Guache – Novo Lugar Esquecido

Guache é o projeto de improvisação de Gil Fortes e Luciana Melo. O duo de música experimental estabelece um diálogo entre estrutura e interferência, paisagem e presença onde se dá a possibilidade de uma dramaturgia sonora mediadora de narrativas subjetivas. Confira a conversa que tivemos com os artistas pela ocasião de lançamento do disco Novo Lugar Esquecido (Música Insólita, 2020).

Guache em estúdio. Imagem de divulgação.

MI: Como surgiu o Guache e como foi a trajetória do projeto até aqui?

Lu: Em 2015 começamos a gravar improvisações na sala de casa durante o silêncio das madrugadas pós-dia-de-trabalho. Ouvindo as gravações percebemos que muita coisa instigante tinha rolado. Daí começamos a tocar com regularidade e desenvolver alguma linguagem. Fomos aprimorando nosso set em busca da nossa sonoridade e aos poucos concebendo um disco conciliando com o corre da vida, aprendendo a trabalhar juntos, a interagir nossas musicalidades, construindo-o e amadurecendo-o durante cerca de um ano e meio até lançarmos, em fevereiro de 2018, o primeiro disco, O Que Vem (Rockit Digital, 2018).

Fizemos algumas apresentações no Rio e durante uma viagem a Portugal, em Lisboa. Continuamos praticando a improvisação cada vez mais… Até que no dia 15 de junho de 2019, ficamos cerca de três horas tocando e gravando sem parar… Foi um dia especial, meio que divisor de águas… desse dia saiu o segundo disco, Continuum Súbito (2019).

Nossa primeira apresentação só de improvisação foi no Fosso 10 e foi realmente tudo muito intenso… E ainda teve Juliana Wähner, que estava expondo um trabalho muito maravilhoso, performando enquanto tocávamos… inesquecível! Começamos então um processo de construção de narrativa como forma de guiar essa improvisação na intenção de reproduzi-la. Apresentamos logo em seguida na Audio Rebel e no Escritório (as três apresentações foram em agosto de 2019) e desapegamos. Ainda em agosto, com o convite para tocar no encerramento da Exposição Distopias no Espaço Apis, fizemos livre improvisação com Tantão e Ricardo Dias Gomes.

Começamos então a experimentar possibilidades mais rítmicas e narrativas totalmente diferentes se deram… Mandamos uma gravação desse novo momento para Darks Miranda (Luisa Marques) e ela topou improvisar um live cinema com a gente e o Debussy Bach Restaurant (Cláudio Monjope e Paulo Vivacqua) no Aparelho em setembro… momentos de interação entre os três projetos e mais uma noite de encontro e diálogo inesquecível!

Na sequência tivemos outra oportunidade de interação entre linguagens. Aproveitando o convite para participar da sétima edição do Cena, nos apresentamos com Mariano Marovatto, dando início ao projeto Paisagem Sonora para Estirâncio, uma composição em torno da leitura de trechos do seu recém-lançado livro Estirâncio.

Em novembro lançamos o Continuum Súbito. Paulo Dantas, parceiro no Fosso 10, convida o Guache para o O Outro Baile Vol. IV. Como o recém-lançado disco havia sido gravado cinco meses antes, nosso som já tinha mudado… apresentamos um novo roteiro imaginado. Novo Lugar Esquecido vem daí.

Recentemente publicamos Paisagem Sonora para Estirâncio (2020), mas antes disso criamos Desvendo inspirados pelo Desafios Sonoros #2: Vozes Sem Palavras, lançado pelo Sonatório da UFRB e Ventana, que desenvolvemos para a apresentação no Experimental de Cinzas na Auta e que integra o álbum registro das apresentações lançado pelo Música Insólita.

Foram pouco mais de dois anos circulando com o Guache… tempos para nós muito intensos.

