Música das cinzas – Ambiências sonoras para baixar o seu astral, Vol 2. (2014-2020)

Música das Cinzas é o projeto de noise de Alessandro Santana, em atividade desde 2004, que conta com ampla discografia publicada. Ambiências sonoras para baixar o seu astral, Vol 2. (2014-2020) é uma coletânea que busca enfatizar o seu intenso trajeto, além de contar com faixa inédita e trabalhos em parceria.

MI: Conta um pouco sobre a sua trajetória na música até aqui. Como e quando seus interesses por sons começaram?

AS: Creio que tudo começou quando vi um disco rodando na vitrola, ainda no final dos anos 70. O universo sonoro me encantou. Meu pai, além de cursar violão clássico no conservatório de música na década de 80, ainda tinha uma bela coleção de discos: de Beethoven e Chopin à Black Sabbath, passando por boleros, sambas, etc. Acredito piamente em ter ouvido todos os discos dessa coleção antes dos 8 anos de idade. Tive minhas primeiras aulas teóricas de música numa igreja evangélica até q fui expulso por não frequentar os cultos. Quando adolescente, na década de 90, criei e toquei em bandas de punk rock, noisecore e crust a exemplo da Los Repugnantes, Gangrena Social e Plasma, respectivamente. Na juventude, me interessei mais por harmonias e melodias, influenciado pelos Buzzcocks, criando uma banda meio garageira, meio shoegazze chamada Hair Without Head (2007 – 2001).

Entre 2001 e 2005, formou-se a Clister, duo com Bruno Pinheiro, colega de faculdade, onde as experimentações só se intensificaram. Ainda em 2004, paralelamente à Clister, e como pesquisa pessoal, criou-se o Música das Cinzas – que sou eu mesmo – em pessoa, gênero, número e grau, até os dias de hoje, nesses 16 anos de existência. Por falar em existência, creio que fica fácil notar o caráter do mal estar existencial nas obras, dos títulos aos sons e às sensações que estes remetem.

MI: O disco “Ambiências sonoras para baixar o seu astral, Vol. 2” (Música Insólita, 2020) é uma coletânea que compreende produções de 2014-2020. Como foi o processo de seleção do material escolhido? Comenta um pouco sobre a concepção do álbum.

AS: Como a curadoria foi minha mesmo (creio que ninguém melhor que eu para essa tarefa), visto que a concepção desta coletânea foi de abrir uma amostra da vasta produção desses 6 anos: foram 9 álbuns, sendo dois deles em parceria; dois EP ́s, um single e dois splits. Daí, a ideia era apresentar numa ordem sensata, objetivando demonstrar uma ordem (quase) não cronológica, deixando esse rastro sonoro de uma forma compreensível nessa esfera atemporal, além de faixas inéditas ou reeditadas para esta compilação. Acredito que essa compilação, embora não linear, possa situar o ouvinte num todo, transitando entre os experimentos sonoros.

MI: Você tem uma grande quantidade de trabalhos relacionados à videoarte publicados, desde filmes, curtas; passando por criações visuais, tais como colagens, quadros etc. Parte dessa produção foi lançada pela produtora que você criou, a Faz o que pode Produtora. Conta um pouco sobre a sua relação com as imagens.

AS: Eu me considero um artista multimídia, não por nada: quando eu canso de fazer uma coisa, vou fazer outra. Acho que o importante mesmo é estar produzindo e expurgar um certo incômodo, uma certa dor… A linguagem artística que é aproveitável com aquela ideia, naquela hora. Talvez uma combinação no tempo-espaço seja o que me leva a fazer tais obras.

Sou da geração do final dos anos 70 que foi metralhado por imagens, sejam de TV, Cinema, publicidade, revistas em quadrinhos… Talvez tenha sido assim meu primeiro impacto com as imagens, e a comunicação através delas se reflete nas minhas colagens em papel, telas, até os curtas sensoriais / catárticos (como em LUX, 2008, produzido sobre uma música pré existente
de Alexandre Fenerich), o documentário Alada Palavra (2012) e Arquitetando o fim do mundo (2013) e ficção como em A eterna maldição do cacique Serigy (2009). A produção artística tem que escoar junto com a dor, independente da linguagem artística utilizada. Academicamente, sou especialista em artes visuais. Mas… e daí? Faço som também.

