Bruno Trchmnn e Gustavo Torres -Guitarra

Bruno Trchmnn é natural de Campinas-SP, onde trabalha como professor. É metade do duo de punk abstrato Cama Rosa com Cindy Lensi e desenvolve uma prática constante dentro do improviso e da música experimental, sozinho e em diversas parcerias e colaborações. Também produz textos e reflexões teóricas sobre esta prática sonora e suas intersecções/contradições políticas. Gustavo Torres trabalha e vive no Rio de Janeiro, onde atua como artista sonoro e visual. É metade do duo de baixo/bateria Bronte e do duo de guitarra/guitarra e objetos Acitatse, além de diversas parcerias, colaborações e trabalhos solo. Para a ocasião do lançamento de “Guitarra”, conversamos com Trchmnn sobre guitarra, clichê e mais guitarra.

Música Insólita: Conta um pouco sobre a sua trajetória na música até aqui. Como e quando seus interesses por sons começaram?

Bruno Trchmnn: Então, eu não tive a chance de ter uma relação mais orgânica com som quando era mais novo, porque eu nunca consegui tocar em nenhuma banda até uns 21 anos. Eu nunca consegui aprender a tocar nenhum instrumento até lá, eu ganhei uma guitarra na quinta série mas nunca consegui tocar. Essa guitarra foi uma grande frustração, as aulas eram horríveis e por anos eu não conseguia entender nem mesmo o que era uma nota e que as cordas eram afinadas em diferentes notas. Eu não conseguia distinguir um tom de outro, eu meio que me convenci que se não podia tocar guitarra eu ia desenhar, e fui nesse caminho, vendi a guitarra. Engraçado que eu fui ter a chance de tocar em uma banda anos depois, quando entrei no curso de artes visuais e me chamaram pra participar de uma banda meio folk, tocando qualquer coisa, tipo pandeirola e uns instrumentos de brinquedo. De forma absurda, acabei tocando violoncelo. E eu fui meio que tateando nessa banda como poder tocar, é incrível que me deixaram participar por tanto tempo, porque eu de fato não sabia distinguir os sons. Eu podia tocar a nota mais dissonante e não percebia. Eu pegava os acordes das músicas, escrevia num papel e depois marcava nos instrumentos para saber quais notas combinavam mais. Depois eu fui entendendo melhor, até que uma hora reconheci o que era uma dissonância. Eu inventei vários métodos desses pra conseguir me inserir nas músicas, as vezes até chegando em drones, ruídos e essas coisas que permanecem muito até hoje. Mas nenhuma dessas abordagens lidava diretamente com o som, porque o som era um mistério pra mim, eram abordagens mais visuais ou conceituais. O que é muito engraçado, porque o resultado das minhas partes não era nada demais, era tudo muito simples. Mas minha relação com som foi muito de bater a cabeça contra uma parede até atravessar, pura teimosia. De certa forma, querer estar numa banda era até mais importante que o som, a parte social era muito mais importante. Isso ainda é muito forte pra mim, de certa forma.

MI: Como foi o encontro entre você e Gustavo Torres que resultou no disco “GUITARRA” (Música Insólita, 2021)? Vocês dizem que nada foi definido, então o que foi pensado a posteriori para que o material se tornasse um disco?

BT: A gente falava sobre gravar algo juntos há um bom tempo, mas nunca rolava uma chance. Eu sempre falava da gente gravar improvisos, mas o Gustavo sempre dizia que preferia que a gente criasse alguma estrutura. No final deu certo dele estar em São Paulo com alguns dias livres, e marcamos três dias em um estúdio aqui em Campinas, dois de ensaio e um de gravação. Então pudemos improvisar por dois dias e no terceiro estruturar os elementos que surgiram dessas improvisações em uma sequencia de ideias. Então cada trecho dessa gravação era a gente executando uma determinada ação que surgiu nos dias anteriores. Tipo, primeiro vamos fazer aquele lance depois aquele outro ali, uns movimentos específicos. Depois foi ouvir e ver o que ficou interessante. O Torres é bem mais exigente que eu, e foi ótimo que ele cortou muita coisa, ficou só o essencial dessas sessões, essas combinações de abordagens diretas. São coisas bem simples, sem grandes técnicas estendidas ou algo assim. Não tem nenhum movimento aí que você não fosse fazer numa banda punk qualquer que fosse. A gente só usa esses movimentos de forma mais abstrata. Mas é uma abstrato tosco.

MI: Na sua dissertação “Drone, Rock, Revolução: teoria crítica e prática crítica a partir de Henry Flynt”, me parece que, entre outras coisas, parte da sua pesquisa é pensar em meios não hierárquicos de expressão no que convencionamos nomear ‘música experimental’. Queria que você falasse um pouco sobre isso e fizesse a crítica, se couber, ao termo ‘experimental’.

