Verónica Cerrotta – “Ficções”

Verónica Cerrotta nasceu em Buenos Aires, Argentina. Desde 2015 trabalha com gravações de campo e música experimental. Mora no Brasil há 3 anos. A ideia para “Ficções” partiu do desejo de pesquisar sobre como representar sonoramente o espaço. Como um espaço sonoro é gravado? Como criar espaço? Leia a seguir a entrevista que fizemos com a artista pela ocasião de seu lançamento pelo Música Insólita.

Música Insólita: Conta sobre a sua trajetória na música até aqui? Quando seus
interesses por sons começaram e como eles foram se desdobrando até
aqui?

Verónica Cerrotta: Eu comecei desde muito pequena a me interessar por sons. Na minha casa se escutava muita musica e meu pai tocava o violão. Na casa da minha avó tinha um piano e aos 10 eu comecei a fazer aulas. Com minhas irmãs fazíamos programas de rádio que gravávamos em fitas cassetes, então a relação com o som era algo muito natural para mim, e se dava como uma brincadeira. Mais tarde, na adolescência, estudei baixo e quando terminei a escola secundária entrei numa escola de musica. Eu sou formada em música, com especialidade em piano. Em paralelo estudava artes visuais e essa mistura me levou a me interessar por os processos criativos ligados ao som. Quero dizer, não a interpretar partituras nem a compor no estilo clássico, mas me interessar pelas partituras gráficas, pela improvisação, paisagem sonora, instalação…

Comecei a gravar sons com uma pequeno gravador e comecei a assistir a apresentações de musica experimental. Isso me aproximou de pessoas que estavam na mesma prática que eu, e foi um impulso pra eu começar a compor com esses sons que gravava. Fiz um curso de musica eletroacústica e minhas primeiras composições eram nesse estilo. Modificava os sons que gravava até que eles não fossem mais reconhecíveis. Logo comecei a tocar ao vivo e fui adicionando instrumentos e sintetizadores. Foi quando me mudei para o Brasil que comecei a trabalhar mais as gravações como registros sonoros de campo. E posso dizer que hoje em dia eu trabalho com field recording.

MI: Como “Ficções” surgiu para você como ideia e como ele foi trabalhado? Queria que você comentasse também a escolha do título.

VC: Quando fui convidada para lançar um álbum pelo selo, pensei em fazer gravações dos lugares próximos a mim. Queria registrar diferentes espaços acústicos. Como soava o interior da capela, do estábulo, o ambiente do vale e o bambuzal. Escolhi esses espaços por suas diferenças: espaços abertos e fechados, mas situados em um ambiente natural.

Inicialmente, a ideia na minha mente era muito mais minimalista do que terminou sendo o álbum. Imaginava registrar as reverberações dos espaços fechados e para isso experimentei com um triangulo. Para comparar como o som reverberava nesses locais e como se expandia nos espaços abertos. Só que depois de ter feito as gravações, elas não soavam como eu imaginava, então passei a encher esses espaços com outros sons. E isso me levou do registro a criação de espaços. Já não era a capela ou o vale que eu conheço, eram espaços imaginados, criados a partir da montagem de sons. E esses espaços imaginados pronto se configuraram pra mim como cenas. Sentia que algo estava acontecendo, que havia coisas que se desenvolviam no tempo, que se moviam por diferentes locais. Daí veio o nome. Já não eram espaços reais, eram espaços ficcionais. Acontecimentos imaginados se desenvolvendo no tempo.

No início o nome do disco ia ser no singular, e ia ser uma só track longa. Mas quando mostrei para um amigo, ele me falou que lembrava de um livro de Jorge Luis Borges, de mesmo nome, “Ficções”, até me passou um conto dele pra ler, “As ruínas circulares”.

Depois, junto com Gabriela Nobre e Daniel Alves, que masterizou o disco, pensamos na opção de separar a track em partes, já que tinha momentos distintos bem marcados. Daí passou, sem dúvidas, a se chamar “ficções”.

MI: Queria que você comentasse um pouco como você grava. Desde a escolha dos espaços (paisagens?), passando pela parafernália técnica, até chegar ao trabalho de alteração dos sons iniciais captados; como você trabalha?