Luciana Melo em estúdio com microfone customizado. Foto: Gil Fortes

MI: Desde o lançamento do álbum de estreia, O Que Vem (Rockit Digital, 2018), o ouvinte mais atento percebe um considerável deslocamento entre diferentes linguagens ao fazer uma escuta de um disco ao outro. Comentem esses movimentos e falem um pouco sobre os interesses de vocês, provável motivador dessas diferenças.

Gil: O diálogo musical que se dá através da improvisação é o que mais nos encanta, e fazer música para nós é sobre isso. As composições de O Que Vem são nossa conversa inicial, num processo de autoconhecimento e reconhecimento da relação. A construção das composições dependeu de um processo mais cerebral que desse conta de organizar fluxos mais curtos de diálogo musical. Com a prática, foi inevitável expandir e encontrar novos horizontes para as pesquisas de cada um e formas de interação, resultando em três discos feitos a partir de improvisações mais complexas e longas. O Continuum Súbito, nosso segundo disco, por exemplo, foi montado com trechos de uma sessão de umas três horas de som ininterrupto. O start com o O Que Vem nos colocou em movimento, confirmando que fazia sentido seguir nossa história também tocando juntos.

Dá pra acessar toda nossa produção em guache.bandcamp.com

MI: Como foi a concepção do novo álbum, Novo Lugar Esquecido (Música Insólita, 2020)?

Gil: Cada evento que vamos participar nos inspira de alguma forma. Começamos a construir o que vamos apresentar confiando no poder da improvisação para revelar os caminhos afetivos e poéticos. Novo Lugar Esquecido foi concebido para a apresentação na quarta edição de O Outro Baile, série de shows organizados por Paulo Dantas, Gabriela Nobre e Daniela Avellar no Aparelho (RJ).

Temos como prática gravar, quase sempre em canais separados, a maioria de nossas sessões de improvisação. No processo de aprimoramento, onde procuramos repetir os eventos mais relevantes, costumamos relatar um ao outro, as imagens e cenas que vão nos ocorrendo. É quando uma visão da narrativa vai se dando nos servindo como um roteiro, que também evolui e sugere. Improvisar nesse roteiro passa a ser a coisa. Continuamos registrando o processo.

O convite de Gabriela Nobre para lançarmos um disco pelo MI nos deu a certeza de que o material a ser publicado seria o registro do momento mais amadurecido do que preparamos para O Outro Baile. Durante a edição e mixagem fizemos algumas poucas inserções de voz e percussão, usando trechos de gravações trazidos de outros momentos daquele processo.

Na etapa de elaboração do release, buscando verbalizar um ponto de vista da narrativa, um poema se deu e decidimos incorporá-lo como introdução.

Pensamos em dividir essa experiência com alguém que admirássemos e que pudesse nos dar suas impressões, um olhar de fora, artístico e técnico, sobre algo tão pessoal e cheio de significados subjetivos. Enviamos a Paulo Dantas que não só topou masterizar a faixa como ainda escreveu esse texto super inspirado, que inevitavelmente foi incluído no encarte:

O que diz a máquina

1.

Um dia desses recebi um convite para uma nova colaboração. Fiquei feliz com a proposta pois admiro bastante o trabalho do Guache, projeto com o qual já havia realizado parcerias em outras ocasiões. Em uma dessas, programei um show deles na série O Outro Baile, que organizei ao longo de 2019 com Gabriela Nobre e Dani Avellar. Foi uma apresentação que nos atraiu a todos, mesmo com tantas interferências externas.

*

Decidi aceitar o convite. Dessa vez, fui encarregado de masterizar um novo álbum, a ser publicado pelo selo Música Insólita. É uma faixa única, que traz o registro de uma sessão de improvisação feita a partir de ideias e ensaios para o show que fariam no Aparelho. Penso que não é coincidência que algumas das pessoas envolvidas naquele evento sejam as mesmas que, agora cumprindo outros papéis, levam adiante o projeto de realização deste lançamento.

2.

