Flavia Goa & Marcos Campello – “Zinga”

“Zinga” marca a colaboração entre Flavia Goa, artista sonora, e Marcos Campello, guitarrista freestyle. Conversamos com os dois sobre o lançamento e também sobre suas trajetórias no meio da música experimental.

Música Insólita: Conte um pouco sobre a trajetória musical de vocês. Como tudo começou e quando vocês passaram a se associar à música experimental? Existe uma figura ou situação que foi fundamental para esta aproximação?

Flavia Goa: Comecei a me descobrir dentro desse universo quando comprei minha primeira guitarra tonante, azul e branca, braço não possuía tensor e, para que não empenasse pela tração do encordoamento, era de espessura meio larga. Eu sabia que o aparelho de som da sala me esperava por algo, eram dois tracks e funcionava para experimentar e comecei gravando guitarra no aparelho de som com duas tracks. Eu fazia loops de sons de guitarras e até hoje tenho as fitas gravadas com esses sons, quem sabe para lançamentos futuros.

Marcos Campello: Comecei a tocar guitarra porque meu pai tocava e daí às vezes a guitarra ficava encostada e eu pegava. Acho que esse começo é sempre experimental. Depois é que a gente começa a separar as coisas, dependendo do caminho estético que encanta, e eventualmente chega num lugar que se alimenta dele mesmo, quase um anti experimental ou um diamante que devora o brilho que reflete em si mesmo. Me lembro de uma fita do Queen que ouvi moleque que me chocou muito, era do disco ‘Miracle’, e aquela forma de pensar os arranjos me pegou. E as partes de guitarra, a construção dos solos… tudo isso tacou fogo na minha cabeça.

MI: Conta um pouco da sua prática instrumental: o que vc procura explorar no universo da guitarra ‘expandida’? E quais são suas maiores referências dentro desse repertório? 

FG: Desde quando escutei Glenn Branca e Sonic Youth eu já me encontrava nesse lugar de fazer afinação personalizada. Percebi que havia uma forte conexão com esse desdobramento sonoro das cordas. Um pouco depois passei a fazer ritmos batucando, tive um baixo de luthier onde pude explorar algumas gravações e gravar mais guitarra como acompanhamento com esse velho costume das tracks. Gosto muito do chinese cookie poets e conheci o disco “oco”, de J-P Caron com Marcos Campello um pouco depois. Procurando conhecer mais, descobri Derek Bailey entre outros, mas sempre tive comigo essa vontade maior de fazer improviso rítmico e de me encontrar com o desconhecido.

MC: Nunca me dei muito bem com isso de ‘expandida’… sempre achei que, ao contrário, quem não se joga na guitarra é que talvez toque uma guitarra ‘reduzida’… porque as possibilidades estão aí, na mão, literalmente. Mas daí entra a orientação estética e as escolhas de cada um, que dependem de muitas variáveis. O que eu busco explorar na minha prática segue duas linhas: uma é a do que o corpo propõe e outra é a do que a cabeça propõe. E a partir daí fazer com isso atinja algum nível de possibilidade de existência, seja numa apresentação ao vivo, numa gravação, ou mesmo no momento do estudo. A referência que me vem agora é o Edward Van Halen.

MI: Falem um pouco sobre o disco. De onde surgiu a ideia de realizar esta parceria e como foi o processo de elaboração deste trabalho? 

FG: Eu já estava com muito interesse em encontrar alguém para fazer esses sons ritmados e quebrados com guitarra e sempre gostei de fazer parceria e já estava acompanhando o Marcos pra somar.  

MC: Eu já queria tocar com a Flavia tinha bastante tempo, mas a gente nunca combinava e tal. Daí um dia a gente se falou e combinou. E calhou que na época eu tinha acabado de receber um gravador de fita k7 como pagamento por um trabalho e resolvemos registrar nele. Mas o processo de tocar foi bem simples: tinha um violão elétrico e uma guitarra, cada um em um canal, e saímos improvisando.

MI: Vocês participam da cena de música experimental já há um tempo e já realizaram diversas parcerias, eventos, entre outros. Qual a opinião de vocês sobre este cenário da música experimental no Brasil hoje? 

FG: Na verdade não me vejo como uma artistas que estava se apresentando nos últimos anos pra cá, eu fiquei um pouco tempo somente frequentando os lugares e passei a trabalhar com trilha sonora, cheguei a começar um ensaio para tocar numa peça para estrear em 2020, mas entrou a pandemia da covid-19…

MC: Acho que por um lado existe muito amor que flui entre muitas pessoas que participam deste cenário, e é incrível como surgem coisas lindas disso. Por outro lado, esse tipo de música mobiliza pouco, pensando em termos de mercado e cifras que vemos no mundo pop ou indie. Disso surge uma grande dificuldade de se dedicar integralmente, o que na verdade é um pouco triste se pensarmos na quantidade de artistas incríveis que existem aqui e nessa falta de perspectiva que se impõe (isso passando ao largo da pandemia e da política do governo federal de esvaziar qualquer fonte de pensamento criativo). Para além disso, existem pessoas que mantêm, com muita dedicação, festivais independentes para divulgar artistas independentes expondo seus trabalhos via internet. Acho que esse caminho de rede é onde dá pra evitar a algoritmocracia.

MI: Quais são os perfis nas redes sociais ou sites onde as pessoas podem conhecer mais do trabalho de vocês?

FG: @flygoa | Linktree

MC: https://marcoscampello.bandcamp.com/

instagram – markito_campello

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