Gimu – “An outburst, a yell”

Com uma longa carreira e dezenas de discos lançados, Gimu, projeto de Gilmar Monte, volta a publicar no Brasil seus sons etéreos e sedutoramente lo-fi. Confira a entrevista concedida ao MI pela ocasião do lançamento de “An Outburst, A Yell”.

Gimu faz “música para os seres que não posso ver, para aqueles que não posso ser e para você”
Foto: divulgação.

Música Insólita: Você se dedica já há muito tempo à produção de música, de sons. Queria que você criasse uma narrativa sobre as suas trajetórias nesse universo – desde suas incursões no rock até chegar ao experimental – suas expectativas, caminhos e descaminhos, para que a gente possa entender um pouco a história de Gimu.

GIMU: Com 15, 16 anos eu não conseguia imaginar o que faria da vida além de algo que tivesse a ver com música, e isso não significava estudar música porque eu não tocava nada (ainda). E queria estar em uma banda, já muito influenciado por todas as bandas que amava, e isso só foi ficando cada vez mais forte. Quando chegou a época de escolher o que poderia fazer na faculdade não fui para a faculdade porque nada me interessava. Demorou alguns anos até que estivesse em uma banda que finalmente tinha conseguido formar. Finalmente havia encontrado pessoas com quem compartilhava gosto musical. Essa primeira banda se chamava Primitive Painters e fazíamos muito barulho. Era nosso grande lance naquela época, fazer música muito barulhenta. A gente ensaiava todo fim de semana e foi isso. Foi como a banda existiu.

Tocamos algumas vezes, até fora do Espírito Santo (ah, sou capixaba) o que, acho, foi sensacional, considerando tudo o que tínhamos contra a gente. Era uma época de muitos fanzines circulando pelo Brasil e conheci pessoas, gravamos umas demos (todas horríveis), enviamos para todo mundo, e de repente eu recebia 500 cartas por dia de pessoas que haviam virado amigos/amigas. Tudo muito especial. E olha só! Não estávamos sozinhos! Tudo isso durou até 1994. Eu tinha 23 anos. Depois disso comecei a pensar que seria legal irmos para SP, para tentarmos morar lá, aquelas coisas. E fomos. Mas um da banda não foi e desmantelou tudo. Voltei para o ES e um ano mais tarde voltaria para SP, para, aí assim, morar lá por alguns anos. Tudo sobre banda acabou sendo deixado de lado porque eu só tinha tempo mesmo para trabalhar para fazer a grana necessária para morar em SP, e foi uma grande época que definiu muita coisa para minha vida toda. Em 2000 estava de volta ao ES e um dos planos era voltar a ter tempo para voltar a tocar. E assim aconteceu. Montei a terrorturbo, que já era bem diferente da Primitive Painters, sem baterista, só programação, utilizando synths e tentando não ser mais simplesmente noise guitar rock. Dessa vez tudo aconteceu numa proporção um pouco maior. A internet já era o grande lance. Tudo ficou mais fácil. A terrorturbo foi mudando de formação e quando paramos de tocar, só havia eu da formação inicial.