Recebo a máquina em minha casa. Os recursos de que disponho para analisá-la são limitados, mas já sei que nesses casos é preciso manter a calma, confiar nas minhas observações e no tempo. Aos poucos percebo que há certa frieza, cálculo e precisão na engenharia da coisa. Eu a coloco para funcionar uma primeira vez, e noto que o calor dissipado por ela é som. Nada acima e muito abaixo, ela segue por um caminho estreito. Mas não o do meio.

*

Do lado de fora, me esforço para entender o enigma que corre ali dentro, auscultando a máquina. Na troca, ouço uma voz. Percebo que ela diz algo, mas não consigo compreender o que é. “Não há sinal”, imagino que seja isso.

*

Peças que rangem, sim, mas apenas onde a elas é permitido ranger. Acumulações seguidas de liberações, em três grandes ondas. No interior do circuito, a imprevisibilidade do hiss e a alternância do hum. Ambos indicam a nossa localização: aproximamo-nos do silêncio. E então algo começa a se mover.

*

Suspeito o que devo almejar: a máquina deve poder flutuar, suspensa e intocada, para que possamos observá-la sem interferências. Dou alguns passos atrás, respiro, desligo tudo e recomeço. Limpo uma engrenagem ou outra, checo se há espaço o suficiente para que ela siga o seu próprio caminho e a ponho para funcionar novamente. Aos poucos, ela acontece.

*

É na suspensão que consigo ouví-la em seu estado puro, acolhendo o calor, a estreiteza e o ranger. Finalmente entendo o que a voz está, o tempo inteiro, tentando dizer. Nesse velho ritual, opero no limite apenas para encontrar-me comigo mesmo no silêncio do hiss, esgotado. Novo Lugar Esquecido.

3.

O lugar onde me deparo com a lembrança daquela apresentação, máquina que nos conduziu com segurança madrugada adentro. Aqui, a produção de sons se confunde com a de afetos.

*

“… sorte estar neste curto-circuito; sorte estar neste curto-circuito; sorte estar neste curto-circuito; …”

Paulo Dantas

Gil em estúdio com seu baixo VI. Foto: Luciana Melo

MI: Ao assistir o Guache tocando ao vivo, chama a atenção uma profunda introspecção por parte de vocês, algo que alcança também a plateia. É notável o esmero com o qual vocês deixam entrever a preparação dos shows, desde os instrumentos cuidadosamente escolhidos, alguns criados por vocês mesmos, até o desenvolvimento de um timing muito peculiar que conduz o ouvinte a um ápice de profunda atenção. Comentem qual é a relação de vocês com tocar ao vivo e como vocês percebem a cena de música experimental independente que costumam frequentar.

Lu: O desejo é que nosso diálogo comunique, flua em público com a mesma naturalidade de quando dialogamos na intimidade do home studio. Ao vivo tentamos remontar e relacionar nossos sets, buscando reproduzir o mesmo espaço íntimo no qual os sons que serão apresentados foram construídos e aprimorados… assim a introspecção é facilitada. Nosso set tem girado em torno de cordas, percussão e voz numa abordagem muitas vezes minimal… essa imersão é decisiva para que se estabeleça a conexão e o fluxo.

Gil: Embora tenha tocado com o In-sone por quase 10 anos, sempre fui muito focado no meu trabalho como luthier. Só recentemente, passei a frequentar mais os eventos com a Lu e a conhecer os artistas, os projetos e as ações mais de perto.

Há muita coisa interessante e pessoas verdadeiramente comprometidas fazendo acontecer e buscando promover um maior envolvimento do público com a cena. Presenciamos e participamos de eventos super acessíveis, que pessoalmente considero de um nível artístico altíssimo, produzidos a partir de um senso colaborativo que reflete uma atitude construtiva e consciente diante da difícil situação. Isso tem sido um grande estímulo. Transitar por ela é mais do que dar sequência ao nosso projeto artístico, é vivenciar uma realidade melhor, que a gente acredita, buscando contribuir, enquanto artistas e público, para mantê-la forte.

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