em extinção – ich bin ich

em extinção é um dos projetos de Rayra Pereira da Costa que transita entre o noise e o drone doom. A utilização do ‘no input’ é sua marca registrada, na busca por gerar sons sustentados e repetidos. Artista e professora, pesquisa circuitos eletrônicos e materiais capazes de gerar ruído. Parte de sua pesquisa serve como base para suas composições, performances e construções de objetos sonoros. Compoe, ainda, trilha sonora, ilustrações, cartazes e colagens analógicas. Leia a conversa que tivemos pela ocasião do lançamento de “Ich bin ich”.

em extinção ao vivo. Foto: Régis Bezzera

Música Insólita: Seu primeiro foi publicado em 2017. Conta como foi o início do em extinção e a sua trajetória até aqui? Antes de trabalhar com arte sonora você
teve alguma relação com alguma outra cena?

Rayra Costa: A ideia teve início em meados de 2016 no campo da curiosidade/pesquisa e no processo criativo sobre o funcionamento do no input mixer (retroalimentação), já que sua consolidação enquanto gênero artístico e suas definições eram inexistentes. Depois de um tempo pesquisando, tocando sozinha e divulgando vídeos aleatórios, alguns amigos me convidaram para parcerias e apresentações dentro e fora da cena experimental, também utilizando outras linguagens artísticas. Foi então que surgiu o projeto ‘em extinção’, que busca uma sonoridade saturada e sua “decomposição” faz uma analogia a sociedade e como ela se relaciona com o ambiente, trazendo a ideia de futuros perdidos, da distopia, e sintetizando uma arte emblemática de negação.

Essa possibilidade de interação com outras paisagens tem acontecido de
maneira espontânea, mas sempre focando em uma análise sobre o conceito de ruído. A narrativa se dá de modo não linear, compondo a partir de tempos fragmentados, sobreposições, repetições e deslocamentos.

Sobre a parte funcional do projeto, além do no input (retroalimentação feita em mesa de som) utilizo pedais de efeito, objetos do cotidiano, tape loops e toca fitas para compor. Não sei dizer cronologicamente, mas ocorreu um despertar por apreender eletrônica, resultando na construção de objetos rudimentares que aos poucos têm feito parte do meu processo criativo e das apresentações.

A primeira cena que participei foi no movimento punk. Por muito tempo morei
em Santo André, região do Grande ABC, cenário das greves e passeatas com a
representatividade da classe operária, do subúrbio, e claro, dos punks do ABC.
Em 98 tive contato com a cena punk da região, fui assistir “Existe Alguém + Punk do Que Eu?”, fiquei muito animada com aquelas pessoas esquisitas e logo estava fazendo parte da cena. Eu era ativa no movimento, estava sempre nas passeatas, participava dos debates, escrevia zines e tocava em bandas.

MI: No em extinção você opera muitas vezes no limite entre arte sonora e arte
visual. Em alguns outros projetos dos quais você faz parte isso é algo que também está presente: a importância da performance, a criação de algum dado
visual que crie um registro de performance para o espectador. Fala um pouco
sobre isso e sobre seus projetos em parceria, o exílio (com Olivia Luna),
Canção de Matar (com Talita Araújo), e Subtexto (com Bruno Dicolla).

RC: Me interesso pelo hibridismo na arte como ferramenta de expressão e
comunicação, associada a novos significados. Pode ser videoarte, colagens, performances, zonas de tensão, questionamentos, sensações… logo a questão visual está inserida nos projetos em que participo.

o exilio, projeto com Olivia Luna, que é artista e pesquisadora visual e sonora, trouxe para o duo um pouco dos seus extensos estudos do corpo/paisagem e o grotesco, relacionando com a fotografia, vídeo, gravura e ruídos. Buscamos uma atmosfera misteriosa e experimental na qual exploramos frequências densas que combina gêneros, incluindo dark, drone e noise, procurando explorar sensações no corpo produzidas por essas vibrações.

Rayra Costa é artista e professora, pesquisa circuitos eletrônicos e materiais capazes de gerar ruído. Parte de sua pesquisa serve como base para suas composições, performances e construções de objetos sonoros. Foto: Bruno Dicolla

O projeto de performance Canção de Matar, é um ritual ruidoso baseado na
sobreposição de efeitos eletrônicos (eu) e do trompete (Talita Araújo de Jesus),
entremeado por ações visuais como escrever em fotografias antigas e xerocadas, cobrir-se e revelar-se, falas e silêncios , construir e destruir.

Eu e Talita (atriz, historiadora, diretora de teatro e cinema) tivemos nosso
reencontro no teatro, quando fui assistir Trotsky – peça para televisores e não
televisores, na qual ela atuava e dirigia. Depois desse dia passamos a fomentar
a ideia sobre a necessidade em montar um projeto de performance sonora que
atentasse ao problema da ideologia domesticada, respaldada pelo estado e
suas instituições, e que transitasse por diversos espaços. Essa adaptabilidade
de encenação está relacionada a vontade de friccionar as ideias em variadas
configurações a fim de investigar possibilidades sonoras, gestuais e plásticas.

Agora falando sobre o projeto mais recente, Subtexto, no qual toco ao lado do
Bruno Dicolla, que é artista, motion designer e diretor, tem pesquisado e
produzido videoarte. Subtexto apresenta paisagens sonoras fragmentadas, palavras e sons subdivididos, que foram repartidos em partes ou frações menores.

A proposta foi reciclar um poema de Vasily Kandisky, do livro Kläng, através da sonoridade, em vez do significado literal. Mudando a ordem das palavras e do som, o objetivo foi criar uma colagem sonora usando drones saturados, samples e ruídos.

