b-Aluria – “Monstera”

“Monstera” é o terceiro disco do b-Aluria. O projeto de Gabriela Nobre vem investigando, desde 2016, as relações entre som e palavra. O trabalho é resultado da relação da artista com seus toca-fitas (indivíduos com os quais ela trabalha) e uma monstera (com a qual tenta entender como tornar presentes as conjugações do sensível). É também um disco sobre traduções, sobre criar linguagens e abrir mão delas. A seguir, publicamos um texto da artista, escrito para o lançamento.

(ao final da postagem, você encontra o disco para ouvir)

SOBRE MONSTERA

“Monstera é o terceiro disco do b-Aluria. Nos últimos dois anos, entre 2019 e 2021, estive trabalhando nele. Quase sempre, de uma forma ou de outra, mesmo quando eu o deixava de lado por algumas semanas, ou poucos meses. Quando se olha para um recorte específico de tempo, é curioso perceber o quanto se consegue ver. Nesse caso, percebo tudo que mudou em mim e à minha volta nestes últimos anos. Mas ainda mais curioso é notar o que acontece com uma ideia quando eu me esqueço dela. É como se ela fermentasse. Ela infla, se reproduz. Digo isso porque Monstera teve muitas e diferentes fases, registros e rostos ao longo desse tempo.

I. Voz, texto

A voz é como um fio condutor em meu trabalho. Voz com palavras, voz com texto. Não é diferente nesse disco. Tão importante quanto ela, é de onde elas saem. Digo, a partir de quais mídias essas vozes são disparadas. Essas diferentes mídias têm sido toca-fitas, um sampler e um microfone (normalmente utilizado com pedais de efeito), ocasionalmente um megafone. Agora, quero me focar um pouco na relação que tenho com os toca-fitas. Antes, uma pequena digressão: aprendi a escrever virando ao contrário as folhas onde minha avó escrevia seus textos, tentando reproduzir a sua letra desenhando. E acho que comecei a escrever poesia e a me interessar por som e toca-fitas brincando de gravar por cima das fitas que minha avó gravava para ouvir seus próprios poemas. Meus toca-fitas estão, assim, intimamente relacionados a essas primeiras experiências.

Hoje, entendo que os meus toca-fitas são como objetos vivos, indivíduos que possuem uma forma própria de estar no mundo. Seus modos de existência, de onde posso perceber, passam pela importância (é justo chamar de ‘função’?) do registro: tornar vivo novamente o que não está mais por aqui. Ou, simplesmente, tornar uma outra voz a voz que já falou. A ação de duplicar a voz cria vozes fantasmas, tipos de presenças que são, e foram até aqui, as minhas espécies companheiras. Mais companheiro do que as vozes fantasmas, no entanto, é o próprio gravador que se torna, na hora em que gravo ou performo com ele, extensão dos meus dedos que correm por sua superfície e avançam, retrocedem ou pausam a fita. Extensão do meu próprio corpo. Ele trabalha comigo, pensa comigo, responde comigo. Quando quebra, é também a minha voz que quebra. Meu toca fitas é um indivíduo com o qual estou em relação.

II. Plantas, linguagem

Semelhante à relação que desenvolvi com meus toca-fitas, passei a reconhecer uma nova classe de indivíduos que começaram também a trabalhar comigo, as plantas. Para conseguir começar a acessar uma nova linguagem, a delas, precisei passar por uma pandemia e uma mudança. Mudança, aqui, não somente no sentido metafórico, mas também em sentido literal. Precisei me mudar de cidade e parti do Rio de Janeiro para Juiz de Fora, em Minas Gerais.

Entendendo que eu tinha algum espaço ao ar livre disponível, comecei a cultivar plantas. Inicialmente, não entendi o disparador desse desejo. Tudo começou de forma meio atrapalhada, intuitiva, e um tanto urgente. Depois, junto com algum estudo e desejo de não me tornar uma serial killer de plantas, vieram mais delas, e eu fui aprendendo a cuidá-las. Dentro de pouco tempo o espaço ao redor foi consideravelmente tomado. Foi intenso e inesperado notar que, ao longo das semanas, antes o que eu não conseguia nem perceber durante minhas caminhadas, tornou-se seres visíveis, e agora eu sabia também seus nomes: olá filodendros, antúrios, alamandas, etc, etc. Toda uma comunidade surgiu diante dos meus olhos enquanto eu me mantive afastada fisicamente da minha comunidade habitual de pessoas. Fiquei mais feliz com esse novo grupo ao redor de mim.

