre isso e comentar também sobre a cena de som independente no Rio?

PD:b-Aluria, Bella, Girauta, Magno Caliman, Bronte, Gustavo Torres, Felipe Zenícola, Rafael Sarpa, Caeso, Orlando Scarpa Neto, Sanannda Acácia, Gabriela Mureb, J.-p. Caron, Aquiles Guimarães, Guache, Teratosphonia, Paulo Guilherme Delorenci, Em Extinção, Matthias Koole, Marcos Campello, Henrique Iwao, Manifestação Pacífica, Verjault, Alexandre Fenerich, Késia Decoté, God Pussy, Antonio Brito, Pitter Rocha, Mariana Carvalho, Cadu Tenório, e mais um monte de gente. 

*

No Fosso eu trabalhei em shows de muitos dos artistas e projetos que listei acima, principalmente na montagem e execução da parte técnica dos shows e das instalações sonoras. Me virei um bocado tentando achar soluções para as demandas que pintavam, mesmo com todo o acaso e dificuldades. Como tínhamos sempre quatro shows por evento, isso dava bastante trabalho (estou lembrando aqui do épico Aparelhagem Malk Espanca – Guache – Chelpa Ferro, “esse dia foi louco”). Claro, eu não fazia isso sozinho, contando sempre com a ajuda do PG, da Sanannda e dos demais integrantes do coletivo. Mas eu acabava concentrando uma boa parte desse trabalho, até porque a programação do Fosso não contava ‘apenas’ com shows de música/som, mas também com performances, exposições da galera das artes visuais e falas/conversas que abriam os eventos. O coletivo se desdobrava para coordenar tudo isso e mais o bar, a porta da casa, a eventual documentação, a contabilidade. E acho que também por isso acabamos nos especializando cada um em uma coisa.

Na época em que decidimos levar adiante a ideia do Fosso, acho que por volta de agosto de 2018, o Rio e o Brasil viviam um momento que julgávamos como sendo o fundo do poço (aí veio 2019, 2020…). Mas eu sentia que tanto a cena carioca quanto as de outras cidades estavam ‘dando conta’ e ‘absorvendo o tranco’, na medida do possível. Cheguei a escrever e publicar umas coisas sobre algumas dessas cenas no final de 2017, na verdade essas impressões já estão ali naqueles textos. O Aparelho, um espaço do qual eu sinto muito falta pois gostava muito de frequentá-lo e de tocar ali, estava funcionando intensamente apesar dos problemas. Também a Audio Rebel, e, algum tempo depois, também a Desvio. Os eventos e as festas, Noite Faquinha, MONO, o nosso Outro Baile. E a maioria das pessoas que mencionei aqui também circulava por esses lugares e eventos, fazendo correr as suas ideias e sons, promovendo novas conexões, muitas conversas e deslocamentos. E muita bagaceira também, porque ninguém é de ferro.  

Enfim, acho que é um privilégio fazer parte dessa cena. Digo isso porque sinto que dei muita sorte, não precisei fazer tanto esforço assim para conhecer as pessoas mais interessantes e estar de alguma forma implicado em seus trabalhos e ideias. Espero que haja alguma chance de existência não de um ‘novo normal’, mas sim de algum ‘novo mundo’, pós-desolamento-e-suspensão, onde eu possa reencontrá-las em breve. 

[Se for no Fosso, por favor, “tragam seus trocados”]

MI: Quais são os links de divulgação que alguém interessado em seu trabalho pode acessar?

PD:

atnll.com

paulodantas.bandcamp.com

soundcloud.com/pl-dnts

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