leo alves & juan antonio nieto – Data

Leo Alves é compositor, artista sonoro, professor e ativista. Juan Antonio Nieto é artista sonoro espanhol. “Data”, fruto de dez anos de trocas e conversas entre os artistas, marca sua segunda colaboração.

Música Insólita: Conta um pouco sobre a sua trajetória na música até aqui. Como e quando seus interesses por sons começaram?

Leo Alves: Respondendo de trás para frente a pergunta, acho que meu interesse por sons, para não falar  na música, remonta à minha infância. Uma imagem que eu tenho por exemplo é de minha mãe, que costumava colocar uma série de panelas e utensílios de cozinha de variadas texturas dentro de um grande saco, lá pros meus 4 a 6 anos de idade ficava arrastando para lá e para cá esse saco, dizia ela que eu brincava de uma maneira assim muito introspectiva então, ficava viajando naquilo, inserindo objetos dentro de objetos pra ver o resultado, coisas assim. Depois, com uns 7 ou 8 anos, ganhei um gravador basicão Panasonic, portátil, onde escutei minha voz e outras gravadas pela primeira vez. Uns anos adiante, pré-adolescente, ele deu boas experiências e colagens aliado a um double deck num 3 em 1 gradiente também basicão. Fazer overdubs, usar o botão de pause pra mudar a rotação, mesclar sons de vinil, manipular os vinis, etc.

Mas para fazer uma ponte mais rápida, em termos de som em si (nem curto tanto essa expressão, enfim), esse aspecto no meu raio de interesses vem talvez com a música eletroacústica, acusmática ou até mesmo a música concreta, descobrindo meio sem querer um programa de música contemporânea na rádio MEC – tinha 16 anos de idade por aí. Numa tempestade e sem energia, liguei o radinho, e esse programa vinha depois do programa de big bands que eu já acompanhava. Passei a ouvir sempre e dividir aqueles sons que gravava em K7’s com grandes amigos como Mário Travassos. Na verdade, ele que me chamou atenção para outro programa que veiculava música eletroacústica mais especificamente, e foi a primeira vez que ouvi o termo. Nos dias de hoje, esse desejo por pesquisar, escutar, explorar os sons, digamos que se encaixa no conceito abrangente e diversificado da arte sonora.

Recentemente, tenho me interessado e aventurado mais nesse campo, que não envolve a música necessariamente. Minha trajetória na música então se deu quando comecei a fazer trilhas sonoras para curtas-metragens. E o primeiríssimo foi o “Fantasma do Theatro Municipal”, do Luis Carlos Lacerda, o bigode, e outras produções universitárias. Mas foi no teatro, fazendo direção musical, trilha sonoras e viajando com as peças, que fiz uma trajetória mais profissional, com algum “retorno” real. Por outro lado, meu trabalho autoral foi se encontrando num lugar, digamos, mais underground ou mesmo o acadêmico. Isto é, um tipo de música – vamos chamar de música experimental, eu prefiro o termo exploratória, mas enfim- que não tem mercado, ou se tem alguma saída de auto sustentabilidade, é raro e provavelmente não se encontra no nosso país. Mas sim, muitos artistas que fazem música experimental encontram uma carreira um pouco mais autônoma no âmbito da arte sonora, na galeria por exemplo. De tal forma que a partir de 2002 minha produção musical vai pela seara da exploração e da pesquisa curiosa abertamente, não só por causa da universidade onde me formei em composição, mas muito mais até pelo circuito underground eu diria, e a vivência com essa galera: o Plano B no Rio de Janeiro por exemplo, o Iraq no Recife, Ibrasotope em São Paulo, só pra citar uns catalisadores destas cenas.

A partir de 2006 então pouco a pouco fui vendo que a música escrita, a música de concerto, por mais exploratória que pudesse ser, não era muito lá meu barato afinal. Levou um tempo para, de certa forma, desmistificar isso nos meus desejos. Como no ambiente acadêmico e da música de concerto naquela época (2000’s) grassava esse ranço eurocêntrico, né? Ainda graça? A ideia romanceada do “criador”.  Enfim. Deste ano de 2006 em diante, quando saiu meu primeiro disco solo, entre novos álbuns e compactos online, me apresentei ao vivo, fiz performance, fiz um pouco de videoarte, instalação sonoro performativa e agora depois de 10 anos retomo a produção fonográfica com esse disco aqui! Estou muito feliz mesmo, obrigado Música Insólita. Não posso deixar de citar Mário Travassos, que foi esse grande amigo, infelizmente assassinado numa clínica psiquiátrica do Rio de Janeiro em 2017, porque a gente se formou junto: bem antes de entrar na universidade, no Conservatório de Icaraí, Niterói, e ainda atrás também estudamos na mesma escola e participávamos lá do coro do Hermano Sá – muito bom por sinal. Tocávamos na mesma banda na cena dos 90’s em Niterói, o UBTV e fizemos muita música improvisada em dupla. Muitas gravações no estúdio do KKO, em Icaraí também. Tocava bateria, ele nos teclados e ambos nas vozes. Tinha até um nome: M&M, Mário e Morto. Morto era o meu apelido em Niterói desde 1993. Fazíamos essas gravações de improviso, digamos ‘livre’ e certamente um dia eu vou preparar algum material para lançar deste acervo. Vou mergulhar nele e fazer mais essa homenagem para o nosso amigo. 