Foram anos de muita alegria em relação à música que fazíamos e eu achava que finalmente tinha me tornado um cara que conseguia compor canções muito bonitas e espertas. Embora nossas gravações fossem sempre muito inferior ao que tínhamos em mente, tenho muito orgulho do que fizemos. Quando me vi sem terrorturbo, fiquei meio atordoado. Não sabia o que fazer em seguida mas jamais pararia. Não queria mais fazer música pop e achei que era a hora de me dedicar totalmente a esse outro lado que sempre me encantou, da música experimental, “difícil”, “estranha”. Ela sempre esteve lá mas não era para as bandas. Sozinho eu poderia fazer o que quisesse. Só não sabia como começar. Não sabia nada sobre fazer música utilizando computador, programas. E nada nunca é fácil para mim. O medo danado de descobrir como o novo funciona. Na época da terrorturbo eu utilizava o Reason e o dominava legal, mas utilizá-lo para criar o que gostaria não era fácil. Mas fui tentando com outros programas e fui conseguindo criar coisas. em 2010 eu lancei meus primeiros experimentos, tudo somente virtual. Fui colocando no soundcloud e fui conhecendo pessoas. Logo teria meus primeiros lançamentos físicos por micro-labels da Inglaterra. E desde então tem sido assim. Durante vários anos trabalhei como louco e muito do meu tempo livre era passado no computador criando sons que se transformariam em novas canções. Eram vários lançamentos por ano. Muitos eps e depois álbuns. Os lançamentos físicos também foram acontecendo, e lá se vão 10, 11 anos. Quando me mudei para o anterior do RS em 2017, tudo mudou. Desacelerei.

Comecei a passar mais tempo trabalhando em cada canção, naquele esquema de fazer um pouquinho hoje, deixar pra lá, voltar dias depois, continuar, etc. Todos meus últimos álbuns foram feitos assim. Acho que faço músicas mais bem acabadas hoje em dia, mas às vezes odeio tudo e acho que, antigamente, quando nem sabia o que estava fazendo, era mais legal. Ainda não pago as contas com grana que ganho com minha música mas está tudo ótimo. Não tinha nenhuma expectativa e acho que muita coisa legal aconteceu. Hoje em dia tem várias pessoas no ES que estudam música na federal de lá, fazem música experimental também, sabem quem eu sou, graças a um de seus professores, minha música já foi algo que “estudaram”, já fui entrevistado por eles/elas. Esse tipo de coisa faz minha cabeça girar. Nada mal para quem no final dos anos 80/começo dos anos 90 queria ardentemente estar em uma banda e não tinha a mínima ideia de como faria isso acontecer. E parece tão simples para tanta gente, né? É um baita de um cliché mas eu preciso dizer que eu não tinha opção. Eu poderia ter simplesmente me conformado e parado. Com música eu nunca consegui desistir. E olha que sou um craque em desistir! Ou era. Sei lá. Isso do pessoal do ES é só um exemplo de coisas lindas que vivi nesses últimos anos graças à MINHA MÚSICA ESTRANHA.

MI: Conta sobre o disco? Qual é a ideia do “An Outburst, A Yell” (Música Insólita, 2021), como foram seus processos para esse álbum?

Gimu: Tem sido a mesma coisa nos últimos anos. Uma má vontade desgraçada. Uma preguiça danada de estar no computador criando sons. Trabalho várias horas online hoje em dia. Sou professor. Quando termino as aulas, quero sair correndo e não voltar para o computador, mas chega uma hora em que me obrigo a voltar e começar a tentar tudo novamente. O álbum que lancei no ano passado, “The Realm Of Higher Things” (The Committee for Sonic Research, 2020), eu comecei a fazer em 2019. O “An Outburst, A Yell” comecei, acho, em outubro de 2020. Reparei que os primeiros arquivos das novas músicas eram dessa época. Não tinha ideia. Nem lembrava do que tinha feito algo até achar vários rascunhos em uma pasta. Fui ouvir e achei tudo muito bacana. E lá fui eu de novo.

