Romulo Alexis + Chico Jalala – Cadernos pandêmicos vol.1

Arte de capa de Cadernos Pandêmicos Vol.1, de Romulo Alexis + Chico Jalala

Música Insólita: “Cadernos Pandêmicos Vol.1” marca a primeira parceria de vocês. Mas queria começar com vocês contando sobre suas trajetórias individuais.

Romulo Alexis: Sou músico (des)compositor, improvisador, performer, artista visual, produtor cultural, educador artístico, autor de trilhas sonoras, videoarte e cinema experimental. Desde 2008, estudo criação musical em tempo real e processos criativos multidisciplinares em arte. Já colaborei com mais de 250 artistas internacionalmente e participei de festivais  de música experimental no Brasil e Europa. Meu principais projetos é o Radio Diaspora, de free jazz e eletrônica.

Chico Jalala: Me vejo como artista do corpo, ainda que eu não saiba hoje bem o que isso significa. Mas tudo bem, não deixa de ser interessante entregar um enigma. E tudo bem também porque isso tem a ver com o modo com que ocupo os meus dias e estabeleço minhas relações e minhas recusas. 

Vou me demorar um pouco aqui, tudo bem? Acho que essa tentativa de contar uma história a partir das inquietações presentes tem a ver com improvisar, e tem a ver com habitar esse espaço que habito agora, de múltiplas passagens, onde me interessa e me mobiliza mais a solidariedade sonora do que uma obra. Esse disco tem a ver com isso. 

Trajetória. Acho que no desenho foi onde ‘tudo’ começou, lá atrás, antes e durante a minha escolarização. Um dansenho. E eu não sei se formação é a palavra. No entanto, eu aprendo continuamente com o desenho, se ele for tomado como sujeito. Acho que aquilo que acontece de tão especial pra mim no desenho e na voz eu tento ‘recuperar’ no instrumento. O desenho para mim também é um modo de tomar, de poder suspeitar e de poder reconhecer como os fazeres artísticos apontam para fora deles, para o mundo, mas daí não mais como explicação, mas como formulação de figuras que me contam delas. Figuras do impensável a partir do desenho. Foi improvisando, já adulto, que entendi essa condução da própria coisa que se faz. Não apenas na continuidade da minha ação, ainda que esse processo dependa do meu engajamento. De repente, outra coisa começa a acontecer e é isso que me interessa. Enfim, é paradoxal, é uma espécie de núcleo de acontecimento que eclode. É uma articulação-desarticulação de meios e nós. Eu falar sobre isso é uma continuação do mesmo processo.

Eu me graduei em música, como pianista, em 2006, depois fiquei cerca de dois anos sem tocar. Naquele momento eu estava interessad em entrar no meu próprio corpo. Fui ensaiar peças, fui dançar, fui ser destruíde. Fui operar um outro nascimento, ainda que ninguém nasça exatamente quando queira. Eu queria muito entender se eu poderia construir vias para o corpo tocar, e isso fez com que eu mergulhasse na questão da voz e da vocalização, pois é uma via de ‘apropriação’ do próprio si do corpo – e digo ‘apropriação’ assim, entre aspas, pois gosto da noção de ‘si’, talvez conversando com o estudioso Foucault; um si que escapa à individualidade fixada e se compõe na subjetivação, ou seja: o si é um movimento. Então a voz pra mim já começou como outra coisa, não tem necessariamente muito a ver com canção. Ter trabalhado cerca de cinco anos com o Antônio Januzelli, o Janô, durante meu mestrado e depois um projeto com verba ProAC, foi fundamental para começar a dimensionar as minhas questões. Eu tive muitas ajudas de muits artistas incríveis. Então tanto os núcleos de corpossom – ou membranas de (v)orpossom – esse trabalho afetivo-vocal que depende também de um grande vigor físico, quanto minhas relações com o piano, partem um pouco dessa escuta estranha para com o fazer, dessa individuação de ‘foras’, de outridades. 

Da minha parte, ofereço ao presente disco o piano, que é uma formulação de pianismo, território para o qual, conforme eu contava, aos poucos fui retornando, muito lentamente. Eu chamo de ‘pianismos da borda’ o modo que eu trabalho. A figura do pianista Cecil Taylor, que é uma importante referência pra mim, me parece uma matriz de contínua inquietação, junto com outras pessoas. Mas retorno a isso na pergunta das referências… 

