caeso – …disléxicoentrópicoconfusoealto…

“Li certa vez o depoimento de um ator acerca de sua convivência com a dislexia, sobre como o som se tornou para ele um suporte ao texto escrito, com suas letras intercambiáveis e palavras que se moviam por vontade própria, e suas resultantes distorções sintáticas e semânticas alternativas. Longe de querer romantizar essa convivência, a imagem me sugeriu texturas e procedimentos que, partindo de uma única fonte sonora, guiaram não apenas a busca por sonoridades especificas – pois, como a experiência relatada, essa peça deveria ser sobre som -, mas também a construção de sua voluntariosa programação”. Pela ocasião de seu segundo lançamento pelo selo, conversamos com Caeso, compositor, guitarrista, músico de computador, artista-sonoro-multimídia-e-etc, sobre seus novos procedimentos criativos, isolamento e sobrevivências.

Caeso ao vivo na Galeria Zaratan (Lisboa). Foto: Maria Lessa

Música Insólita: “…disléxicoentrópicoconfusoealto…” é o seu segundo lançamento pelo selo. O que mudou para você, como artista, desde outubro de 2019, ocasião da publicação de “Aum”, até o atual momento?

Caeso: Com a pandemia, mudou tudo, né? Se ver artista, músico, preso em casa sem poder apresentar nem ouvir música ao vivo é uma merda, altera drasticamente sua relação com o meio e com sua própria prática e pesquisa. A gente tende a ficar bitolado não discutindo mais com nossos pares. E isso sem entrar nos méritos financeiros da coisa, porque, ainda que a gente acredite que o acesso à arte deva ser universal, artista também tem conta pra pagar, e tem muita gente que tá no sufoco, dependendo do auxílio, tentando desenrolar qualquer trabalho, se expondo, vendendo instrumento e equipamento… As pessoas esquecem que esse papo de música e arte enquanto alimento é meramente metafórico. Acho que a gente tem que se preocupar sim com o que será da arte e da cultura nesse momento lixo que estamos vivendo, mas antes disso a gente tem que se preocupar com o que será do artista. Enfim, nada disso diz respeito ao “artístico”, ainda que objetivamente sejam indissociáveis. Uma coisa que mudou, por exemplo, foi o fato de que, por necessidade, passei a trabalhar principalmente sozinho e, com o isolamento, de 2019 pra cá, dei mais atenção a questões pessoais no meu pensamento artístico, interpretações, e a experimentar novos formatos e lógicas, dando mais desenvoltura para minha própria loucura, ainda que isso não necessariamente seja bom.

MI: Conta sobre o processo de criação do novo disco, desde a ideia inicial, passando pelas primeiras versões, até a capa feita pela Joana Cesar?

Caeso: Desde que comecei a compor e programar a peça “…disléxicoentrópicoconfusoealto…” em 2015, estou sempre a modificando. Daí já viu, o processo é infinito, assim como a quantidade de coisas que posso falar sobre ele. A ideia era, a princípio, explorar as possibilidades de ter na parte de eletrônica, programada em Max/MSP, um elemento que garantisse uma identidade sonoramente reconhecível para a obra dentro de um contexto de improvisação livre ao instrumento. Mas tudo isso foi pro caralho porque, no fim das contas, só eu a toquei até hoje, e a prática acabou me levando a criar um esboço formal e também um leque de materiais que acho interessantes. A primeira vez que a apresentei foi em 2015, no 3º Festival Compositores de Hoje, a convite do Marcelo Carneiro. Na época, era pensada para uma performance de cerca de 10 minutos. Calha que eu consegui explodir uma das minhas inseparáveis tendinites 3 dias antes da estreia, e isso me forçou a estabelecer um arco formal mais definido para a peça por conta dessa limitação física. De lá pra cá, fui desenvolvendo essa programação e explorando as possibilidades com a guitarra, até chegar a um set completo. Acho que é a composição que me deixa mais inseguro para tocar, porque a programação pode ser bem imprevisível e impiedosa, ainda que isso seja desejável e parte integral da peça.

Sobre a peça, li um depoimento de um ator sobre sua convivência com a dislexia que influenciou bastante na construção da peça. De acordo com ele, é como se algumas letras fossem intercambiáveis e as estruturas das frases simplesmente se movessem por vontade própria. A sua forma de lidar com textos, portanto, se desenvolveu pela percepção de seu som. Eu tentei levar isso em consideração ao optar pela maior parte dos procedimentos executados pela eletrônica, ainda que não espere que o público os perceba conscientemente dessa maneira. Do que entendi da experiência do ator, essa peça deveria ser sobre som. Dessa forma, a maior parte das escolhas técnicas, formais e estéticas se alinham a uma intenção de construir texturas densas a partir de uma única fonte sonora, quase como uma confusão mental na qual um som é cognitivamente decupado e depois novamente fundido, gerando, nesse processo, aliasing, bandas laterais, artefatos e outras incongruências, enquanto se movem pelo espaço – vale ressaltar que a peça originalmente foi concebida para ser difundida por um sistema octafônico.

Set da peça “…disléxicoentrópicoconfusoealto…” ao vivo no O Outro Baile, no AAparelho, em 2019. Imagem de divulgação.

Falando mais especificamente sobre o lançamento, acho que por conta da falta do elemento performático do ao vivo, optei por produzir um disco “de estúdio”, de modo que pudesse compensar essa falta com o controle e os recursos de edição que uma produção desse tipo oferece. Mas ainda assim foi um caos, porque não é como se eu tivesse um puta estúdio, pelo contrário. O ímpeto inicial de produzir o disco, inclusive, veio do fato de que meu computador, após mais de 10 anos de bons serviços, está querendo morrer de morte morrida, o que implicará em um hiato para essa e algumas outras peças, até que eu consiga comprar um novo decente.

Foi um processo extremamente trabalhoso e longo, de março a dezembro. E solitário também. Uma vez que produzi tudo em casa com o que tenho disponível, e pela particularidade do material produzido e da forma como são gerados, tive também que descobrir formas diferentes de tratá-los. Para a master, busquei palpites e sugestões nos ouvidos do Paulo Dantas e do Orlando Scarpa Neto, que parece que desentupiram os meus próprios. Para finalizar, pude contar, para a capa, com o trabalho da incrível Joana Cesar. Era importante para mim que houvesse um diálogo da capa com a poética contida no disco, e eu sempre entendi a produção dela a partir da ambiguidade de um dito-não-dito que ainda assim tem voz própria, algo que me interessa muito. Acho que o trabalho da Joana adiciona ainda mais camadas ao disco, luxo puro.

MI: Como podemos conhecer e ouvir mais do seu trabalho?

Caeso: Aqui é possível ouvir “Aum”, meu primeiro disco lançado pelo Música Insólita: https://musicainsolita.bandcamp.com/album/aum

Instagram: @_caeso

Facebook: https://m.facebook.com/caeso.mus

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