Complementando, a gente dividia uma fascinação pela música e as sonoridades, inclusive a música de concerto – talvez até principalmente – a gente fazia sessões de escuta coletiva, com outros amigos inclusive, como Márcio Verani, e era super emocionante. Tínhamos verdadeiros gozos coletivos escutando música, catárticos enfim, chorando ao som do Réquiem de Mozart (risos!). Mas, com Mário era uma conversa especial. A gente tinha um interesse também pelo som em si (de novo, com o perdão do termo), muito improviso caseiro além do estúdio, explorando diferentes sonoridades, enfim, técnicas estendidas sem saber o nome disso e por aí vai. Foi uma vivência muito intensa queu nunca vou esquecer. E de muitas formas, marcou toda minha trajetória musical porque a gente desenvolveu uma forma de fruição musical muito intensa, imersiva mesmo, muito aberta ao novo, um pouco difícil de expressar até. Rolava uns embates com professores do conservatório nesse sentido. Um deles, grande amigo até hoje, num papo de bar certa vez disse: “agora que vocês vão aprender harmonia vocês vão escutar música diferente porque vão ver como ela é estruturada”, que ia perder um pouco o fascínio, essas coisas. A gente negava absolutamente, que jamais iriamos perder a “sensibilidade” da escuta, perder o frescor da fruição, da maneira contemplativa, de uma admiração e gozo sensitivo profundos, coisas assim (muitos risos). Tipo um profissão de fé. Tem um marco eu diria, um momento onde eu faço uma escolha pela música nos meus 16 anos de idade. Uma verdadeira epifania. Eu ficava entre História, jornalismo e a própria música na época. Daí, assumi a música como um desejo que veio para ficar, literalmente, numa sessão do filme “A Dupla Vida de Veronique” do Kieslowski. Já tinha assistido e copiado a música do videocassete para uma fita K7 de áudio pra ficar escutando o trecho onde uma música do compositor fictício Van Den Budenmayer (Zbigniew Preisner, na verdade) tem seu clímax, um concerto em mi menor onde a cantora faz uma ária, ou algo assim, que é muito linda. Fui correndo pro cinema. Era uma sessão vespertina no meio da semana. Lembro de estar atrasado, correndo esbaforido pra poder ouvir aquele trecho onde essa personagem morre no meio do palco. Nele, há uma subida melódica que me deixava louco, arrebatamento total. No cinema, nesse momento, fechei os olhos e tive um deleite que eu acho que nunca mais rolou com aquela intensidade até hoje ouvindo música. Algo como todas as células vibrarem e irrigarem o corpo com uma enxurrada de hormônios de prazer. Êxtase, fora de sacanagem. Enfim, quis lembrar de momentos que o dividi como compadre Travassos e que queria deixar registrado. Saudade amigo! Seria injusto não comentar sobre a Bienal de música brasileira contemporânea também, que em 2003 marca minha estreia como “compositor propriamente dito” (risos aos baldes) junto com o grupo OFELEX do qual fiz parte com grandes amigas e amigos, influência seminal na minha trajetória pela música exploratória, na minha escolha por este caminho.

MI: Você tem uma pesquisa de mestrado em andamento, no PPGCA da UFF. Fala um pouco dela e sobre a relação que ela tem com a ideia de improviso/performance.

LA: Essa pergunta é bem interessante porque, de certa forma, minha pesquisa traz a retomada de uma trajetória acadêmica, depois de anos de indas e vindas, de amor e ódio pela academia. Hoje eu vejo como um espaço importante aí na luta pela democracia e pela educação, claro. Estou muito imbuído desse espírito de quase “libertação” desse preconceito que tive. Pelo contrário, hoje vejo na academia um espaço de ocupação, para além do dever e a finalidade (que seria) óbvia da educação gratuita e de qualidade. Um espaço onde se pode pesquisar com a comunidade. Gosto de ver a universidade como um parque, que atravessa a cidade. Que faz parte da cidade e as pessoas circulam, usufruem, e constroem juntas. Então a minha pesquisa tem esse dado estético-político para começar, e a ideia de improviso e performance da forma você pergunta realmente tá no núcleo do que me motivou a fazer essa pesquisa no programa de estudos contemporâneos das artes na UFF.