Como estou sempre fazendo a mesma música, preciso me concentrar muito em texturas e em experimentar com novos sons. Me muni de novos plugins, novos efeitos, e dá-lhe girar botão virtual para ver o que aconteceria. Essas novas “ferramentas” foram essenciais para eu me sentir inspirado. Gosto que cada álbum meu tenha um som próprio. Acho que novamente consegui. Também acho que o “An Outburst…” é tão amargo quanto os dois anteriores, que tiveram todas as razões do mundo para serem amargos. Engraçado que no finalzinho dos toques finais desse disco eu me senti meio mal por fazer música tão amarga, soturna. Puxa vida! Olha a merda que o mundo está! Olha o que o Brasil virou! A gente precisa de luz, né? Muita luz! Se não estiver se sentindo legal, não ouça o álbum. Escolha algo ensolarado. Se não tiver medo, então manda ver. Depois me conta 🙂 Com o álbum já quase terminado, um amigo muito querido morreu de Covid. A cabeça girou. E vem aquilo de “devia ter feito algo para ele enquanto estava vivo”. Que merda! O mundo fica mais sem graça sem João Marcelo por aí. Uma música do álbum é para ele, a de título quilométrico, que é o refrão de uma música do Jimmy Somerville. João me mostrou essa música anos atrás e a amei de cara. Derramadíssima! Nossa cara. Quando fui ver a letra… sabe quando você pensa “puta que pariu… como pode fazer tanto sentido nesse momento…”. Pois é. O álbum é para ele.

“Com o álbum já quase terminado, um amigo muito querido morreu de Covid. A cabeça girou. E vem aquilo de ‘devia ter feito algo para ele enquanto estava vivo'”.
Foto: divulgação.

MI: Gimu é um projeto quase que dissidente das cenas experimentais do Brasil. Me parece que, em algum ponto, você preferiu que o seu projeto fosse mais do mundo; por exemplo, quando você trava uma relação com o selo inglês The Committee for Sonic Research, pelo qual você já lançou muitos títulos. Como foi a sua relação com a cena experimental e como você a percebe hoje?

GIMU: Eu não sabia que eu poderia ser do Brasil também. Eu não conhecia ninguém! Um dia soube que muita gente por aí também faz música experimental. Só foi mais fácil trabalhar com pessoas de outros países porque tem sido assim desde que comecei. Não foi nada planejado. Embora eu tenha tido lançamentos pelo TOC Label, o “All The Intricacies Of An Imaginary Disease” (2012), e pela Crooked Tree Records, o “Cell Signalling Pathways” (2017). Na verdade sempre quis que mais pessoas no meu próprio país soubessem que eu existo e que faço a música que faço. Ainda quero sair em alguma lista de “melhores discos brasileiros de TAL ano”. Seria muito engraçado! 🙂 É meio solitário demais. Espero que um dia isso mude e eu consiga lançar álbuns por selos brasileiros também.

O The Committee é um micro-micro-label tocado por um cara muito querido chamado Simon, de Londres, que me admira muito (completamente louco! haha) e que eu fiz questão de que virasse um grande amigo. Gosto de criar laços. Me sinto mais a vontade quando isso acontece. Como isso aconteceu com o Simon, continuei com ele. O The Committee era somente virtual quando conheci Simon. Ele voltou a fazer cds por minha causa. Uma honra! 🙂 E faz, tipo, 16 cópias de cada álbum, sabe? Eu acho isso muito engraçado! Ele faz até cansar e para e pronto. Deu! 😀

Conheci pessoas adoráveis em vários selos. Eu queria dar uma resposta linda sobre como percebo a cena experimental hoje em dia. Eu me surpreendo com o tanto de pessoas que fazem música experimental de várias formas e lançam seus álbuns, e alguns são nomes de peso na coisa toda. Em 2010 eu não tinha ideia de que era assim. Acho que isso já é uma grande coisa. Estou menos tonto em relação a isso.

MI: O que vc ouve, Gimu? Quais são suas maiores referências e seus temas de interesse?

