Lucca Totti – Terramuda

“Terramuda” é o disco de estreia de Lucca Totti, artista sonoro, compositor e improvisador, nascido no Rio de Janeiro. O álbum foi composto a partir de gravações de campo e de objetos, combinadas a processamento e síntese. Leia abaixo a conversa que tivemos com o artista pela ocasião do lançamento e ouça o disco no link disponível ao final da entrevista.

Anotação dos processos de composição de “Terramuda”, disco de estreia do artista sonoro Lucca Totti. Imagem: divulgação

Música Insólita: Conte um pouco sobre a sua trajetória na música até aqui. Como e quando seus interesses por sons começaram?

Lucca Totti: Deixando bastante coisa de fora, vou focar em três pontos que foram mais influentes musicalmente. 

Comecei tocando guitarra com 10 anos, mas por histórias que contam sobre mim eu já me interessava por sons desde bem pequeno. Por quase toda a trajetória tudo girou em volta da guitarra, que ainda hoje tem um papel bem importante pra mim. O primeiro estilo que eu comecei a tocar foi rock clássico dos anos 60 e 70. Depois passei a me interessar profundamente por blues, partindo da influência do meu primeiro professor, o que levou a um momento bem curioso na adolescência em que eu praticamente só ouvia blues dos anos 1920-1960 – o que ainda é um dos repertórios mais centrais pra mim.

Com o passar do tempo e buscando um circuito musical mais amplo, comecei a me aprofundar no jazz, outro estilo ainda fundamental pra mim. A partir disso as coisas se expandiram bastante, comecei a levar o estudo e a prática mais a sério e decidi cursar licenciatura em música na Unirio. Entrando lá tive contato com uma variedade bem maior de práticas, além de ter tido algumas experiências negativas com o ambiente do jazz e o que significava, na minha cabeça, ser um guitarrista nesse estilo – o que me afastou um pouco disso em busca de outras coisas.  

Lucca Totti em meio a parte dos materiais utilizados na composição de “Terramuda”. Foto: divulgação.

Nessa época eu havia começado a ouvir álbuns de jazz mais experimentais e livres, o que foi realmente um choque com várias ideias sobre o que a música deveria ou poderia ser (um dos primeiros que me marcou profundamente foi o duo Anthony Braxton e Derek Bailey, que foi um certo ponto de passagem entre o jazz e o “improviso livre”). Buscando direções novas, conheci na Unirio o mundo da música experimental, especialmente através dos professores Paulo Dantas e Alexandre Fenerich, e dos colegas da Prática de Conjunto e da Fábrica de Sons Eletrônicos. Isso levou de forma bem bagunçada a uma variedade de práticas que me guiam desde então: improvisação livre, gravação de campo, música experimental, arte sonora, partituras verbais, música eletroacústica, sonologia, composição instrumental, programação musical, sistemas de afinação, etc. Tudo devido a uma circulação muito boa de ideias e experiências práticas naquele ambiente, que foi o que de fato me formou como artista.

MI: Como foram os processos de composição do Terramuda? Como foram os seus caminhos de trabalho com gravações de campo, gravações de objetos?

LT: Esse álbum teve um processo bastante peculiar. Por causa do confinamento da quarentena, passei esse tempo bem restrito a trabalhar apenas com o computador e material gravado, o que direcionou bastante o processo. Na parte técnica, o álbum foi feito inteiramente com o SuperCollider em seus processamentos, e no Reaper, para montagem, então havia essa restrição quanto a ferramentas na produção.   

Aproveitei essa situação pra explorar a fundo pela primeira vez procedimentos “eletroacústicos”, de forma que o processo do álbum foi principalmente um processo de aprendizado, de experimentação prática do que eu conseguia fazer com essas ferramentas e materiais novos pra mim. Então o meu foco não foi tanto o material das gravações propriamente, mas mais os processamentos sonoros e procedimentos composicionais que eu ia descobrindo e testando, sempre em relação com o material mas atravessado por esses procedimentos.