Em resumo, são como laboratórios de improvisação que lidam com diferentes linguagens artísticas e outros campos do saber, outros fazeres como um todo, no trabalho, na vida. O músico improvisando com a atriz, o filósofo, a bióloga, o técnico de som, o curador, etc. Essa pergunta encosta na pergunta anterior justamente nesse ponto, com a peça “Estilhaços – constante volta ao indeterminado” elaborada coletivamente por um ano dentro do grupo OFELEX, e que também marcou minha estreia na Bienal. Isto é, uma “peça de instrução” apenas texto. Um improviso guiado. Improvisação coletiva, imbuída de um de uma intenção composicional, por mais paradoxal que pareça. Acabou sendo uma ideia seminal nas coisas que eu faço e retornou com força agora elaborando essa pesquisa na pós-graduação, junto com outras ideias.

Então, “Estilhaços” encapsula toda uma visão de vida até, porque nessa pesquisa o interesse inicial de aliar formas de arte e outros saberes em performances improvisativas – permitindo instruções e graus de indeterminação variados – Isto já era algo que pensava ser uma “exploração a mais” no pensar o fazer improvisativo. Algo pra contribuir, pesquisar e escrever que valesse. Pois, foi além. O que sucedeu é que essa ideia de composição e improvisação “concomitantes” extrapolou a seara da arte, educação como um todo. A própria pesquisa se tornou “o improviso/obra”. Porque dentro de tantas agências “extra-artístico-performativas” como sambar com burocracias, realizar escutas não só de som mas de enunciações de quem participa, em todos os níveis, de todos os tipos e assuntos, dos mais sérios aos amenos. É como se tudo tivesse se encaminhando para uma pesquisa de agenciamento de enunciações coletivas, é que tem pulado mais evidentemente. E isso tem uma dimensão política muito forte no meu modo de ver a vida e nas minhas atitudes: a ideia de coletivo. Para não ficar um tanto sem pé nem cabeça, tento explicar rapidamente o que é a peça “Estilhaços”. Ela tem a instrução, como havia dito, que muito a grossas linhas são quatro etapas de montagem gradual de hoquetos rítmico-melódicos, que encontram no centro da peça um pico de saturação e daí, fazem o caminho inverso, num estalo, de desconstrução de hoquetos que dessa vez surgem não gradualmente, mas de uma vez só, e esse que é o barato dessa peça falando assim por alto: o contraste entre uma construção coletiva gradual e paciente, que tem seu declínio quando isso morre, esse “senso” de coletividade. Então aí vai um dado conceitual, digamos filosófico dessa peça, que envolve o conceito de indeterminado do pré-socrático Anaximandro de Mileto, e de novo, expressa uma certa forma minha de ver a vida. Essa alegoria da construção gradual que chega num pico e tem seu declínio, algo como uma analogia da dinâmica panorâmica ampla da construção e declínio de uma civilização. Dado que na leitura que Nietsche faz dos fragmentos de Anaximandro, esse indeterminado seria como que um sítio descolado do real. Donde surge tudo, meio amorfo, que vai ganhando corpo e “harmonia” até um pico que começa uma espécie de desmantelamento, segundo o pré-socrático, onde “devem expiar e ser julgadas pela sua injustiça, segundo a ordem do tempo”. Pois é nesse sítio amorfo que minha utopia pessoal do improviso-composição reside, nesse inframince, nesse lugar ultra-fino quase imperceptível, essa sinapse estranha que é mágica quando surge mais ‘palpável’ na improvisação coletiva. Essa enfim, é uma pira minha na política (com P maiúsculo), também porque envolve essa ideia de que o coletivo é a saída para produção de vida. Vocês podem escutar uma ótima versão dessa peça gravada pelo Ensemble Limite em 2008, aqui neste link: https://soundcloud.com/leoalvesvieira/estilhacos

MI: “Data” (Música Insólita, 2021) é a sua segunda colaboração com Juan Antonio Nieto. O disco tomou um tempo considerável para ser pensado e trabalhado. Fala sobre as ideias de vocês para ele e como o processo todo se desenrolou.

LA: Sim, a primeira colaboração foi o álbum “Post-sleep Paths”, lançado numa netlabel sueca em 2007, a THLOTRA (two left hands on two right arms), a convite do Markus Åberg. Como ele teve que suspender as atividades do selo, Juan – que na época era mais conhecido como Pangea – sugeriu, a convite de Sarah Vacher, reeditar o disco no selo dela, em formato de CD, o qual teve duas edições esgotadas (2011/12). Nesse momento começa já o papo sobre fazer uma segunda colaboração.