GIMU: Sabe que eu tenho ouvido música pop de novo nos últimos tempos? Eu fico feliz quando me apaixono por alguma banda novamente porque é tudo como se tivesse 17 anos mais uma vez. O sentimento não é o mesmo. Nunca seria, nunca será, o que é uma pena, mas ainda tem algo muito especial sobre isso. E eu gosto de tanta coisa. Todo ano amo vários álbuns de música pop ou experimental. Dois anos atrás descobri jazz diferentão (“diferentão” porque eu achava que jazz era tudo igual. Tonto!) e tenho tido muito prazer em ouvir mais esse tipo de música. E acredite: meus últimos dois álbuns têm muita influência de jazz experimental ou espiritual 🙂

Sempre fui profundamente influenciado por coisas que revolucionaram meu mundo, as coisas sônicas na adolescência entrando ali nos 20. Se faço música hoje, foi por causa de tudo aquilo. Eu não tiro o olho do presente, tô atento à vontade de ouvir o novo e também de ser arrebatado por ele, mas tem aquilo daquelas bandas naquela idade. Quando ouvi guitarras como nunca antes, jesus, Sonic Youth, My Bloody Valentine e tudo que veio no rastro: Ride, Circa Nowhere, Slowdive, etéreo, etéreo, etéreo, e também algo como Telescopes. O interesse cada vez maior no viajandão e no barulho viajandão. Os outros cantos para onde aquelas guitarras te levavam. O papo de ouvir e querer montar banda. Aí entra em cena uma cena que eu nunca soube que era, tinha sido.

Descobri via google, com matéria no The Quietus, acho: Seefeel, Pram, Laika, Mouse on Mars, Disco Inferno, etc. Isso tudo ficou com MUITA força. Volto para tudo isso com bastante regularidade pra sentir tudo aquilo de novo. Então talvez eu só esteja imitando My Bloody Valentine do meu jeito e sai como sai. O que me influencia são os discos que mais amo, e lá se vão décadas com esses amores todos. Me apaixonar pelo novo me deixa feliz, bobo, tipo “ainda ta rolando, ainda tô aqui”. Dá um alívio, “não me perdi todo”. O “An Outburst, A Yell” e o anterior foram 100% influenciado por álbuns muito recentes, “quero ser capaz e fazer igual”. Nunca dá certo, haha, mas nessas eu acabo criando músicas novas. Minhas tentativas viram álbuns. O fascinante nisso tudo é que quando processados em mim, todos os sons de tudo que ouvi, ouço, amo, viram a música que consigo fazer dentro das limitações que tenho, e a identidade deve vir de tudo isso, acho. O MEU som. Existem vários ápices nisso tudo, AQUELE ÁLBUM, AQUELA MÚSICA. Aquilo que ouvi lá em 1992, experimental, minimal, e pirei e quis na hora fazer igual, mas ainda levaria muito tempo até eu lançar algo influenciado por aquilo de 1992, em 2010. tem sido um arrastão de música que me empurra para o próximo punhado de sons e canções. Tá rolando.

Os climas de doom metal também têm sido influência, ou música industrial. Música baseada em repetição é um fascínio. Amo William Basinski. Eu ODEIO quando existe uma pergunta como essa em alguma entrevista que esteja lendo e o povo fala fala fala e não cita nenhuma banda, nenhum artista. Fico puto! E olha eu fazendo a mesma coisa. Eu teria que parar e olhar meus arquivos para te dar uma lista de nomes e álbuns que amo muito mas nesse momento eu não farei isso. Muita preguiça 🙂

Ah! minha música do ano até aqui tem sido do Dry Cleaning, “Scratchcard Lanyard”. Fico muito feliz com essa música, e invento minhas danças pelo apto. Genoveva não entende nada e meu marido morre de rir. É bom fazê-lo rir. Genoveva é nossa filha canina. Já fiz álbum para ela chamado “Senses” (2017). Amo esse álbum.

Genoveva, filha canina de Gimu. O álbum “Senses”, de 2017, é dedicado a ela
Foto: divulgação

MI: Quais links de referência podemos deixar aqui para interessados conhecerem mais de seu trabalho?

GIMU: www.gimu.bandcamp.com

Alguns álbuns meus estão em streaming. Muito obrigado por me deixar “falar”. Beijos para todas/todos e, por favor, se cuidem. E obrigado por ouvir minha música. Podem entrar em contato. Vou amar falar com quem quiser falar comigo. 

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