VC: Eu gravo com um zoom H4N, utilizando os mics condensers estéreo que ele tem. Também tenho microfones piezoelétricos e hidrofones. Para “ficções” escolhi espaços que estão próximos a mim: o estábulo e seu ambiente circundante: o vale, a capela e seu ambiente circundante: o bambuzal. Escolhi esses espaços pelo que falava antes, as diferenças entre espaços abertos e fechados e como o som se propaga neles. Além do álbum, eu sempre gravo o que está ao meu redor e os lugares pelos quais me desloco.

Quando morava na cidade gravava no metrô, nas estações de trem, nas férias, nas ruas e sempre havia presença humana, é claro. Agora, morando no interior do Rio de Janeiro, gravo em ambientes naturais, onde tem uma grande diversidade de cantos animais e sons da natureza.

Depois de gravar vem o trabalho de escuta, de nomear, de escolher, de editar e de equalizar. Uma vez que tenho essas gravações “limpas” começa o trabalho de
montagem e composição. Ultimamente não faço muita modificação nos sons, estou gostando mais de deixar esses ambientes como ambientes mesmo, que podem ser utilizados como “fundos sonoros” ou como registros desses espaços/paisagens. Dependendo do tipo de trabalho, misturo essas gravações com outros sons: sintetizadores, instrumentos, samples e objetos sonoros. Trabalho muito na timeline e acho que esse processo me leva mais tempo do que o processo de gravar, até porque gravo muito!

MI: Em paralelo ao seu trabalho com arte sonora você vem se engajando na organização de alguns eventos e iniciativas. Penso na sua atuação junto à Residência São João, ao Estúdio Escuta… Queria que você comentasse um pouco isso e contasse como vem percebendo o cenário da música experimental no Brasil.

VC: Eu fui me envolvendo na organização de eventos porque gosto muito de fazer as coisas acontecerem. O Estúdio Escuta foi pensado junto com a Bianca Tossato e a Gabriela Nobre depois de termos percebido que dentro do ambiente da música tinha muitas pessoas que não entendiam o que fazíamos, que não sabiam qual era nosso trabalho e que se trata de um trabalho que merece ser pago. Começamos organizando eventos presenciais nos quais buscavamos divulgar o trabalho de artistas sonorxs e músicxs experimentais latinoamericanxs, com muito cuidado no espaço de escuta. Só conseguimos fazer uma edição, porque logo chegou a pandemia. Mas naquela ocasião o evento aconteceu num estúdio de gravação, com almofadas no chão e quase às escuras. Durante a pandemia passamos a trabalhar no formato de podcast, para continuar produzindo de algum jeito, dentro desse contexto limitado.

Em relação a Residência São João, eu a conheci como residente no ano 2017. Depois disso fui convidada em várias ocasiões pra voltar até que me mudei definitivamente para o Brasil. E quase sem me dar conta terminei me envolvendo na produção e na curadoria. Trabalho junto ao Antônio Sobral que é o fundador da residência. É um trabalho que desfruto muito porque me permite conhecer artistas de todo o mundo e também me oferece a oportunidade de criar projetos. No ano 2020 a gente fez um disco à distancia, o “Disco Postal” e esse ano produzimos o segundo, “Disco Cupido”. Pelas experiências que tive e tenho, eu acho que o cenário da música experimental no Brasil está bem ativo. Conheço vários projetos e artistas de diferentes lugares do Brasil que têm trabalhos muito interessantes e que continuam produzindo mesmo nesta
pandemia. Acho isso muito estimulante!

MI: Quais são os links de divulgação que alguém interessado em seu
trabalho pode acessar?

VC: https://veronicadaniela.bandcamp.com/
https://soundcloud.com/veronicadanielacerrotta
http://greenfieldrecordings.yolasite.com/2020.php
https://impulsivehabitat.com/releases/ihab139.htm
https://www.youtube.com/watch?v=AzQJz2mNJdc&ab_channel=ExposicaoUnas
https://phantomlimblabel.bandcamp.com/album/doce-percepciones-de-un-silencio

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