Esse papo todo, que começa em 2010, está todo registrado em uma das imagens no download de “Data” e para conseguir ler, é preciso fazer um ‘zoom’ na imagem. Uma década de conversa. A intenção de incluir essa conversa ilumina um pouco do espírito de “Data”, pois, além da conversa sobre como ia ser esse segundo disco, toda a combinação e troca de arquivos, quem ia fazer o quê e etc., há como fossem relatos do que se passava no país de cada um, e na própria vida de cada um inclusive. Ou, o que nos afetou mutuamente, como o roubo de uma de nossas faixas pela grife Versace para utilização com fins lucrativos na internet, que, depois de idas e vindas, virou um processo que não pudemos dar continuidade por questões financeiras – Juan estava com um advogado italiano e outro espanhol em cima do caso.

Alguns anos de conversa entre Leo Alves e Juan Antonio Nieto condensados em uma imagem. Disponível para download junto com todo o material que compõe o disco “Data”

Sobre a dinâmica de criação de “Data”, partimos inicialmente de fazer o movimento inverso em relação ao outro disco, isto é, desta vez Juan me mandaria materiais para eu trabalhar em cima, além de incluir outros materiais, tarefa que era de Juan em “post”. Juan enviou 9 faixas de gravações de campo levemente tratadas, ou como preferimos, fonografias. Alguns temas políticos e sociais foram surgindo e sendo plasmados em determinadas faixas, como por exemplo “Favela da Telerj” (2014), que traz o assunto das remoções criminosas do pré-copa no Brasil, que por sua vez ocorriam também em Madrid, afetando pessoalmente Juan e sua família. A faixa “Data” e “Tortura Nunca Mais” derivam de um evento só, uma audiência pública do caso Mário Alves, meu avô que é desaparecido desde 1970 na Ditadura Civil-Militar. Trazer esse tema pra mim então foi meio até sem querer, digamos.

Depois de uma década (que quase foi o título do álbum) de golpe e conservadorismo extremo dentro do poder aqui no Brasil, que aprofunda o genocídio (já estrutural) das populações pobres, negras, faveladas, indígenas e camponesas, esses temas tornaram-se como que forçosos. Digo isso assim porque, digamos, o disco poderia ser mais ‘abstrato’ e menos linear em termos de temática ‘extra som’, mas acabou ganhando um contorno mais narrativo mesmo, e a palavra entrou mais nele. A palavra entrou mais também porque conforme foi se aproximando do lançamento ao longo de 2019-20, eu passei a compreender melhor o espírito do Música Insólita e sua forte relação com a palavra, a fala, o texto. Sendo assim, as 3 últimas faixas do disco são deste período. É o disco de uma década (só queria usar a frase de efeito, hehehe). Pra mim então, pessoalmente, tem esse componente afetivo muito forte de ser o primeiro álbum que participo desde 10 anos atrás, um álbum muito esperado pra mim e reflexo de uma nova fase da minha vida onde estou de novo vivendo organicamente a cena de música experimental e arte sonora, depois de 10 anos fazendo muito pouco neste sentido, com projetos pontuais e sem viver a cena com as pessoas da cena. Foi uma década que me convocou a construir outras atividades que não considero que devessem ser separadas do fazer artístico, mas onde dediquei muito tempo e energia, como o ativismo por direitos humanos e direitos iguais. 2013 foi um ano chave e intenso pra mim. E pro Brasil como um todo, claro, mas pra mim, convergiu neste ano de uma vez só as jornadas de junho, a morte do meu irmão mais novo, as audiências onde estive de frente pra 3 dos torturadores assassinos de Mário Alves e perder meu emprego no setor de partituras do Museu de Imagem e Som quando o governo estadual à época praticamente desmontou o MIS.

A palavra dominou a faixa “Pedra”. É uma pequena crônica, o relato de um causo que o filho do Prestes viveu no exílio na URSS que envolve meu avô. Prestes filho revelava fotografias 3×4 de desaparecidos na ditadura a pedido do pai para fins de denúncia e ele conta isso na faixa, além de outros detalhes do exílio em família. Essa faixa simboliza também a criação do coletivo Filhos e Netos por Memoria Verdade e Justiça do qual ajudei a fundar em 2014, que reúne pessoas como o Prestes Filho, descendentes e familiares de pessoas que foram afetadas pela ditadura, muito embora ele não participe efetivamente do nosso ativismo inédito e necessário no Brasil – um grupo que chega de certa forma muito atrasado na História, se compararmos aos países latino americanos que passaram por ditaduras, o que demonstra o tamanho e a força do silenciamento sobre esta época do Brasil.