Alessandro Santana idealizou o Música das Cinzas em 2004, projeto que segue produzindo há mais de uma década

MI: Você está há bastante tempo acompanhando a cena, quase que de uma forma “solitária”, sem se filiar a selos ou coletivos. Mas por outro lado transitando muito bem desde a cena hardcore a de música experimental dita mais acadêmica. Queria que você falasse um pouco sobre as suas inserções nas diferentes cenas independentes ao longo do tempo, e comentasse como você as percebe agora.

AS: A solidão é minha companheira desde que eu me entendo por gente. O garoto
que sentava na bola pra ler um livro, sozinho, no quintal de casa. Minha forma ‘solitária’ é uma questão talvez existencial. É assim que eu vivo no mundo, e nada mais justo do que ser assim em tudo o que eu faça. Talvez eu seja um autista. Talvez eu tenha me tornado um adulto confuso com o excesso interno e a falta de comunicação externa. Como externar? Em arte, certamente.

A cena hardcore é minha cama desde a primeira metade dos anos 90. A música experimental já me despertava interesse, achava legal escutar umas barulheiras, umas coisas mais ‘cabeça’ ou ‘esquisitas’, mas agora sei como propor metodologias e direcionamentos para este tipo de música, que é o que eu venho a fazer agora.

Sobre participações em coletivos, ainda nos anos 90 tive uma decepção com essas coisas de coletividades, coletivos, etc. Desde então, olho com desconfiança: não participo e olho de longe. Posso até achar bonito, mas me sinto e quero estar fora disso aí. Me descobri um indivíduo na forma literal da palavra, que não é necessariamente um participante de sociedades.

Hoje eu percebo que todos os ‘participantes’ desse cenário independente já se conhecem, ou alguém é conhecido do conhecido. É tipo cidade pequena: quem não é parente, é conhecido. Minhas inserções nas diferentes cenas independentes ao longo desse tempo todo, provavelmente vem da minha particularidade em fazer determinadas coisas. É assim que eu as percebo agora. Às vezes, minha desconfiança me faz achar que ‘nessa cidade estão tirando proveito de mim’ (não gostaria de entrar em detalhes). Em resumo: eu sou um sujeito sujo que
se sujeita à várias peripécias. Inclusive às que não vão dar em absolutamente nada.

MI: O que você ouve e quais são suas principais referências?

AS: Ouço de tudo um tanto. Na música, já estou cansado da canção; daí escuto uns ruidinhos para acalentar o coração. Tenho projetos particulares, alguns dos quais nunca foram lançados – existem apenas as gravações para uma suposta ‘auto satisfação’, quando na verdade é um estudo de gravação e mixagem, por exemplo: fazer desse ou daquele jeito, isso ou aquilo.

Eu realmente não me atenho a ficar catalogando tudo o que eu gravo / faço: é uma vomitada. Vomito e vou dormir porque amanhã é outro dia, e assim tem mais uma peça pronta, um álbum pronto, e até, às vezes, vou produzindo sem me dar conta do volume, do excesso…. Eu sou uma pessoa que crê viver do excesso em todas as coisas na vida. Um filme, um livro, um disco, uma pixação, um rolê num ambiente desconhecido… tudo é referência pra mim. Como já citei anteriormente, agora eu sei o que fazer com esses estímulos sonoro visuais que me chegam. Por exemplo, hoje, eu tinha planos de mixar mais uma faixa
para compor a trilogia do isolamento, exatamente enquanto respondo essa entrevista. Nem sei se fisicamente e psicologicamente consigo, mas as ideias estão guardadas. Compor, pra mim, é expor uma carga explosiva diante do detonador.

MI: Como alguém pode conhecer mais do seu trabalho?

AS: https://musicadascinzas.bandcamp.com/music
Breve, com porcarias de outrora, remasterizadas para tentar compor uma peste de discografia. Eu realmente não me importo se tudo estará lá. Eu realmente não me importo mais com absolutamente nada. SE EU MORRER, TÁ TODO MUNDO NO LUCRO.

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