Gabriel Dargains – Fragmentos

Fragmentos” é o disco de estreia de Gabriel Dargains. O trabalho foi composto a partir de gravações de campo feitas através de objetos e pequenas peças. A seguir, você pode ler uma entrevista feita pela ocasião de seu lançamento pelo selo Música Insólita,  na qual o artista conta sobre seus processos e referências.

Música Insólita: Conte um pouco sobre a sua trajetória na música até aqui. Como e quando seus interesses por sons começaram?

Gabriel Dargains: Comecei a estudar na escola de música Villa Lobos aos 8 anos, onde iniciei meus estudos em piano e tive uma formação erudita. Sempre tive uma briga com a visão inteiramente técnica de intérprete e isso me fez tomar caminhos mais criativos ao longo do meu estudo. Também tive uma professora que sempre me incentivou a exercitar caminhos mais narrativos e poéticos da interpretação. Eventualmente me interessei em bolar minhas próprias histórias, mundos, mapas, e quando estava começando a entender que sons não existem só dentro do sistema temperado conheci professores como o Ale Fenerich e o Paulo Dantas que catalisaram uma mudança enorme no que eu pensava como música e por consequência minha forma de compor também. 

 Acredito que talvez meu interesse por sons começaram junto com meu interesse por vários outros sentidos. Acontece que durante meu ensino médio já era muito claro que meu sonho era estar trabalhando com música, tocando, compondo, e por isso junto com o estudo que eu já tinha, os sons se destacam. Mas desde que eu estava saindo da escola e entrando na graduação eu estava em um caminho de buscar sensações, tato, visão, espacialidade, gosto – andar de olhos fechados para sentir o chão da rua, olhar mais para o topo dos prédios e árvores, buscar sensações cada vez mais específicas. De repente o som do piano não era mais suficiente, eu queria ouvir ruídos, sons complexos, organizar e desorganizar barulho, e o piano preparado começou a tomar mais espaço no meu lugar de desejo, uma fonte de sons e ruídos onde as possibilidades se multiplicam. Nessa busca acabei me juntando também com outras pessoas que também estavam procurando – como a Jessica Marinho, Paulo Nasnuven, Sergio Fiuza – e foi muito incrível construir uma linguagem enquanto cada um queria encontrar seus próprios sons e ruídos. 

MI: Formas especiais de gravar é algo que se evidencia ao longo da escuta do seu disco. Em seu pequeno texto sobre ele, você usa a expressão “ouvir com o ouvido das coisas”. Pode comentar sobre isso e contar como foi o processo geral de composição desse trabalho?

GD: Quando eu era criança minha mãe tinha uma peça de cerâmica que era um caldeirão com umas casas compridas em cima, tinha uma varandinha e uma escada que subia da porta da primeira casa até a porta da última. Dentro do caldeirão você podia colocar uma vela, era um difusor. Sempre olhava de longe, porque ficava no alto de uma prateleira e ficava imaginando como seria por dentro das casas, que tipo de pessoas viviam ali e queria ser pequenininho para poder bater naquela porta e visitar os cômodos. Quando um pouco mais velho, tive a chance de ver de perto esse difusor, depois de uma mudança, o peguei nas mãos e meu primeiro reflexo foi olhar por dentro. Estava surpreendentemente vazio, não tinha cômodos e nem pessoas – mesmo que eu fosse pequeno não poderia morar ali. Desde então surge um tema que me fascina em toda forma de arte, a imaginação que funciona quase como sonho a partir de coisas reais, fantasia. Todas as coisas podem suscitar pensamentos e devaneios, e mexer com a impressão que a gente tem sobre determinado espaço/música/objeto é algo que sempre me interessou. Por conta dessa atenção em miudezas sempre tive empatia com cantinhos e espaços que não recebem atenção, olhava para o chão quando criança pensando nas plantas entre as pedras portuguesas. Estendi o pensamento de viver naquela peça de cerâmica para estar em cantos onde olhava, que tipo de vista teria, o conforto daquele espaço, perspectiva.