As faixas “Ar” e “Santa Rosa de Madrid” são exclusivamente baseadas em fonografias, ou gravações de campo. Uma é a mescla de sons colhidos em Madrid e Niterói (no bairro de Santa Rosa), “Ar” é meramente um empilhamento das nove faixas-base do disco enviadas por Juan, utilizando o exato ‘centro’ da faixa mais longa como eixo que alinha o ‘centro’ de todas as outras faixas – essa aí aprendi com o Iwao, heheheh – e como elas tem minutagens bem variadas, o efeito é de um grande crescendo e decrescendo de sons cotidianos, com um pico quase noise de sons. Foi alinhar e ver que bicho dava. Deu bom. O máximo que fiz foi espalhar as faixas na imagem estéreo e esculpir os volumes levemente aqui e ali. Já “Santa Rosa de Madrid” tem uma palheta de sons cotidianos mais ‘gestuais’ e com alterações significativas trabalhadas junto com Pedro Pagnuzzi, que além de autor da arte e identidade visual de “Data” foi nosso parceiro nesta faixa.

MI: Queria que você comentasse especialmente sobre a capa do disco. O que a torna tão importante na concepção toda desse trabalho?

LA: A capa do disco é a máquina de escrever do meu avô Mário Alves. Mais uma vez, foi natural ter surgido essa expressão visual no fim porque com toda a demora que teve para sair esse disco, e todo envolvimento que tive nesse período no ativismo por direitos humanos, essa máquina nos pareceu um desfecho lógico, pensando com o responsável pela arte do disco, Pedro Pagnuzzi. Isto é, a cereja de um bolo, por assim dizer. A capa e toda arte adicional do disco (disponível no download) também é expressão de uma retomada desse tipo de parceria com o Pedro. Durante esses 10 anos seguiu sendo um grande parceiro musical e artístico, e foi o cara que fez todas as capas do meus dos meus discos antes desse período. Para fazer a arte do disco a gente teve horas e horas de conversa, a distância né? Dentro dos protocolos de isolamento e distanciamento social, mas conversas muito gostosas e de uma vitalidade e frescor criativo renovados. Dessa vez, na parte gráfica, atuei mais próximo da concepção que nas outras capas dos lançamentos. Pedro fazia estas praticamente sozinho, só perguntando se eu curtia ou não. Mas dessa vez a gente curtiu muito essa construção em dupla. Fico muito satisfeito não só por esse dado afetivo, mas pelo resultado que acabou sendo bastante simples, simplesinho mais bonitinho. algo que de certa forma também aponta para uma verve mais recente nas minhas ações artísticas.  Buscar o “menos”. Eu sempre fui muito espalhafatoso, muito “mais”, muito engordurado esteticamente, na minha empolgada juventude, rsrs. Muito em parte essa transformação de verve se dá também através dessa parceria com o Juan Antonio Nieto. Minha música e o meu som se tornaram um pouco mais calmos sobre influência dos trabalhos meditativos e amplos que Juan tem feito de 10 anos para cá.

Máquina de escrever que pertenceu a Mário Alves. Um dos poucos objetos físicos que restaram do avô de Leo Alves. A imagem integra o conjunto de material físico disponível para quem faz o download do disco “Data”

Mas em termos mais propriamente afetivos, essa capa também é fruto dessa luta por justiça na história da minha família. Existe esse significado forte de ser um dos poucos objetos físicos que restaram do meu avô. Fora essa máquina de escrever (a marca é Royal – na capa está alterado o nome) restou um par de hashi que veio da China e uma caixa de charutos cubanos vazia.  Então aí está um sentido para essa capa que nem propriamente eu diria de cunho conceitual mais apenas um sentido. Talvez fruto de uma “arqueologia de sentidos” parafraseando uma grande amiga e companheira de luta e de arte Anita Sobar, que por sua vez, noutra ocasião fez curadoria de uma exposição (Destempos, na Cia. De Mystérios e Novidades, Gamboa 2017) e utilizou nela essa mesma máquina junto a estes outros objetos remanescentes do meu avô, e uns da minha criação pessoal, como O Capital em formato de história em quadrinhos. Então, corpo com a máquina, esse objeto físico que de certa forma encarna uma pessoa desaparecida, né? Tem essa magia, a força da mera presença. Da mera existência. E o título Data não é à toa. Como se vê, hoje é dia 13 de fevereiro, data do meu aniversário. Acho bonito utilizar esse símbolo de celebração da vida não só para sacramentar todo uma década que pouco a pouco foi curtindo esse disco, mas também ressignificar uma forma de luta por memória verdade e justiça, uma forma com potência de vida mais do que um lamento pelo desaparecimento, morte e tortura de algum ente querido. Poderia ter escolhido o dia 16 de janeiro, o dia em que meu avô foi sequestrado e levado ao DOI-CODI, mas vi mais sentido em fazer data de aniversário, de criação de vida. Ao mesmo tempo que ali há a imagem de uma máquina de escrever, um dispositivo datado ao lado da palavra informação, em inglês no caso: data. Traz para mim, pelo menos, uma série de alusões a temas como a burocracia, a dificuldade de se ter informação (no caso aqui de uma pessoa desaparecida em um contexto de perseguição política), não só no momento em que ele é sequestrado, e aí eu lembro da luta da minha avó pela busca do paradeiro do Mário. Dilma Borges Vieira, também homenageada aqui nesse disco! Mas também tem um barato em aliar duas imagens – chame de batido, ingênuo ou clichê – que é a palavra informação já no contexto de pós-revolução informática, e a internet com todo. Um ressignificado e sentidos recarregados no novo, ao lado de um dispositivo de informação obsoleto, que é a máquina de escrever.