A partir do meu quintal, logo entendi que não eram só as plantas que estavam ali. Era um ecossistema com suas partes vivas, suas partes mortas, seus personagens desejáveis e indesejáveis. E o mais importante para mim: entendi que havia algo no aparente silêncio delas. E logo comecei a me perguntar como eu fui desenvolvendo um olho específico para ler o que essas plantas estavam dizendo. Na verdade não sei se se trata de um olho, ou um olhar. Entendo que elas não dizem nada para mim, que não se trata de uma forma de conversa como alguns testemunham (ao menos não no meu caso). Mas há “algo que acontece”. Há sim uma forma de comunicação.

Foi nesse contexto que eu compus a faixa “Monstera”. Além de conferir ao álbum seu título, ela é também sua faixa de abertura e a última que compus para ele. É a única que não tem voz ou texto. Para fazer essa faixa, procurei, de fato, lidar com a ideia das proporções esmagadoras dessa planta, além de todo o afeto que sinto no que se perde da minha linguagem até a minha Monstera. Ela é uma faixa de “exceção”, a única a falar sobre linguagem sem emitir palavra. As faixas que a seguem, “o som é um texto desmutado”, “mapas”, “era um fantasma” e “morte amor” são trabalhos que se dão com a palavra e, de formas diferentes, estão na busca por expor sua relação intrínseca com o som, com o ruído.

III – Monstera, um título e uma tradução

Uma tradução, convencionalmente falando, está sempre ancorada na expectativa de uma compreensão por vir. Meu desejo de comunicação com as plantas se dá a partir de uma tentativa de tradução sui generis: a tradução é possível a partir disso que se desprende da minha linguagem, aquilo que se perde da minha linguagem, de mim até elas. E nisso que é perdido e que se estende de mim ao outro é que está o que reconheço como uma comunicação possível.

A tradução mais eficaz de todas talvez seja quando não é possível transcriar nada, mas sim acessar a uma sensibilidade que nos leva a, ao contrário, abrir mão de entender a partir daquele que é o meu ponto de vista: “Ok, entendi. E posso dizer que entendi porque sinto em mim como isso ressoa. Só não poderia dizer a vocês o que é isso”. Então, paradoxalmente, o interessante para essa tradução é suspendê-la. Talvez negociá-la, justapondo a raiz da palavra, morfema que expõe sua base significativa e indivisível, à raiz da planta, seu órgão de fixação e nutrição? Uma tentativa, aqui, de tomar o “sensível como objeto”, como escreve Emanuelle Coccia, ao que acrescento: tentar tornar radicalmente presentes as conjugações do sensível. Acolhê-las.

Monstera, na verdade Monstera Deliciosa, é uma planta da família das aráceas, oriunda do México, popularmente conhecida como Costela de Adão. Comprei uma muda de Monstera e, de início, a interpretei mal. Deixei ela em um vaso, dentro da minha casa, perto de outras aráceas. Ao final de dois meses, percebi que algo não ia bem. E o que não ia bem é algo intraduzível, de forma que eu não sei dizer exatamente, mas era como se sua presença tivesse sido diminuída. Uma planta quando vai morrendo, vai se tornando ausente. Na nossa linguagem, posso dizer que o que não ia bem era: falta de luz e, possivelmente, falta de umidade. Decidi plantá-la diretamente no solo. Tudo vai bem agora. O quanto e o quão rápido ela tem crescido me assusta. Sinto no meu corpo a razão de seu nome.

Toca fitas, monstera e microfone começam a se reconfigurar no meu mapa. De onde os vejo, percebo suas fronteiras enquanto indivíduos proficuamente borradas. A cada dia entendo que só há produção sonora de interesse, ou escrita, se as partes envolvidas estiverem reconhecidas ‘em relação’. Vem se ampliando para mim a ideia sobre o que é construir um coletivo, sobre o que é estabelecer um comunitário. E é dessa mistura que consigo entender e distinguir um interesse. E é desse ponto que começo a pensar no plano das minhas criações isso que convencionamos chamar “natureza”.

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