Falando um pouco sobre cada projeto, podemos ver que todos os integrantes
estão de alguma maneira conectados a representações de expressões
artísticas, e ao somar essa experiencia individual dentro do processo criativo
cria-se o registro do visual.

MI: Fala um pouco sobre a concepção do “Ich bin ich” (Música Insólita, 2021)? Como surgiu a ideia, quais são as referências em jogo, qual material você
utilizou na composição do disco?


RC: Eu tenho um pouco de dificuldade em compor pensando em uma referência, a não ser quando alguém me traz uma referência, como é o caso das trilhas
sonoras que têm uma história seguida de cenas, ou nos projetos que participo,
então boa parte do processo criativo é quase intuitivo. Normalmente início com
uma frequência, sobrepondo camadas, inserindo ruídos, falas, esgarçando
tempos, decompondo sons e por aí vai. Já os objetos que utilizo na composição esses sim são previamente pensados, sempre faço alguns estudos e possibilidades de uso, mas também já aconteceu de gravar esses estudos e
depois usar em algum álbum.


Para a concepção do álbum utilizei a mesa de som pra fazer no input que é a
base de tudo. Captadores de contato, delay e algum outro pedal, talvez um
metal zone, toca fitas e um pequeno trecho de uma musica que já estava na
fita, um motorzinho, voz, uma tigela de metal com uns parafusos gigantes e umas coisas de metais para ressoarem em quanto vibrava em cima do amplificador, uma guitarra tonante modificada com duas cordas de baixo. Também teve uma secretaria eletrônica na ultima faixa. Acho q foi isso!

Já existia a vontade de lançar algo pelo selo Música Insólita, e essa foi a
direção que eu tomei para compor o “Ich bin ich”. O álbum são relatos da minha
quarentena, algumas ideias soltas que volta e meia se amarravam. Aos poucos
foram surgindo as músicas até concluir o álbum. O nome é uma expressão em
alemão, li em algum lugar, não lembro onde, procurei o significado, abri o
primeiro site que deu vontade e trava lá – Du bist Judah und ich bin ich – Tu és
o Judah, e eu sou eu. Lendo agora deveria ter usado a tradução como título do
àlbum, to achando legal! Mas intenção era fugir um pouco da cansativa ideia de
tudo ter um contexto, só queria um nome e assim ficou.

MI: O que você ouve? Você diferencia o som que ouve por prazer e o que ouve
como fonte de pesquisa?

RC: Nossa, escuto tanta coisa! Gosto de ouvir meus amigos e os amigos dos
amigos, porém não memorizo o nome de quase nada… se existisse uma
tecnologia para melhor o meu cérebro, ia adorar, rs. Vou colocar alguns aqui,
mas essa pergunta é imensurável – os selos, Música Insólita, Seminal Records,
Clausura, Fat Zombie, Estranhas Ocupações, Música de Ruido, André Damião,
God Pussy, Rosa; as fritações do meu amigo Luiz Eduardo Galvão vulgo Titcha,
Vazio, Nuclear Frost… Curto bastante um canal do Youtube que chama
Traditional Music e o The Noise-Arch Archive – esse último tem muitas capas
bonita! Ah tem muito mais… e tem os i-doser.
Não existe diferença de som por prazer ou pesquisa eu apenas escuto e meu
subconsciente faz o desserviço de usar como quiser.


MI: Qual é a sua relação com a cena experimental independente e como você a percebe?

RC: Minha relação com a cena experimental independente, a princípio, era apenas como ouvinte-público, hoje participo apresentando algum projeto e teve
algumas vezes que organizei eventos, como o Nota de Pesar ao lado de Thiago Miazzo (selo clausura e seus mil pseudônimos) e Igor (Estúdio Mitra) e o Noite Noise com Renato Gimenez (RG Noise City e Vazio), Anderson Gordo
(D.O.M. e selo FAT ZOMBIE) e novamente Thiago Miazzo.

Atualmente tenho percebido muitas iniciativas na cena experimental e sua
saída do meio acadêmico proporcionando novas conexões e trocas, temos a
crescente das mulheres, ainda que de maneira tímida, a participação de
transgêneros e não-binários e de outros gêneros musicais e linguagens
artísticas.

MI: Indique aqui sites que você acha importante para quem quiser conhecer
mais do seu trabalho.

RC: em extinção/Rayra Costa
https://emextincao.bandcamp.com/
https://www.youtube.com/channel/UCq9iSuJCpOQ_anhDA3M_Z4ghttps://seminalrecords.bandcamp.com/album/nereide
https://www.instagram.com/rayracosta/

Subtexto
https://seminalrecords.bandcamp.com/album/subtexto

o exílio
https://www.instagram.com/o_exilio_/
https://www.youtube.com/watch?v=1g0dlCdTeug

canção de matar
https://www.instagram.com/cancaodematar/
https://www.youtube.com/watch?v=68PicBfL6os

Coletâneas e participações:
https://soundcloud.com/aa-mig/a-mig-067-em-extincao
https://esmectatons.bandcamp.com/album/xenochrony-and-zanny-chronicles
https://fazedoresdesom.bandcamp.com/album/15-volume
https://kovtun.bandcamp.com/track/urucum-feat-rayra-costa
https://sisterstriangla.bandcamp.com/album/feminoise-latinoamerica-vol-2
https://mansardarecords.wordpress.com/2018/09/11/msrcd095-ciclo-sonicas-5-
ao-vivo-no-lugar-12-08-18/
https://mansardarecords.wordpress.com/2018/11/19/msrcd097-mygalomorph-
teias/
https://www.youtube.com/watch?v=aHX_0gNsc64

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