Esticando um pouco mais a baladeira, vamos dizer também que a dualidade máquina de escrever, e a ideia da informação no contexto da era da informática e das redes sociais, essas imagens aliadas face a face podem dizer um pouco de uma dualidade da forma como esse disco se desenvolveu no sentido mais propriamente técnico e estético. Isto é, se utilizando das ferramentas tecnológicas, mas desta vez como já aludido, buscando uma forma de manipulação de sons mais “concreta” (da música concreta mesmo), com menos peripécias eletrônicas e malabarismos eletroacústicos, e mais matéria sonora, um jogo de imagem estéreo, uso de fonografia, gravações de campo, vozes faladas, enfim: nada de novo no front, mas pelo menos é bem explicativo. Expressa bem o espírito desse álbum.

Para concluir, existe esse aspecto do impacto da informação também na prática, quando eu, por exemplo, vejo o quanto era necessário mesmo dar os detalhes, os créditos das vozes que compõem por exemplo a última faixa do disco, que são de ex presos e presas políticas da época da Ditadura Civil-Militar, dando não só seus testemunhos, mas enfrentando o algoz deles em audiência pública. Então você se sente naquela responsabilidade de não errar nenhum dos nomes, nem o que passou naquele dia da audiência. Por isso que o disco tem o encarte, não é muito longo, mas é cuidadoso nesse sentido de dar a informação correta, ou minimamente registrar esta informação para conhecimento público e geral. É um tema que devia ser ponto pacífico em toda e qualquer sociedade democrática. Num país que retrocede a galope nessa construção de memória, é muito importante a contínua construção dela, seja feita por familiares ou não, porque acaba sendo quase uma tradição oral, dado que o estado propriamente dito ou fez pouco nesse sentido e no momento está empenhado em apagar essa história, silenciar como sempre fez. Então, está aí um desfecho que encapsula a ideia dessa capa, que é a informação, data.

MI: Qual é a sua relação com a cena experimental independente e como você a percebe hoje?

LA: Essa pergunta me comove. Vamos lá: Esse espaço de 10 anos também marca, de certa forma, um período de afastamento, até uma retomada da minha participação mais orgânica na cena de música experimental e independente. E me comove muito esse disco ser lançado pelo selo Música Insólita, que para além da Gabriela Nobre, amiga e parceira de cena desde lá atrás dos anos 2000 – e participou de uma performance de Estilhaços em 2008 com voz, articulando um texto dentro do jogo improvisativo – se tornou para mim um dos símbolos do que é a cena hoje, e meu movimento de retomar o contato com essas redes e como ele se deu de maneira refrescada, de maneira quase deslumbrada, escutando, pra começar, as produções do MI, do selo Seminal Records, do Sê-Lo da Bahia, do Estranhas Ocupações no Recife, do selo desmanche de Rondônia que acabei de conhecer no rolê do Frestas – salve Ramon e Erlândia! Isto é, sou eu de certa forma até recuperando um tempo perdido que é mergulhar na produção das amigas, amigos e amigues de cena, algo que eu nunca perdi totalmente nesse período, mas não fiz tão profundamente como estou fazendo agora, que é curtir esse caldo, e o MI é parte disso.

