-ada / L£V1 ÄT4 – split

-ada é um dos projetos solo de Gabriela Nobre; L£V1 ÄT4 é o projeto solo de Victoria Levita, aqui reunides em um álbum no formato split apresentando, duplamente, suas cacotopias, ruídos de fim de mundo e humor ácido como forma de reinventar existências possíveis. Confira abaixo a conversa que tivemos com as artistes.

MI: Seu projeto reúne diferentes linguagens: arte visual, sonora, performance. Além disso, o nome remete a uma persona. É isso mesmo? Como e quando surgiu L£V1 ÄT4?

Victoria Levita: Sim, é isso mesmo. L£V1 ÄT4 (pronuncia-se Leviatã) começou a surgir como ideia em meados de 2018. Nessa época eu entrei em contato com as potências do mundo da produção musical. Em paralelo, sempre tive contato com o mundo da arte visual. Desde criança eu mostrava interesse no visual principalmente na forma do desenho, posteriormente eu entrei na faculdade de design gráfico e fui ampliando a gama de técnicas para manipular imagens. Chegando então a saturação do apenas visual quando me deparei com a possibilidade de produzir música. Eu sempre tive uma relação íntima com música. Quando criança fiz aulas de piano, meu avô era cantor de rádio e minha prima professora de piano e canto. Além disso eu sempre obtive muito prazer em procurar por artistas mais experimentais ou independentes na internet, enfim, conhecer sonoridades diversas. Consigo me lembrar claramente como a música me acompanhou diariamente em diversos momentos da minha adolescência, mas eu nunca tinha me percebido como produtore, até começar a experimentar com Ableton Live. Fui começando a criar som sem pretensão de um projeto maior. De início comecei explorando o uso de samples de fontes diversas, produzindo baterias e melodias com sintetizadores virtuais e outros VSTs. Chegando a uma identidade sonora baseada em plunderphonics, distorção, recortes e edição. Muito semelhante à metodologia que tenho ao criar imagens. 

Acho que é aí que surge L£V1 ÄT4 como projeto propriamente. Comecei a pensar na integração de todos esses conhecimentos acumulados ao longo do tempo. Como integrar imagens ao som? Como comunicar não só visualmente mas sonoramente e a possibilidade de coexistência e diálogos entre todas as mídias envolvidas. Em paralelo, ainda em 2018, iniciei estudos relacionados à eletrônica e programação que mantenho até hoje, e que influem também no projeto solo L£V1 ÄT4. O tornando não só uma junção audio-visual mas também um projeto multimídia, no qual corpo, espaço, som e imagem possam todos estar integrados e conversando entre si. Nessa época estive também pesquisando pseudônimos para lançar um projeto mais artístico e pessoal, o que acho que derivou de um lugar de desejo por mais expressão. Expressão de identidade e processos intuitivos que faltavam na minha vida atuando apenas como designer gráfico. Sempre mantive uma produção artística pessoal em paralelo, mais catártica e íntima, mas não mostrava para o mundo. 

L£V1 ÄT4 ao vivo na MONO, no Desvio, em 2019
Foto: divulgação

Então, entre anagramas e muitos nomes, me veio o “click”. Fazer um trocadilho com meu sobrenome: de Levita para Leviatã. Pesquisando a simbologia por trás deste nome descobri informações muito interessantes. A presença de Leviatã ou uma entidade serpente existe em diversas culturas, mitos e religiões. Uma entidade quase universal no imaginário humano. Na mitologia suméria e babilônica é a deusa Tiamat; na chinesa Nu Kua, deusa serpente, ambas representando a gênese de tudo. No vodu haitiano Dambalá é o Loá criador do cosmos. No candomblé seu equivalente é Oxumaré, o orixá que abriga tanto energia masculina quanto feminina e é a ponte entre mundos. Na mitologia cristã, Leviatã é retratado no Antigo testamento nos livros de Jó e Isaías. Na cultura hebraica é Livyatan, representando um dos sete príncipes infernais. Na mitologia católica, durante a Idade média o Leviatã representa o demônio do pecado da inveja, assim como também há a menção a entidade serpente que expulsou Adão e Eva do paraíso. Uma simbologia potente e talvez mal interpretada no cristianismo. A entidade poderosa, aquática e fluída que se refere tanto à criação quanto à destruição.

MI: -ada é um projeto paralelo ao seu b-Aluria. Conta qual é a sua proposta e como foi criado.

Gabriela Nobre: O primeiro show do -ada, nomeado como tal, aconteceu no O Outro Baile, série de eventos que fiz com Paulo Dantas e Daniela Avellar no Aparelho, ao longo de 2019. A data de estreia desse evento foi a data de estreia do -ada. Mas a ideia do projeto surgiu poucos meses antes disso, a partir de um convite do Bernardo Girauta para uma apresentação na MONO, série de eventos que aconteceu no Desvio, no Centro do RJ ao longo de 2019 também. E foi nesse contexto que toquei pela primeira vez “MOH (music on hold + drama existencial)”. Por alguma razão eu e o Verjault, com que dividi aquela noite, tivemos a impressão de que a apresentação funcionaria melhor com algum signo dançante envolvido, rs.

