Nariá Assis – muda

Em seu disco de estreia, a compositora e pianista Nariá Assis pesquisa alguns materiais e princípios básicos como exercícios vocais ligados à prática do teatro físico, nomeadamente a técnica dos ressonadores vocais de Jerzy Grotowski; a improvisação livre ao piano orientada pela ideia de preencher um tempo/espaço liso sem contá-lo, como teorizou Pierre Boulez e o universo da oposição rítmica pulsante e não-pulsante. A artista conversou com o Música Insólita pela ocasião de seu lançamento:

Nariá Assis em seu estúdio caseiro. Foto: divulgação

Música Insólita: Compartilhe com a gente sobre sua trajetória na música. Conte como tem sido seus caminhos até aqui?

Nariá Assis: Comecei a estudar piano quando criança por influência da minha avó Alba que sempre foi muito entusiasta das artes, tocava piano, violão, cantava e escrevia canções. Depois disso minha primeira experiência impactante com música foi tocar na banda do meu Ensino Médio no CAP-UERJ, a Ah! Banda!, que existe até hoje e é um projeto incrível dirigido pela Ilana Linhales. Daí em 2008 eu entrei no curso de música, fiz bacharelado em piano, e na faculdade me envolvi bastante com a composição, peguei algumas disciplinas desse curso. Eu fazia muitas estreias de peças de meus colegas que faziam composição, participava de festivais de piano, masterclasses, cantava em coros e coisas assim. Nesse período eu também fazia teatro, participei de duas companhias e compus junto com colegas uma trilha sonora para um espetáculo de uma delas, além de uma sonorização para uma revista-disco e o DVD Institucional do Grupo Moitará. Tinha alguns projetos por fora da faculdade, quase todos ligados à música contemporânea e ao universo da música clássica no geral. Participei da organização do ENCUn no Rio de Janeiro em 2010 e de um dos concertos do Panorama da Música Brasileira no mesmo ano, por exemplo.

Quando eu terminei a faculdade em 2012 eu me dediquei quase inteiramente a dar
aulas particulares de piano. Eu participava de uma cooperativa de professoras de
piano e canto, o Pianópera, tinha muitos alunos, organizava recitais e nesses anos também fiz uma pós-graduação em Pedagogia do Piano. No meio disso fiz um mestrado e passei num concurso público, pro cargo que atuo até hoje que é de pianista colaboradora na UFJF/MG.

Mais recentemente, nos últimos 4 anos, eu tenho tentado retomar a composição e nisso rola um processo de abrir o leque para outras atuações, incluindo sair um
pouco do acústico para entrar no mundo eletrônico. Porém, essa retomada tem sido bem lenta porque a minha carreira na faculdade me leva a continuar uma formação acadêmica, que também é uma área que gosto muito. Nesse sentido, desde 2020 eu venho combinando essa retomada com o início de um outro processo que é um doutorado em música.

MI: Você tem uma pesquisa sobre ritmo/ pulso em andamento já há alguns anos.
Pode falar um pouco sobre? E de que forma seu trabalho como artista ecoa suas
pesquisas acadêmicas?

NA: Eu comecei a estudar esse tema antes do mestrado, porque eu fiz uma matéria como aluna especial na pós com a pianista Sara Cohen que é especialista em estudos de ritmo e depois foi minha orientadora. O século XX foi um período de intensa experimentação no campo do ritmo, e um dos efeitos dessa experimentação foi que em determinados repertórios o ritmo tradicional que havia nas músicas clássicas anteriores, baseado em pulsações e agrupamentos dessas pulsações, desaparece para dar lugar a ritmos não-pulsantes. O surgimento da música eletrônica obviamente tem bastante influência nesse processo.

A compositora e pianista Nariá Assis é pianista formada pela UFRJ. Atuou como pianista principalmente no contexto do repertório da música contemporânea, tendo estreado diversas obras de compositores brasileiros em eventos nacionais e internacionais.

Quando eu fiz meu mestrado me concentrei em avaliar o que os compositores da época haviam escrito sobre isso, para entender se era intencional essa construção de ritmos não-pulsantes e de que maneira eles buscavam construir esta sonoridade. Eu não sabia se isso era de fato um tema que poderia ser estudado de forma aprofundada, não tinha certeza se ele dava “caldo”.

Hoje, já como doutoranda, eu começo a achar que esse pode ser de fato um campo de estudos. No geral é um assunto que aparece bem mais no repertório moderno e contemporâneo da música de concerto, mas também tem relevância na música experimental, em vários gêneros eletrônicos como drone e ambient, e também em outros gêneros pode aparecer de forma bem sutil, na suspensão muito pontual da pulsação para um efeito estético. Dois compositores cuja obra é um “prato cheio” para este assunto são Ligeti e Xenakis. Meu doutorado vai focalizar nestes dois por enquanto. Mas esta temática tem várias possíveis ramificações pela perspectiva da filosofia, apreciação musical, cognição e etnomusicologia, além da própria teoria da música.

Agora sobre como isso ecoa na minha produção eu acho que primeiro eu começo a estudar isso porque é uma sonoridade que me agradava e inconscientemente eu
buscava trabalhar nas composições. Então a pesquisa que foi o eco de algumas
preferências artísticas. Depois, no processo deste disco em específico aí acho que
sim já fui mais influenciada pela pesquisa. Eu acho que a pulsação tem um papel
muito crucial na construção do que entendemos como música, um som que não se pode “bater o pé” já é encarado imediatamente como algo estranho, é mais fácil entender como música um beat composto de sons esquisitos do que um som de violino glissando caoticamente sem parar e sem estabelecer nenhuma regularidade. O papel do ritmo aí é fundamental. Na faixa 4 do disco eu tento brincar um pouco com isso, o que seria simular uma passagem do não-pulsante para o pulsante.

MI: Quais são as suas maiores referências em música, mas também nas artes em geral?

NA: A música clássica no geral, sobretudo para piano, é uma grande referência, embora atualmente eu esteja ouvindo muito mais outras coisas. Por conta do doutorado eu tenho ouvido muito Xenakis, suas peças eletroacústicas inclusive. Também por conta da pesquisa passei a ouvir coisas como Burial, Aphex Twin, Ellen Fullman, Eliane Radigue, Autechre e Miki Yui. Eu tento acompanhar os lançamentos do Música Insólita, destacaria os discos de Orlando Scarpa Neto, b-Aluria e Caeso. Também gosto muito do disco Teia de Inés Terra e Julia Teles (RKZ Records, 2021). Eu acompanho bastante a canção brasileira também, o disco Nordeste Ficção da Juliana Linhares foi uma das coisas que mais ouvi no ano passado. Também ouvi muito o disco Estreite de Giovani Cidreira e Josyara e os discos IIII+IIII e 0000+0000 do ÌFÉ. O teatro é outra referência importante: teatro físico, clown, máscaras (Grupo Moitará), Nô japonês, commedia dell’arte (Nosconosco), LUME Teatro são a parte do teatro que já tive contato e me interessam mais.

MI: Como podemos conhecer mais do seu trabalho?

NA: Tem o meu canal no Youtube – https://www.youtube.com/nariaassis
meu Instagram – @nar.assis e minha dissertação de mestrado – https://unl-pt.academia.edu/NariáAssisRibeiro

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