Taticocteau – Quiasma

Tatiana Drummond Moura (aka Taticocteau) tem sua pesquisa artística centrada na relação entre imagem e som, visando a dissolução das fronteiras entre estes meios. “Quiasma”, trabalho resultado de sua residência artística no Festival Novas Frequências de 2021, é seu segundo lançamento pelo selo Música Insólita.

Um dos desenhos realizados com alunos de Taticocteau, em sala de aula e também durante oficina de sonificações ministada na Biblioteca Parque Estadual no Rio de Janeiro. A oficina foi aberta a alunos da rede estadual de ensino e fez parte do projeto “Quiasma” submetido à residência artística realizada pelo Festival Novas Frequências. Foi solicitado aos estudantes foram que expressassem livremente seus anseios, experiências e pensamentos durante a pandemia através de desenhos. Todos os desenhos da oficina foram sonificados via o app Audacity. Algumas ilustrações dos estudantes do município foram sonificadas através do Pure Data.

Música Insólita: Conta um pouco sobre os processos e contexto de criação de “Quiasma”?

Taticocteau: O “Quiasma” é o resultado de todo um processo que se iniciou com a 1ª residência artística promovida pelo Festival Novas Frequências (11ª edição: “Para onde agora?”), para qual fui convidada em 2021. Eu e Mbé (Luan Correia), a convite de Chico Dub, fomos residentes do programa e apresentamos nossas obras finais na programação do festival em dezembro de 2021. A residência contava com aulas que faziam parte do ciclo de saberes realizado pelo Novas Frequências, que eram abertas ao público mediante inscrição, bem como com mentorias de artistas sonoros: Paulo Dantas, Felicia Atkinson e Daisuke Ishida.1

A construção do trabalho começou a partir de conversas em reunião com Chico Dub e Natália Lebeis, onde foi posta como questão o tema da 11ª edição do NF: “para onde agora?” Chegamos a conclusão de que no contexto pós-pandêmico (ou quase pós), os rumos que serão tomados devem ser múltiplos e fruto de decisões coletivas, não sendo possível sugerir uma só “resposta”. Assim, pensei em trabalhar como uma espécie de “artista-etc”1 aproveitando minha atuação como professora de artes da rede municipal do Rio de Janeiro, além do meu projeto de sonificação de imagens e de glitch art2. Ficou decidido que utilizaria, de maneira dialógica, material produzido pelos meus estudantes (imagens e falas), bem como material elaborado durante uma oficina de sonificação de imagens agendada pelo NF (e ministrada por mim) com estudantes da rede estadual.

Os desenhos realizados na oficina de sonificação, que ocorreu no dia 03 de dezembro de 2021 na Biblioteca Parque Estadual (Rio de Janeiro/RJ), foram convertidos em ruído através do Audacity, assim como já havia sido feito com as ilustrações dos meus alunos (salvo algumas sonificações que foram realizadas no Pure Data). Em seguida, os ruídos integraram a faixa que já estava estruturada com sons das imagens e vozes dos meus estudantes colaboradores. A única proposta feita para os participantes da oficina foi representar livremente através de desenhos suas considerações sobre a vida durante e após a pandemia da COVID-19. Aos meus estudantes foi feita, anteriormente, a mesma proposta, porém os convidei a gravar falando suas considerações sobre o tema e, assim, recebi alguns áudios via WhatsApp. Os áudios foram convertidos em mp3 e editados no Notepad++ e no Hexfiend, criando loops e glitches.

A faixa “Quiasma” foi construída com camadas de ruídos de imagens e falas ora interrompidas, ora repetidas, criado uma “resposta” nebulosa e caótica para essa dúvida de que rumo vamos tomar depois de um período de tantas perdas humanas, mudanças econômicas, em um período político tão retrógrado. Essa, na verdade, é uma não-resposta, uma indefinição, mas que, de certa maneira, pretende provocar que é preciso aceitar o debate, o diálogo, algo tão difícil numa época onde todo mundo sabe tudo.

Pensando na multiplicidade de respostas pra uma mesma pergunta, acreditando que seria impossível respondê-la individualmente, lembrei do termo “quiasma” de Maurice Merleau-Ponty1, pois percebe-se que, se essa reposta que buscamos parte não só de nós, mas de outros, pois não estamos ilhados, a comunicação é proveniente das vozes desses corpos, de seus anseios, desejos, confusões, do seu entrelaçamento, das tensões, de como convivem e se deslocam no mundo. É nessas negociações entre os corpos que encontram-se pontos de tangência e incongruência. O que estaria entre esses pontos? Qual seria esse “entre”?

MI: Onde podemos ouvir mais do seu trabalho?

Taticocteau:

Soundcloud onde divulguei minhas primeiras sonificações do projeto “Partituras”:

Soundcloud atual:

Bandcamp:

https://tatianadrummondmoura.bandcamp.com

Álbum de estreia no selo Música Insólita, junho de 2019:

Portfólio:

https://taticocteau.carbonmade.com

Instagram:

https://www.instagram.com/taticocteau/

Texto publicado na revista Noise Invade:

Vídeo “Fraturas Zen” de Taticocteau e Lilian Nakahodo para Festival CHIII 2ª edição (2021):

Vídeo “Rio de Janeiro jardim das milícias”, para o canal Frestas Telúricas:

Vídeo “Mindfulness ou Deus te elimine” no canal do F(r)esta Festival de Improvisação:

Vídeo “Partituras aufheben!” no canal do F(r)esta Festival de Improvisação:

Taticocteau no programa “Contextura Sonora” de Angelo Esmanhotto (15/03/22):

  1. 1Podemos encontrar “O entrelaçamento – o quiasma”, no livro “O visível e o invisível” (páginas 127/150).

1Em referência ao termo cunhado por Ricardo Basbaum em seu texto: https://rbtxt.files.wordpress.com/2009/09/artista_etc.pdf

2Trabalho que desenvolvo desde 2017/18. Um pouco mais sobre isso neste artigo publicado no blog do MI: https://musicainsolita.com/2019/02/12/tatiana-drummond-moura-sons-imagens-textos-em-sintese/

1Residência artística descrita no penúltimo parágrafo do texto sobre a retrospectiva da 11ª edição do NF: https://novasfrequencias.com/2021/sobre/

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