Há bastante tempo eu já tinha a vontade de usar esse tema de musica de espera telefônica da Cisco. E recentemente eu tinha revisto “Uma mulher sob influência”, do Cassavetes. Fico sempre profundamente tocada com a interpretação da Gena Rowlands nesse filme. E então essa faixa de estreia foi justamente a combinação improvável dessas referências, que foram trabalhadas de uma forma semelhante a como opero no b-Aluria: me apoderando das referências e borrando elas, criando novos sentidos nesse deslocamento.

-ada ao vivo na MONO, no Desvio, em 2019.
Foto: Daniel Alves.

Acho que o -ada surgiu de uma necessidade que passei a ter de agrupar sob o nome de um outro projeto uma serie de trabalhos que eu acho que não têm a ver com o b-Aluria. Por exemplo, quando eu não penso em usar voz e texto, necessariamente. Acho a sonoridade do b-Aluria já muito bem definida na minha cabeça, então não me sinto à vontade de tocar outros trabalhos sob esse nome.

Estreia do -ada nomeado como tal no O Outro Baile, Vol.1, no Aaparelho, em 2019
Foto: D
aniel Alves

MI: Assistir L£V1 ÄT4 ao vivo é uma experiência limite. Há uma performance radical em jogo que coloca em cena símbolos e discursos variados. Fala um pouco disso e de como foi concebido a faixa do split em parceria com -ada.

VL: Acredito que esse caráter radical das performances também vem muito da persona criada e invocada. Fazer um show é como invocar essa entidade herege que mostra tudo que existe sem esconder os aspectos contraditórios, hipócritas, caóticos e sombrios da realidade. Tem uma certa agressividade às vezes escancarada, em outras mascarada e mais ácida, mas advinda desse lugar de raiva mesmo, de inconformidade com a realidade e suas injustiças. A dualidade do Leviatã nas múltiplas culturas é de certa forma uma das mensagens sendo evocadas nas performances. Os temas abordados são sempre indigestos. E como toda realidade indigesta, ela pode ser encarada como um potencial para criar algo diferente ou silenciada e vista como algo “mau” e “herege” apenas por ir contra o status quo. Quanto à estética, gosto do excesso, do distorcido, de loops, repetições, fragmentos e velocidade entre a passagem dos símbolos e mensagens. É uma estética caótica porque acredito que representa bem a nossa época.

“Ao vivo a performance reforça esse deboche da dor. Mas mais que um deboche da dor, é a capacidade de olhar com humor para as dificuldades envolvidas em existir no mundo e transmutar a dor em potência de vida”.
L£V1 ÄT4 ao vivo na MONO, 2019.
Foto: divulgação

Os meios tecnológicos sendo usados na produção também dialogam e falam sobre nossa realidade densamente digitalizada, fragmentária e excessiva em símbolos e signos. Geralmente em um show ao vivo eu uso sets pré produzidos e vocais improvisados com um microfone de contato preso na minha garganta. Confeccionados por mim, os mics de contato amplificam a voz ao mesmo tempo que a distorcem, vejo como uma metáfora pro silenciamento e distorção dos discursos e vozes, uma dinâmica constante e presente na sociedade. Nos trabalhos que envolvem visuais a mesma estética caótica e cyberpunk está presente através de colagens de imagens estáticas ou em movimento, imagens hackeadas e corrompidas, imagens geradas em programas escritos por mim, enfim, os meios são as mensagens. E as possibilidades de articulação entre formatos, mídias, línguas e códigos é infinita. Tornando o projeto passível de experiências diferentes a cada vez e progressivamente mais complexas e integradas. Para shows futuros tenho a vontade de integrar visuais às performances e trazer também a interatividade do público com o objeto final.

Screenshots de vídeo para o f(r)estas, evento online de 2020.
Imagem: divulgação.

Quanto ao split, -ada me convidou para participar. Em Outubro de 2019. Eu fiz meu primeiro show ao vivo e a faixa usada nesse split foi composta como set para esse debut de L£V1 ÄT4. Sendo muito especial e significante tanto o primeiro show como a oportunidade de lançar essa faixa junto de -ada. O conteúdo da música também é bem sensível e íntimo para mim. Fala sobre traumas de infância, sobre a vontade de morrer vinda de distúrbios mentais e a vontade de morrer vinda da experiência de existir no mundo que vivemos. Ao mesmo tempo que o tema é super sério e sensível, esteticamente ele é tratado com humor através das distorções e dos samples usados. E ao vivo a performance reforça esse deboche da dor mas mais que um deboche da dor, é a capacidade de olhar com humor para as dificuldades envolvidas em existir no mundo e transmutar a dor em potência de vida. A faixa de -ada também é semelhante em estética e em temática, ambas abordam trauma. E até por isso o convite foi feito. A mixagem das faixas também foi feita por -ada e juntes nós desenvolvemos a arte para a capa e formatos para o lançamento. Decidimos gravar o split em versão digital e em breve gravaremos em fita cassete. Só tenho a agradecer a Gabriela e ao Música Insólita pelo convite e oportunidade.

– Para ouvir mais de L£V1 ÄT4:

https://www.instagram.com/l_3_v_1_a_t_4/

@l_3_v_1_a_t_4

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soundcloud.com/lev1at4n

@lev1at4n

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youtube.com/channel/UCgvhe_aErvxhTDka5Pbfamg

@L3V1 AT4

Para ouvir mais de Gabriela Nobre:

https://b-aluria.bandcamp.com/

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