Fiquei muito feliz quando a Gabriela me convidou para lançar um trabalho durante o SOMARUMOR em 2019, e aí estamos! Estou envolvido atualmente na produção do festival online Frestas Telúricas, que tem sido muito importante também no azeite da interação entre cenas em diferentes regiões do país e de uma integração maior entre pessoas de diversas identidades raciais, gênero e orientação sexual. Desde 2019 já estava eu retomando a atividade performática com shows e produção de eventos como a exposição Infiltrações na Cúpula em Niterói. Retomei o contato com músicos e artistas sonoros de todo país da mesma maneira intensa que tinha até, digamos, 2010. Enfim, me comovo…

Posso dizer com todas as palavras e de peito aberto: tô de volta na pista, rsrs. Então seguindo o espírito coletivo, comparando com 10 anos atrás a cena tá muito bem obrigado! Fico muito feliz de ver muita gente produzindo de tudo que é parte do Brasil, galere jovem mandando bem demais, muito embora a gente saiba que de toda forma não há sustentabilidade neste meio, nesta cena de música experimental, mesmo antes da pandemia se via que espaços não faltavam, por mais precários, gente fazendo e lançando produções fonográficas. Um número infinitamente maior de pessoas pesquisando isso também, música experimental, arte sonora, seja na academia ou seja em publicações variadas como revistas de arte e etc. Vejo muito mais pessoas interessadas de fora da própria cena experimental – não curto mais esse termo – de outras searas artísticas, se interessando por esse tipo de música exploratória, isto é: existe de fato mais demanda! Mais desejo de escutar isso, entender que diabo é isso. Se a cena hoje teria já demanda suficiente para criar um filão de mercado, fica a pergunta. Muito provavelmente não, mas por outro lado, das coisas mais comoventes que então vejo na cena hoje, quase que “de paraquedas”, é sentir que existe uma coletividade maior do que em outros cenários de troca artística, por assim dizer.

Longe de eu querer diminuir a cena de outra forma de arte, e então, sem citar, posso dizer que outras cenas artísticas que tem sustentabilidade mercadológica, hoje em dia não tem uma coisa fundamental que eu tenho visto nessa “coletividade”, que é os colegas, as colegas e colegues se escutarem, curtir os trabalhos mutuamente, e principalmente, estabelecer essa espécie de circuito de ideias, onde uma alimenta a outra, e mesmo na pesquisa, nessa minha preparação para entrar na pós-graduação, fui vendo caminhos de reverberação de ideias que partem também da cena, de pessoas como Jean Pierre Caron, Valério Fiel da Costa e Henrique Iwao. Bons exemplos de como que circula conceito, como circula fazeres, pensamento. Desses três caras irradia para outras galeres, num movimento também intergeracional. Fui esbarrando, de texto a texto, sem combinação ou indicação deles próprios, com esse circuito de ideias e observar como isso se transforma. E não é só esse exemplo mais acadêmico, mas na própria cena rola essa fluidez criativa entre o pessoal, inclusive em âmbito interestadual, né? Isso não tem qualquer lugar. Eu poderia ficar uma noite inteira falando sobre esses insights da cena, mas me sinto até pouco habilitado no momento, já que eu estou retomando, tomando pé dessas redes. Me passa, em todo caso, essa impressão de que por mais que não seja um fazer artístico sustentável – se é que existe tal coisa em arte contemporânea – ele possui um grau de “verdade” ne troca que é ouro para mim. É aí que enxergo um estatuto político, independentemente de qualquer mensagem ou pauta mais direta, mas o próprio fazer artístico e se torna política com P maiúsculo. Isto é, se o sistema individualiza a gente coletiviza.

Depois de uma década de comparação com a cena underground dos anos 2000, observo que esse ideal de sucesso que outras práticas e cenas artísticas precisam ter por parâmetro o sucesso, entrar na lógica algorítmica das redes, entrar numa dinâmica de competição, de intriga e vaidade. São coisas que têm que alimentar todo dia, praticamente pré-requisitos pra artistas nesses locais poderem se sustentar como obra. Esse ideal de sucesso, esse sonho artístico que é vendido aponta para uma individualização, isto é, se entendermos que é preferível todos escutando a poucos, é melhor mesmo largar toalha e correr para as plataformas de streaming (a nova pretensa forma de indústria fonográfica) e enterrar de vez as dinâmicas de rede mais interessantes e coletivas que surgiram no anárquico princípio da internet dos anos 2000. Isto é, quando a internet ganha alcance, interação e acesso globais. Mas pelo contrário, eu sinto que na cena atualmente existe um lindo e importante espírito punk, uma atitude de faça você mesmo que é muito interessante preservar.