Por ter feito esse trânsito entre música, som, teatro, voz e movimento, era de se esperar que eu tivesse habitado esse grande campo que chamamos por sonoplastia. De 2005 a 2017 eu tive oportunidade de formular algumas sonoplastias especialmente de espetáculos de teatro. Eu dou esse ano, 2017, não porque eu tenha propriamente parado, mas porque eu acho que aquele momento foi um ponto de inflexão no meu pensamento… passei a entender melhor o que uma prática de escrita, a própria noção de escrita, e o dizer da pesquisa significavam pra mim, então todo o espaço mudou: mudaram as posições, as escutas. As relações mudaram. Meu movimento pessoal de não-binariedade de gênero, que já tinha sido disparado em 2014, se intensificou aí. Coincidentemente ou não, numa outra via, foi no meio daquele ano que comecei a ler os escritos de Gilbert Simondon, que me ajudam a pensar os processos com mais radicalidade. Ele é um autor que escreve muito nos anos 50 e 60, ‘caipira’, neurodivergente, que escreve filosofia a partir dos seus limites, e não da centralidade, seja nas obras em que ele fala da técnica ou nas que fala da individuação. Ele teve uma retomada expressiva nos anos 90, principalmente pelo movimento das mulheres pesquisadoras: epistemólogas, filósofas, antropólogas. Mas o modo como ele é lido hoje é bem distinto do tom dessa retomada, por causa de uma virada positivista na academia nos 2000’s. Ou seja, não tem a ver tanto com saber se se trata ‘autêntico’ Simondon: se o levarmos a sério (não enquanto pensamento francês e não enquanto um ‘valor’ que vive na periferia neurodivergente do ‘pós-estruturalismo’ da academia positivista-supremacista neoliberal, mas enquanto uma possibilidade de hackeamento para a gente formular algumas questões que nos caberiam), não podemos pensar nem pesquisa e nem currículo da mesma maneira… por quê estou falando tudo isso?? Simplesmente porque a questão do hackeamento intelectual é super cara a mim neste momento, tanto artisticamente, quanto por causa das minhas posições de gênero, quanto na questão da propriedade intelectual mesmo… com vias a formular perguntas que me caibam perguntar.

MI: Como se deu esse encontro de vocês que desaguou na criação de um duo?

RA: Nos conhecemos em uma oficina de improvisação vocal ministrada pelos improvisadores Phil Minton e Audrey Chen no CCSP em 2013 eu acho e seguimos nos encontrando eventualmente na cena de música experimental e de performance de SP e no Butantã nos ônibus que vão de São Paulo para Cotia, mas confesso que não lembro como isso tudo começou de gravarmos estas impros (risos).

CJ: Me lembro também de nos encontrarmos em jams de dança, dançando, entre 2014 e 2015… esse duo não tem um nome, por enquanto, pois ele é só a gente mesmo, nossos encontros, nossas disponibilidades. Acho que essa questão do duo, não sei se é uma questão, mas talvez a próxima resposta complemente isso, já que a gente está entendendo isso, essa mesma questão, na medida que pensa e produz o álbum. Mas há um consenso no sentido de que a gente tem a vontade de continuar e expandir nossos atos enquanto duo. 

MI: Contem sobre a concepção do disco – desde as primeiras ideias, passando pela escolha do single e a arte de capa.

RA: Este é um álbum de conversas sobre a Pandemia mas somente com sons. A música aqui serviu como um vetor de saúde para nossas criatividades em um processo no qual Jalala enviava os gatilhos e eu reagia disparando meu fluxo depois de uma primeira escuta que na qual eu na maioria das vezes nem chegava a ouvir os temas inteiros. Ouvia a energia inicial e seguia no processo. Depois de gravar eu praticamente nem editava o meu material. Apenas sobrepunha as tracks de Piano e de Trompete dando apenas uma equalização muito básica em termos de volumes e alturas e enviava para Jalala ouvir. Assim fomos processando e desenvolvendo quase 30 peças sonoras.

CJ: Sim, esse Vol 1 é uma seleção desse período… e a cena é bem essa. Em meados de 2020 eu tive o impulso de atormentar meus amigues mandando mini impros via whatsapp (gravados em outro aplicativo) – e tive a alegria de várias pessoas estabelecerem réplicas, eventuais, ao longo dos meses. A coisa ia entrando em 2021… e o Rômulo foi a única pessoa que adotou sistematicamente uma prática de replicar meus audios, o que foi incrível… muitas falas e escutas se desdobraram daí.

E, como eu disse, os procedimentos que se reúnem em torno da palavra ‘desenho’, mas que incluem procedimentos diversos, como colagens, raspagens, escovações, borrões, costuras, efeitos de fotocopiadora, distorções digitais, trabalho climatográfico (deixar o trabalho exposto no tempo) etc, estão sempre em jogo. Então era só uma questão de ocasião, para chegar a um resultado da capa que nos conviesse.

MI: Indiquem links de referência para os trabalhos de vocês (individualmente).

Romulo Alexis:

www.romulex.tumblr.com

Chico Jalala:

https://www.instagram.com/jalalaamani/

https://sonatorio.bandcamp.com/track/carteadas-binaural

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