BT: Bruno: Então, eu acho engraçado que muita gente se incomoda com o termo experimental, mas eu não acho nada demais. Entendo muitos desses problemas, mas eu não consigo me incomodar. É engraçado que seja tratado como um gênero, sendo que é mais uma abordagem. Se você parar para pensar, praticamente toda a música popular e folclórica é experimental. Tem um paragrafo sobre isso no texto que eu escrevi com o J-P Caron, “Gato Tosco contra os Tigres de Papel” (https://lavrapalavra.com/2020/06/04/gato-tosco-contra-tigres-de-papel/):

“A partir dos anos 60, se constrói uma nova abordagem sobre a prática experimental em música (e nas artes em geral), que dissolve as fronteiras entre alta e baixa cultura, entre a vanguarda e o popular. Nisso temos o desenvolvimento de uma prática experimental da música que pouco se difere das práticas populares. Mais do que pensar na maneira como essa dissolução de  barreiras se dá sobre os aspectos formais daquilo que é produzido, essa dissolução de barreiras se da também nas formas sociais e organizacionais do fazer artístico, as formas em que essa nova música radical circula e é elaborada. Não seria difícil pensar a improvisação livre, o drone, o noise, o free jazz e o punk como formas culturais urbanas e mundiais, que circulam em estruturas tão comunitárias quanto eventualmente apropriadas pelo mercado.”.

Eu me interesso por abordagens de fazer música que sejam abertas a todos, mesmo que hoje em dia eu não saiba mais dizer exatamente o que isso seria, ou que haja qualquer necessidade de que essas sejam as abordagens mais importantes ou algo assim. Eu acredito que a circulação da cultura e a democratização radical do acesso as ferramentas para produzir cultura devem ser a preocupação central. Mas, no meu caso, foi muito importante encontrar essas abordagens “experimentais”, do ruído, o drone, o improviso, para que eu conseguisse me envolver na música tendo toda dificuldade que tinha. E voltando ao lance do gênero, mesmo eu dizendo que toda música popular é experimental, não dá pra negar que algumas coisas parecem mais “fora” que outras. Tem coisas que você tem que olhar com atenção pra sacar o quanto são experimentais, outras você precisa olhar com atenção para perceber que na verdade não são tão diferentes ou estranhas assim. Acho que hoje em dia eu falo mais sobre uma “vanguarda popular” nesse sentido. Acho que a importância central disso é você se perceber ombro a ombro com tantos outros sujeitos de todo lugar.

MI: O disco de vocês é construído a partir da relação entre guitarras. E no release do disco vocês mencionam diferentes sentidos e contextos para esse instrumento. Qual história (ficção?) sobre a guitarra te interessa mais? Digo, se você tivesse que apresentar uma linha do tempo sobre a guitarra, quais momentos caberiam na sua seleção?

BT: Tem aquele velho clichê falando de guitarra, que é dizer que a guitarra não é um instrumento, mas que a guitarra + amplificador é o instrumento, o que é verdadeiro porque é obvio. Então eu penso muito na guitarra como esses dois elementos, da eletricidade + o volume. Meu primeiro instrumento foi o violoncelo. Eu demorei muito tempo para conseguir tirar um som alto e forte do violoncelo. Ainda mais por ser um instrumento que, ao contrario do contrabaixo ou do violino (ou mesmo a viola), não tem nenhuma “tradição popular” ou algo assim. Ele meio que só existe nesse “lugar orquestral”, então tem esse lance: só com uma boa técnica você vai conseguir um som alto, forte e cheio. Agora, com uma guitarra você consegue o som mais alto e forte do que qualquer virtuose usando apenas um dedo se quiser. Pra mim a guitarra é isso, é essa conquista de eletricidade. A guitarra elétrica surge para que possa ser ouvida dentro das big bands, rodeada por instrumentos muito altos, saxofones e trompetes. Você tem essa descoberta da eletricidade, do volume. E como toda descoberta, tem esse potencial de emancipação, e acho que representa essa emancipação da técnica. Existe todo um revisionismo em cima disso, claro, com a construção dos guitarristas virtuoses e todos os dogmas de revista e loja de guitarra. Mas a guitarra permite que ações muito simples produzam sons muito fortes, a eletricidade e amplificação em geral, permite que algumas estruturas simples possam ser ensurdecedoras. O punk foi possível por isso, eu acho. Mas mesmo com algo como rock negro e o blues, essas formas de expressão que deveriam existir isoladas na sociedade, tem a potencialidade de serem ensurdecedoras. A eletricidade corre o mundo. Em todo lugar, você tem gente eletrificando seus instrumentos. Ouds eletrificados estourando alto-falantes movidos a gasolina no Marrocos, phin elétricos no interior rural da Tailândia, o Jacob do Bandolin plugando um violão tenor em um amplificador de órgão.

A guitarra é um instrumento muito generoso, haha. É um instrumento onde alguma tentativa medíocre de imitar alguma outra coisa pode gerar um resultado interessante em si próprio. Você pode tentar imitar um som ou linha linda de saxofone ou veena, falhar miseravelmente, e ainda assim acabar com algo que por si só é interessante. Se estiver alto o bastante. É um instrumento muito aberto ao erro, e isso é por causa da eletricidade. Qualquer movimento pode se tornar essa massa abstrata de puro som. E ainda assim, é tudo muito humano. Eu acho a eletricidade muito importante na cultura, é um elemento emancipatório e democrático, e isso vale para o som também.

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