Especificamente sobre as gravações, que são a base de todo o material, elas haviam sido feitas na Serrinha (RJ), onde gravei os ambientes do entorno e também alguns objetos encontrados em caminhadas por ali. O álbum parte de algumas sonoridades que me são especialmente afetivas nessas gravações, pequenas características nesses sons que por algum motivo tocam a minha escuta e servem como direcionamento – por exemplo: a sonoridade de caminhar na terra que aparece limpa no final do álbum e processada no início; os pequenos elementos percussivos que aparecem por baixo da textura central da primeira faixa, etc.. A partir disso, a ideia mais composicional foi a de utilizar esse material sempre processado eletronicamente até uma certa “zona de incerteza” entre o sintético e o “orgânico”, de forma que fosse incerto se os materiais sonoros eram gravados ou sintetizados. 

A primeira faixa segue inteiramente essa ideia, sem nenhum som que seja uma gravação “limpa” nem puramente sintetizado, buscando esse efeito de uma sonoridade estranha mas com índices de “vida” na forma dos sons – o que pra minha escuta é bem sucedido nessa faixa. Outro foco é a relação rítmica e temporal que emerge da sobreposição de camadas heterogêneas, com elementos pulsados em diferentes velocidades e elementos sem pulso em uma textura bem movimentada.  

A segunda faixa mantém a ideia da incerteza em quase todos os elementos, mas introduz os sintetizadores puramente eletrônicos, bastante por limitação minha de não conseguir processamentos que levassem a resultados semelhantes mantendo a ideia da incerteza. A gravação do ambiente também soa bem mais limpa, apesar de ser na verdade processada, como um certo polo contrário ao sintetizado puro. Então o foco da segunda faixa passou a ser mais formal e do fluxo temporal, buscar um contraste com a faixa inicial que é bastante direcional e intensa, enquanto a segunda busca algo mais estático e lentamente flutuante, que só evolui para uma direcionalidade no final – o que foi mais difícil de realizar e talvez menos bem sucedido.   

Ao todo, só o processo de composição durou 10 meses, muito por essa dinâmica de experimentação e aprendizado, vários trechos e partes inteiras foram retrabalhados até o final do processo. Depois a mixagem que foi trabalhosa dada a quantidade de elementos, com o foco bastante no equilíbrio das camadas e planos dos sons. E na masterização tive a sorte de contar com o Paulo Dantas pra consertar todos os problemas que eu tinha causado nas etapas anteriores. 

MI: Como se deu a escolha do título e da arte de capa? O título se relaciona com o material sonoro em quais medidas?

LT: O título surgiu depois da primeira faixa e antes da última, vindo dessa dinâmica de manipulação da sonoridade das gravações, procurando algo que evocasse pra mim a dimensão de estranheza que interfere e se soma à sonoridade usual daqueles ambientes (normalmente meus títulos são bem inexplicáveis até pra mim mesmo).  

A capa surgiu no final do processo a partir de um material da Sofia Magalhães, que também ajudou com os elementos gráficos no geral e com encarte. A ideia era um pouco pegar esse tema “natural” mas manipulando por colagem dessa fotografia, o que de alguma forma acaba sendo análogo aos processos musicais do álbum.  

Arte de capa do disco “Terramuda”, por Sofia Magalhães e Lucca Totti

MI: Como quem se interessar pode buscar mais sobre o seu trabalho?

LT: Há algumas páginas disponíveis:

Meu Soundcloud, que é um pouco um arquivo de produções antigas: https://soundcloud.com/lucca-totti

Meu Bandcamp, ainda embrionário, mas já com algumas faixas: https://luccatotti.bandcamp.com/

Uma composição instrumental que fez parte recentemente da Bienal de Música Contemporânea:

E um trabalho coletivo recente com a Fábrica de Sons Eletrônicos e o pessoal da Unirio:

(Além de pelo Instagram, Facebook, etc. Adoraria receber retornos sobre o álbum!)

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