Esse processo de me colocar em lugares que não existem, de formas que eu não existo eventualmente me alcançou durante meu estudo de gravações de campo, quando tive a ideia de usar microfones de contato, para experimentar como seria ouvir os sons da minha janela através de um violino, ou de uma lata de alumínio, ou de uma caixa de papel. Esses testes me deram resultados que eu nunca ouviria naturalmente, como se aqueles objetos ali fossem uma prótese da minha audição – eu ouvi os sons da mesma fonte sonora, mas não daquela forma. Então é como se através desses objetos a gente tivesse outro ouvido, outra perspectiva diante das mesmas ocorrências e isso me deixou muito empolgado com as possibilidades, as diferenças e a mudança completa de sensação. Procurando o que fazer com essas gravações e testes que fiz, resolvi criar pequenas peças onde a partir desse material, que transformavam gradualmente as gravações em atmosferas meio oníricas, quase como estar acordado e de repente estar em um devaneio e depois em outro. Então usei alguns trechos de outras composições minhas, para fazer essas transições de gravação de campo para essas atmosferas. Eventualmente notei que tinha algumas coisas prontas e que poderiam funcionar bem juntas se eu mudasse a ordem, e assim surgiu o Fragmentos.

Foto feita durante as gravações e testes com as gravações através de objetos: um copo de plástico, uma xícara de vidro com uma tampa de porcelana, uma lata de alumínio e uma caixinha de alumínio. Imagem: Gabriel Dargains

MI: O que você ouve? Você faz algum tipo de distinção entre o que ouve no seu cotidiano e o que ouve como fonte de pesquisa?

GD: Eu ouço muita coisa, tenho um gosto eclético e é possível me pegar ouvindo desde um pagode dos anos 90 até um city pop. Cresci ouvindo coisas de rock, metal, progressivo, indie entre vários estilos, e eventualmente comecei a ouvir muitos jazz, musica brasileira instrumental, mpb, lo fi hiphop, ambient,  gravações de campo, musica experimental, noise. Acredito que cada estilo serve a um propósito e gosto de compôr a experiencia do meu dia com as sensações que recebo através de diversas músicas. Ouço as coisas muito por prazer, inclusive as que servem para a pesquisa, apesar de exigirem modos de escuta diferentes. Para citar alguns nomes: Soweto, Tatsuro Yamashita, Genesis, Little Joy, Charles Mingus, Chet Baker, Weather Report, Joana Queiroz, nymano, Joni Mitchell, AJJ, Hiroshi Yoshimura, Toshyia Tsunoda, Alexandre Fenerich, Paulo Dantas, Jessica Marinho, Verónica Cerrotta, Suzueri, Ami Yoshida, The Kinks, Jack Stauber, Steve Lacy, Fingerspit, Ryuichi Sakamoto, Paulo Nasnuven, Epilif, Akiko Yano, Ravel, Mac Demarco, Taeko Ohnuki, Disasterpeace, Rie Nakajima,  mas a lista continua e é gigante.  

MI: Você vem trilhando um caminho no trabalho com astrologia e geomancia. Quer falar um pouco sobre isso? Há algum trânsito entre suas atividades com música/sons e essas outras atuações?

GD: Meu trabalho com oráculos começou justamente em um dos momentos em que eu estava incomodado com a visão tecnocrata do ensino de música. Sabia que em algum momento na história era ensinada a matemática, astrologia, a geometria e a harmonia (que hoje seria algo como acústica e não a harmonia como conhecemos) juntas. Quis entender como os assuntos de astrologia e som se cruzavam em um nível cosmológico e também prático, comecei a entrar em uma investigação super longa que me tomou muitas horas de estudo, muitas anotações e eventualmente comecei a fazer aulas de astrologia para poder me aprofundar. A investigação não rendeu resultados muito concretos, mas encontrei sistemas possíveis para compor a partir de significados e até compus algumas peças durante a pesquisa para uma série que chamei de Observatório. Mas não cheguei onde queria, que era uma correspondência mais definitiva. Acabei continuando a estudar astrologia porque me interessei muito pelo assunto, já gostava desde criança, mas comecei a pensar que queria fazer algo com o estudo que eu tava fazendo, colocar em prática esses conhecimentos que vinha acumulando.

Antes de estudar astrologia a fundo, eu pesquisei sobre outros oráculos também, como iching, quiromancia, tarot e foi nessa época que conheci a geomancia. Quando comecei a estudar astrologia e vendo que eventualmente poderia trabalhar com isso, pensei em resgatar o que eu sabia de geomancia para poder dar consultas horárias. Hoje não procuro muito misturar as coisas, tirando em alguns momentos, porque durante esse meio tempo percebi que usar símbolos faziam sentido para mim como recurso de análise e notação musical – as vezes nas minhas partituras tenho notas que são astrológicas para me lembrar de algum caráter, ou clima ou mesmo para marcar sessões.

Conheça mais do trabalho de Gabriel Dargains nos links abaixo:

Soundcloud – https://soundcloud.com/grabiel-dargains/counting-out

Instagram – instagram @grabiel.dragaos

facebook –  https://www.facebook.com/gabri.dragao

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