Para dar um exemplo mais prático e palpável nesse sentido, pega a gravadora e selo Dischord Records que em 2020 completou 40 anos. Na ocasião, não esqueço a frase do amigo Bernardo Pacheco falando algo assim: “a Dischord completa 40 anos, e você aí alimentando as redes” rsrsrs, muito bom. É bem isso, esse selo é um exemplo de como se fazer arte não só com autenticidade e liberdade de criação, mas como um ato político e humanitário. Porque? Recentemente tenho escutado e lido muito de pessoas da cena punk dos anos 80, em torno de Washington DC e Chicago nos EUA, como Ian Mackaye (Fugazi, Minor Threat, Dischord Records), Steve Albini, Henry Rollins. Ian Mackaye comenta que nesses 40 anos a Dischord Records nunca precisou assinar um contrato com seus artistas, nunca delimitou quantidade de discos que eles eram obrigados a gravar, nunca precisaram contratar um advogado sequer. Pronto, um ambiente onde a criação tem terreno fértil e virtualmente ilimitado. Outra vez, parafraseando Ian Mackaye que diz que sempre curtiu na cena punk justamente esse tipo de liberdade, mas também um ambiente cuja dinâmica de funcionamento ganha um status em uma dimensão política muito fortes por quê são sempre pró coletivo, pró vida, pró criatividade. Aí está, lanço aqui, arrisco uma hipótese de pensar se esse aspecto do faça você mesmo é o que ajuda a determinar esse espírito coletivo maior na cena brasileira, que estou enxergando. Pode ser meus olhos. Ou, se soma-se a isso essa ‘cara’ de comunidade, dado que é uma cena ainda minúscula comparado a outros fazeres artísticos – em que se pese mais gente fazendo e mais gente interessada. Isto é, será que esse mero fato cria uma empatia maior um com outro no trato das suas respectivas obras, trabalhos, pesquisas, falas e performances? Ou ainda (ou se somando) uma cena que forçosamente precisa se unir, até pelo trânsito de informações, sobre instrumentos criados, softwares interessantes, dinâmicas de criação alternativas, ferramentas inusitadas… Não sei, acho que já estou divagando. Em todo caso, feita essa breve ponte de arte com a política, ou melhor dizendo, um atravessamento, o mais interessante mesmo tem sido um movimento de irradiação, eu percebo. Seja o que for, conquistar por ressonância tem se mostrado para mim mais sólido, mais real. Se não atinge o mundo todo, se pá é até mais “eficiente” que as utopias quando inspira alguém na comunidade. Ao alcance do braço, para e com quem está aqui do seu lado, tendo ideias, consumindo arte, trabalhando. Capaz de, mesmo dentro da perspectiva utópica, essa dinâmica local ter mais “resultado” que os protestos-performance e as iniciativas fugazes de mudança, ou de estancamento das sangrias, geralmente dadas pela oportunidade não prevista. Quase sempre, sobras de quem tem um trabalho de base mais consistente nos dias atuais e anos recentes, como as igrejas pentecostais, as mesmo-assim-incompetentes Forças Armadas, a banca internacional e os meios de comunicação conglomerados. É a estes que nosso sonho artístico deseja alimentar e neles habitar? Tudo isso somente perguntas ainda, no entanto, muitas coisas estão mais claras:  que é possível fazer arte com humanidade. Arte que seja sim transformadora – estamos inspirando alguém do nosso lado, gol! Que seja sim, reconhecida – precisa de 7 bilhões? Tanto pra arte quanto pra política com P maiúsculo, estamos em tempo de cultivar o coletivo, a ideia de fazer as coisas juntos está morrendo sim, em sentido e alcance amplos na sociedade. Pode parecer que não, quando alguém pergunta: “ah, bom, não é assim, lá no meu coletivo…”. Ok, mas o seu coletivo está conversando com o meu? Com os outros coletivos? As lutas estão se atravessando? As lutas estão se somando em pautas ainda mais amplas? Quem sabe aí vejamos mudanças mais consistentes, que atinjam mais pessoas igualmente? Acho que esses paralelos se dão também na cena experimental e arte sonora no Brasil tanto quanto nesse exemplo que eu dei, num panorama político mais amplo da sociedade.

Assim, vejo a cena de arte experimental crescer e, quiçá, se sustentar estruturalmente, mesmo sem o mundo todo estar ouvindo, “seguindo”. Vamos primeiro nos escutar. Se interessar pelo trabalho umes des outres. Não é já um reconhecimento? O Frestas Telúricas tem mostrado que, se em um estado brasileiro tenho 10 ou 20 pessoas que estão interessadas, eu somo com essa mesma quantidade no outro estado, no terceiro, nos 27 estados brasileiros… Ao fim temos uma rede interessante e interessada.

MI: Por último, use o espaço abaixo para divulgar seu trabalho e do Juan. Pode indicar todos os links de referência que achar importante para quem quiser conhecer mais sobre as produções de vocês.

LA: Desgraçadamente, não tenho ainda um site adequado, portanto, segue o link que reúne um bocado dos sons que fiz desde 2002 de maneira minimamente organizada, rsrsrsr. Diferente do Juan, que tem um blog todo atualizado e bonitinho, que segue junto. Obrigado de novo Música Insólita, estamos muito felizes com o lançamento, vida longa ao MI!

https://soundcloud.com/leoalvesvieira/ – leo alves

http://pangea-juanantonionieto.blogspot.com/ – juan antonio nieto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s